A Ucrânia quer armas em troca dos soldados, mas analistas afirmam que a Coreia do Sul teme provocar a Rússia e Pyongyang.
A decisão pendente da Ucrânia sobre dois prisioneiros de guerra norte-coreanos, que declararam querer ir para a Coreia do Sul, deu a Kiev uma vantagem ao pressionar Seul a vender armas para sua guerra contra a Rússia, segundo observadores. Os soldados, capturados no início de 2025 após serem enviados a Kursk para apoiar o esforço de guerra russo, são considerados cidadãos sul-coreanos pela constituição de Seul, que define toda a península coreana como território do país. Seul afirmou que estaria disposta a aceitar os soldados caso eles decidissem desertar.
Embora a Ucrânia tenha indicado que não repatriará à força prisioneiros de guerra norte-coreanos contra a vontade deles, ainda não tomou uma decisão final sobre o destino dos dois soldados, pois a questão também está ligada às negociações de troca de prisioneiros com a Rússia.
A campanha de Kiev por armas sul-coreanas ganhou urgência à medida que o país luta para obter armamento suficiente e a custos acessíveis junto a parceiros ocidentais, enquanto Seul permanece cautelosa quanto ao envio de ajuda letal para uma zona de guerra ativa. A União Europeia também pressiona Seul a permitir o envio de armas para a Ucrânia; um possível contrato para a construção de submarinos para o Canadá é visto por observadores como um incentivo em potencial. A recente visita do ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, a Seul fez parte dos esforços de Kiev para persuadir a Coreia do Sul a vender suas "armas K" — descritas por observadores como equipamentos de bom custo-benefício, tecnologicamente avançados e com prazos de entrega mais rápidos do que os de muitos concorrentes.
Sybiha e seu homólogo sul-coreano, Cho Hyun, concordaram na terça-feira em "buscar uma solução para a questão dos prisioneiros de guerra norte-coreanos na Ucrânia de maneira consistente com o direito internacional e os princípios humanitários, respeitando o livre-arbítrio dos indivíduos envolvidos", informou o Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Sul em um comunicado. "As duas partes também trocaram opiniões aprofundadas sobre a guerra na Ucrânia e os principais desdobramentos regionais, incluindo aqueles na península coreana." Na Coreia do Norte, ser capturado vivo é considerado um ato de deslealdade, uma vez que os soldados são instruídos a tirar a própria vida em vez de cair nas mãos do inimigo. Se repatriados, os dois prisioneiros de guerra poderiam enfrentar punições severas. “Ao que parece, Kiev está usando a questão dos prisioneiros de guerra (POWs) como moeda de troca para pressionar Seul a flexibilizar as restrições à exportação de armas para a Ucrânia, visto que o país enfrenta dificuldades para obter armamentos ocidentais, que possuem custos elevados”, disse Doo Jin-ho, diretor do Centro de Pesquisa da Eurásia do Instituto de Pesquisa da Coreia para Estratégia Nacional, ao *This Week in Asia*.
Para Seul, tal exigência seria difícil de aceitar devido a restrições legais e políticas sobre a exportação de armas para países em guerra, bem como ao receio de danos irreparáveis às relações já congeladas com a Rússia, afirmou ele. Relata-se que os prisioneiros são soldados de baixa patente com valor limitado em termos de inteligência — e acredita-se que a agência de espionagem da Coreia do Sul os tenha entrevistado —, mas o caso deles adquiriu uma dimensão diplomática mais ampla. Sybiha procurou enquadrar a questão como parte de um desafio de segurança compartilhado, citando a crescente cooperação militar de Moscou com Pyongyang durante uma visita à fronteira intercoreana, fortemente fortificada, na segunda-feira.
“Ao envolver a [Coreia do Norte] em sua guerra contra a Ucrânia e fortalecer o regime de Pyongyang, Moscou está exportando instabilidade para a Península Coreana”, disse ele, acrescentando que a Ucrânia estava pronta para oferecer à Coreia do Sul uma “parceria de segurança mutuamente benéfica”. Mais tarde, Sybiha visitou o Instituto Asan de Estudos Políticos, onde se reuniu com autoridades do *think tank* e afirmou que a Rússia estava pressionando fortemente pela devolução dos prisioneiros de guerra norte-coreanos. “Moscou exige com firmeza que os prisioneiros norte-coreanos sejam entregues ao lado russo, sugerindo que, em contrapartida, libertaria um número muito maior de prisioneiros ucranianos”, disse uma fonte bem informada ao *This Week in Asia*, citando Sybiha.
“Segundo o chanceler Sybiha, a Ucrânia está disposta a atender positivamente ao pedido de Seul para enviá-los ao Sul; no entanto, nesse cenário, as autoridades ucranianas enfrentariam críticas internas por perderem a oportunidade de garantir a libertação de mais prisioneiros ucranianos”, afirmou a fonte. Sybiha também ressaltou que a Ucrânia estava ganhando vantagem na guerra de drones contra a Rússia ao empregar uma frota crescente de drones inovadores de fabricação nacional. Essa vantagem prejudicou significativamente as linhas de suprimento russas e atenuou o ímpeto ofensivo de Moscou. “Ele disse que a experiência da Ucrânia no campo de batalha e sua *expertise* em guerra de drones seriam de grande valor para a segurança da Coreia do Sul”, disse a fonte. “Ao que tudo indica, Kiev está promovendo sua experiência e tecnologia em guerra com drones como moeda de troca.” Doo observou que a UE também estava pressionando a Coreia do Sul a fornecer assistência militar à Ucrânia, citando o aprofundamento da aliança militar entre a Rússia e a Coreia do Norte.
“A visita de Sybiha a Seul está aparentemente alinhada com o anúncio iminente da empresa vencedora da licitação para o Projeto de Submarinos de Patrulha do Canadá", disse Doo. A Coreia do Sul e a Alemanha disputam um contrato de até US$ 40 bilhões para construir submarinos para o Canadá. "A Coreia do Sul enfrenta um dilema diplomático em relação a essa questão dos prisioneiros de guerra, na qual seus laços com a UE, a Rússia, a Ucrânia, a Coreia do Norte e o Canadá estão todos interligados", afirmou ele.
Jeh Sung-hoon, professor de estudos russos na Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros, disse que Seul abordava a questão sob uma perspectiva humanitária, enquanto Kiev buscava usá-la como moeda de troca.
"A Ucrânia aparentemente busca fechar um acordo com a Coreia do Sul, trocando os prisioneiros de guerra pelo apoio de Seul ao esforço de guerra contra a Rússia", disse Jeh. "No entanto, o governo sul-coreano tem poucos motivos para acelerar a transferência deles, o que atrairia grande atenção da mídia, arriscaria prejudicar as relações com Moscou e aumentaria as tensões com Pyongyang." A Coreia do Sul já havia fornecido apoio indireto à Ucrânia, principalmente por meio do empréstimo ou exportação de projéteis de artilharia para os Estados Unidos. Esse arranjo permitiu que Washington reabastecesse seus estoques reduzidos enquanto enviava sua própria munição diretamente para a Ucrânia. Contudo, acredita-se amplamente que a administração do presidente Lee Jae-myung tenha interrompido esse tipo de fornecimento indireto de armas letais, limitando a assistência à ajuda humanitária e à reconstrução pós-guerra.
"A Ucrânia está empenhada em arrastar o Ocidente — incluindo a Coreia do Sul e o Japão — para o esforço de guerra contra a Rússia o máximo possível", disse Jeh.
Kim Sae-me, pesquisadora do Centro de Política Externa e Segurança Nacional do Instituto Asan de Estudos Políticos, disse que a viagem de Sybiha a Seul visava enfatizar a necessidade de maior cooperação, uma vez que a Coreia do Sul estava atrás de outros países do Indo-Pacífico — incluindo Japão, Austrália e Nova Zelândia — no apoio à resistência da Ucrânia contra as forças russas. "Mas a Coreia do Sul precisa caminhar em uma corda bamba diplomática", disse ela.






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