Como a máfia chinesa opera uma fábrica de golpes em Mianmar

 


No KK Park, na fronteira entre Mianmar e a Tailândia, aqueles que se recusam a aplicar golpes enfrentam tortura, inanição e até mesmo o assassinato.

Aaron não conseguia acreditar na sua sorte. Uma empresa de tecnologia em ascensão na Tailândia lhe oferecia o emprego dos sonhos: salário alto, ótimos benefícios e uma saída para um futuro sombrio no sul da África.

"Eu esperava ir trabalhar no exterior. E, um dia, fui abordado", disse Aaron. "Achei que tudo fosse legítimo — até chegar a Bangkok."

No aeroporto, Aaron recebeu uma recepção calorosa e foi conduzido a um carro com outros dois jovens do leste da África.

"Deveríamos ir para um hotel que fica a uns 10 minutos do aeroporto. Mas seguimos em uma direção diferente."


O motorista dirigiu por quase oito horas antes de chegar à cidade fronteiriça tailandesa de Mae Sot, de onde Aaron e seus companheiros foram traficados através do rio Moei para uma região de Mianmar devastada pela guerra.

"Havia pessoas armadas", recordou ele. "Disseram que devíamos entrar no barco — e atravessamos."

Mianmar: polo de tráfico de pessoas


Aaron e seus companheiros foram traficados para um complexo semelhante a uma prisão, chamado KK Park. Lá, milhares de pessoas são forçadas a cometer crimes — aplicando golpes em pessoas nos Estados Unidos, na Europa e na China. A ONU estima que mais de 100 mil pessoas estejam sendo forçadas a trabalhar em centros de golpes em Mianmar.

A equipe de investigação da DW conversou com vários sobreviventes do complexo. Eles descreveram vigilância constante, tortura e até assassinatos semanais.

"Trabalhávamos 17 horas por dia, sem reclamações, sem folgas, sem descanso", disse Lucas, um jovem do oeste da África. "E, se dizemos que queremos ir embora, eles nos ameaçam dizendo que vão nos vender ou nos matar."

Mas quem está por trás dessa operação brutal?

Os colaboradores locais em Mianmar


Analisamos imagens exclusivas feitas dentro do complexo e conversamos com vários sobreviventes que foram mantidos no local. Todos reconheceram os emblemas nos uniformes dos guardas.

Trata-se da insígnia da Força Oficial de Guarda de Fronteira (*Border Guard Force*), um grupo de ex-rebeldes que cessou os combates contra a junta militar de Mianmar há uma década em troca de liberdade de ação em seus territórios.

Seus soldados estão presentes no KK Park. No entanto, segundo várias fontes, os chefes da operação são chineses.

Rastreando criptomoedas até o KK Park

Seguimos o rastro do dinheiro de várias vítimas de golpes para verificar aonde ele levava. O caminho nos conduziu a carteiras de criptomoedas utilizadas pelo KK Park para arrecadar os fundos das vítimas. A partir daí, os recursos eram transferidos para outras carteiras, que funcionam como contas digitais e armazenam criptomoedas.


Uma dessas carteiras foi aberta por Wang Yi Cheng, um empresário chinês radicado na Tailândia. Ele recebeu o equivalente a dezenas de milhões de dólares em criptomoedas provenientes de carteiras usadas pelo KK Park.

Wang integra uma rede mais ampla de empresários chineses no exterior, a qual, em última análise, remete a um notório chefe da máfia chinesa.

Na época em que recebia transferências diretas de carteiras gerenciadas pelo KK Park, Wang ocupava o cargo de vice-presidente da Associação de Intercâmbio Econômico Tailândia-Ásia (*Thai-Asia Economic Exchange Association*), uma entidade sediada em Bangkok que promove relações entre a China e a Tailândia.

A Thai-Asia divide suas instalações com o Centro de Intercâmbio Cultural Overseas Hongmen (*Overseas Hongmen Culture Exchange Center*), que foi alvo de uma operação policial em 2023 — juntamente com outro centro Hongmen em Bangkok — por operar ilegalmente e servir de fachada para o crime organizado chinês.

A conexão chinesa

Essas organizações estão estreitamente ligadas a Wan Kuok Koi, também conhecido como "Broken Tooth" (Dente Quebrado). Ele lançou a Associação Mundial de História e Cultura Hongmen em 2018, uma organização que, desde então, sofreu sanções dos EUA por seu envolvimento com o crime organizado.

No entanto, a organização Hongmen de Wan também promove a ambiciosa Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês) de Pequim — um projeto de infraestrutura multibilionário destinado a integrar ainda mais a China à economia global. A iniciativa também é conhecida como a Nova Rota da Seda.

"Wan Kuok Koi também costuma citar uma frase com bastante frequência: ele diz que, antigamente, lutava pelos cartéis e que, agora, luta pelo Partido Comunista Chinês", disse à DW Jason Tower, um importante especialista em crime organizado do Instituto dos Estados Unidos para a Paz (USIP).

A área onde o KK Park foi construído é uma região-alvo dos investimentos da BRI chinesa. Relatórios do governo chinês exaltaram projetos de desenvolvimento nas imediações do KK Park como parte das ambições da BRI, embora o governo tenha posteriormente se distanciado deles após alegações de fraudes generalizadas.

O KK Park, em si, não é mencionado em comunicados oficiais chineses, nem houve cerimônias de lançamento da pedra fundamental, como ocorreu com outros projetos de desenvolvimento na região.

Em vez disso, o KK Park foi construído especificamente para a prática de golpes.

A rede do KK Park se expande

As operações de fraude do KK Park remontam a uma rede complexa de empresas e associações utilizadas por criminosos para legitimar seus crimes e lavar milhões em ativos obtidos ilegalmente — e essa rede continua a se expandir do Sudeste Asiático para a África, a Europa e a América do Norte.

"Realmente vemos que essas redes criminosas estão se tornando cada vez mais poderosas, influentes e arraigadas em diferentes países ao redor do mundo", diz Tower.

"E os esforços das autoridades policiais estão apenas tocando a ponta do iceberg."

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