Meio Ambiente : Os Guardiões Noturnos das Cidades: A Importância e a Preservação dos Morcegos Insetívoros

 Nas grandes metrópoles, enquanto a maioria da população dorme, um exército silencioso assume o controle dos céus urbanos. Os morcegos insetívoros são os principais controladores biológicos de pragas nas cidades, atuando como verdadeiros inseticidas naturais. Longe de serem as criaturas assustadoras do imaginário popular, esses mamíferos voadores desempenham um papel ecológico e sanitário insubstituível para a sobrevivência e o bem-estar humano nos centros urbanos.

Benefícios e o Impacto em Números


O impacto positivo desses animais na saúde pública e na economia é gigantesco. Estima-se que um único morcego insetívoro consiga devorar cerca de 600 a 1.000 insetos por hora. Ao expandir esse cálculo para o ano inteiro, uma colônia de tamanho médio pode consumir milhões de insetos anualmente, totalizando centenas de quilos de pragas retiradas de circulação.

Os principais benefícios trazidos por essa dieta voraz incluem:


Controle de doenças: Eles eliminam toneladas de mosquitos, incluindo o Aedes aegypti (transmissor da dengue, zika e chikungunya) e o pernilongo comum (Culex).

Manejo de pragas urbanas: Consumem mariposas, cupins e formigas em suas fases aladas, protegendo fiações, estruturas de madeira e plantações urbanas.

Economia e saúde ambiental: Ao realizarem esse controle de forma natural, os morcegos reduzem drasticamente a necessidade de aplicação de inseticidas químicos, que poluem o ar, o solo e a água das cidades.

Por que os humanos NÃO devem interagir fisicamente com eles?

Apesar de serem vizinhos extremamente benéficos, os morcegos nunca devem ser tocados ou manipulados diretamente. Essa restrição é fundamental por razões de segurança e saúde pública:

Risco de transmissão de raiva: Embora a incidência da doença na população de morcegos insetívoros seja muito baixa, eles são reservatórios naturais do vírus da raiva. O contágio em humanos ocorre pela mordida, arranhão ou contato da saliva do animal com mucosas e ferimentos.

Comportamento de defesa: Os morcegos são animais silvestres e tímidos. Eles não atacam humanos deliberadamente, mas se forem encurralados, segurados ou se sentirem ameaçados, vão morder para se defender.

Sinal de alerta: Um morcego saudável voa apenas à noite e se esconde de dia. Se um indivíduo for encontrado caído no chão, voando sob a luz do sol ou pendurado em locais baixos durante o dia, há uma grande chance de ele estar doente — aumentando consideravelmente o risco caso alguém tente pegá-lo.

Além do Estereótipo:

 A Beleza Oculta dos Morcegos


A cultura pop, os mitos e o cinema de terror costumam retratar os morcegos como criaturas sinistras, agressivas e sombrias. No entanto, quando nos despimos desses preconceitos, descobrimos animais de uma estética única e surpreendente beleza.

Seus corpos pequenos e peludos, com rostos que variam de expressões que lembram pequenos cachorros a traços delicados e curiosos, revelam a impressionante diversidade dos mamíferos. A anatomia de suas asas é uma verdadeira obra-prima da evolução: membranas de pele finas, elásticas e perfeitamente desenhadas sobre suas mãos modificadas, que proporcionam um voo acrobático, preciso e de extrema elegância, incomparável ao de qualquer ave. Compreender a complexidade de seu sistema de ecolocalização — o "radar" natural que permite que naveguem no escuro absoluto com maestria — transforma o medo em profunda admiração.

Benefícios e o Impacto em Números

O impacto positivo desses animais na saúde pública e na economia é gigantesco. Estima-se que um único morcego insetívoro consiga devorar cerca de 600 a 1.000 insetos por hora. Ao expandir esse cálculo para o ano inteiro, uma colônia de tamanho médio pode consumir milhões de insetos anualmente, totalizando centenas de quilos de pragas retiradas de circulação.


Nas grandes cidades, os morcegos insetívoros se fixam em locais que imitam as fendas estreitas, cavernas e ocos de árvores de seus hábitats originais. Graças à sua grande flexibilidade anatômica, eles se abrigam em estruturas artificiais escuras, quentes e pouco frequentadas pelas pessoas.Os pontos mais comuns onde as colônias se estabelecem dentro do ambiente urbano dividem-se em duas categorias: Estruturas de Prédios e Residências

Forros e sótãos: O vão livre entre o teto e o telhado das casas e edifícios é o esconderijo preferido. São locais escuros e isolados termicamente, ideais para abrigar colônias numerosas.

Juntas de dilatação: Aqueles pequenos vãos verticais de poucos centímetros que separam blocos de grandes edifícios oferecem uma proteção perfeita contra predadores.

Caixas de persianas e ar-condicionado: Frestas e compartimentos externos de janelas ou caixas de proteção de aparelhos de ar-condicionado costumam atrair pequenas colônias.

Cumeeiras e frestas de telhados: O espaço sob os encaixes das telhas ou nas vigas de sustentação serve como portas de entrada e moradia

.Chaminés e dutos: Tubulações desativadas,  chaminés de lareiras e dutos de ventilação.

 Infraestrutura Urbana e Áreas Verdes

Vãos de pontes e viadutos: 

Grandes estruturas públicas de concreto costumam abrigar colônias imensas de morcegos insetívoros. À noite, eles saem em massa desses locais para caçar insetos.

Túneis e bueiros de drenagem: Galerias subterrâneas e de escoamento de água que ficam secas na maior parte do tempo fornecem a escuridão contínua de que precisam.

Parques e praças: Embora os morcegos frugívoros (que comem frutas) prefiram as copas das árvores, os morcegos insetívoros utilizam ocos de árvores antigas presentes em parques urbanos para repousar durante o dia. A proximidade com áreas verdes facilita o acesso aos insetos atraídos pela iluminação pública próxima.


Se os morcegos insetívoros deixassem de existir, a vida nas grandes cidades se tornaria insustentável, perigosa e extremamente cara. O desaparecimento desses animais provocaria um colapso imediato no controle sanitário e ambiental urbano.

A realidade cotidiana nas metrópoles mudaria drasticamente em quatro áreas principais:

🦟 1. Epidemias Incontroláveis e Crise na Saúde Pública

Sem o predador que consome milhões de insetos por noite, as populações de mosquitos explodiriam a níveis catastróficos.

Os hospitais ficariam superlotados com surtos simultâneos e massivos de dengue, zika, chikungunya e febre amarela, transmitidos pelo Aedes aegypti.

O simples ato de andar na rua ou dormir com as janelas abertas se tornaria inviável devido às nuvens de pernilongos comuns (Culex).☠️ 2. Cidades Dependentes de Inseticidas Químicos

Para tentar conter o caos dos insetos, governos e cidadãos seriam obrigados a usar volumes recordes de veneno.

O uso massivo de "fumacê" e sprays químicos poluiria severamente o ar urbano.

A contaminação do solo e da água subterrânea aumentaria os casos de intoxicação em humanos e animais de estimação.

Com o tempo, os insetos desenvolveriam resistência aos venenos, tornando os produtos químicos inúteis e exigindo fórmulas cada vez mais tóxicas.

🏢 3. Prejuízos Financeiros e Estruturais Gigantescos

A ausência dos morcegos pesaria diretamente no bolso dos moradores e na economia das cidades.Infestações de cupins e formigas: Sem os morcegos para caçar as "aleluias" e "siriricas" durante as revoadas, prédios, fiações elétricas, monumentos históricos e móveis sofreriam danos severos, gerando custos bilionários em reformas.

Gastos familiares: O orçamento doméstico seria impactado pelo gasto contínuo com telas nas janelas, repelentes elétricos e dedetizações frequentes.

🌳 4. Desequilíbrio e Silêncio nos Parques Urbanos

A biodiversidade das áreas verdes das cidades entraria em declínio.As árvores de parques e praças sofreriam com o ataque de lagartas e pragas (que antes viravam mariposas comidas pelos morcegos), enfraquecendo a vegetação urbana.

Paradoxalmente, outras espécies de animais benéficos, como pássaros urbanos e anfíbios, começariam a morrer devido ao envenenamento indireto pelo excesso de inseticidas na cadeia alimentar.

Em resumo, os morcegos insetívoros funcionam como uma infraestrutura invisível de saneamento básico. Sem eles, as cidades gastariam bilhões de reais para tentar fazer, de forma artificial e poluente, o trabalho que esses animais realizam de graça, todas as noites, com absoluta perfeição.


Importada do Egito: A Ideologia Extremista que Inspirou o Boko Haram

 Esta é a história de como o extremismo islâmico moderno surgiu nos confins de uma prisão africana e chegou à Nigéria, escalando para um incêndio interminável de insurgência.


Em agosto de 2016, Mamman Nur, um dos principais comandantes do Boko Haram, posicionou-se diante de uma câmera na orla da Floresta de Sambisa — um vasto esconderijo terrorista no nordeste da Nigéria — e fez uma declaração dramática. Ele acusou publicamente o líder supremo do grupo, Abubakar Shekau, de desvios doutrinários e transgressões. Afirmou que Abubakar estava embriagado pelo poder, matando seus próprios comandantes por divergências menores e derramando o sangue de outros muçulmanos. Citou nomes de vários membros do grupo terrorista que Shekau havia matado, incluindo Mustapha Chad, Abu Amr Falluja, Kaka Allai e Mallam Ba’ana Banki.

Ele intitulou a gravação de *Exposé* (Revelação), utilizando deliberadamente como arma a mesma palavra que Shekau havia usado para atacar seus críticos. Também invocou as palavras do antigo porta-voz do Estado Islâmico, Abu Muhammad al-Adnani, dizendo: "Quem mudar, nós também o mudaremos". Sua mensagem não era apenas uma ameaça; era também uma campanha para destituir Shekau da liderança do grupo terrorista. Em poucos meses, a facção de Mamman separou-se formalmente para formar a Província do Estado Islâmico na África Ocidental (ISWAP), enquanto Shekau liderava o *Jama’atu Ahlussunnah Lidda’awati wal Jihad* (JAS). Esse movimento já existia antes de o Boko Haram jurar lealdade ao Estado Islâmico.

Por trás dessa divisão repentina, havia um debate teológico que vinha se desenrolando há décadas nos movimentos salafistas-jihadistas globais. O debate girava em torno de uma questão que, repetidamente, dividiu organizações jihadistas do Oriente Médio à Bacia do Lago Chade: até que ponto a prática do *takfir* — declarar outros muçulmanos como descrentes — pode ir antes que essa doutrina, destinada a validar a *jihad*, comece a minar o próprio conceito de *jihad*?

Com base em correspondências internas do Boko Haram, tratados em árabe, gravações multimídia e sermões locais, o HumAngle traça a trajetória de uma ideologia nascida no Egito que passou pela Jordânia, pelo Iraque e pela Síria antes de criar raízes no nordeste da Nigéria. O que mais tarde se manifestou como uma disputa de poder pessoal entre Shekau e Mamman Nur foi, na verdade, o auge de uma divergência ideológica de décadas sobre fé, autoridade, governança e os limites da violência. A trajetória que transformou os antigos aliados terroristas em inimigos ferrenhos teve início várias décadas atrás, em uma cela de prisão no Egito.


A história começa com Sayyid Qutb, um autor egípcio e uma das figuras mais proeminentes do renascimento islâmico sunita moderno. Ele é o autor de uma obra islamista popular, *Ma’alim fi al-Tariq* — mais conhecida como *Milestones* (Marcos) —, escrita enquanto estava preso sob o governo do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser e publicada pouco antes de sua execução, em 1966. Dizia-se que o livro transformara um conceito islâmico clássico em uma doutrina política revolucionária.

O termo *jahiliyya* referia-se literalmente à era árabe pré-islâmica, anterior à mensagem do Profeta Maomé, mas Sayyid conferiu-lhe um significado radicalmente diferente em seu livro. Ele argumentava que as sociedades muçulmanas contemporâneas haviam recaído em uma nova *jahiliyya* por aceitarem sistemas políticos que colocavam a autoridade humana acima da lei divina.

Sayyid acreditava firmemente que a soberania é domínio exclusivo de Deus. Ele sustentava que qualquer governo que criasse leis à margem da Sharia — mesmo que seus líderes se declarassem muçulmanos — estava, na prática, exercendo uma forma moderna de paganismo. A solução, segundo ele, seria o surgimento de uma liderança islâmica comprometida, capaz de se distanciar de uma sociedade corrompida antes de trabalhar para transformá-la. Essa estrutura radical tornar-se-ia uma das ideias mais influentes na literatura jihadista contemporânea. Variações dessa ideia apareceriam mais tarde nos escritos e discursos de organizações militantes, abrangendo desde o Egito e a Jordânia até o Iraque, a Síria e a Nigéria. A influência do livro sobre o Boko Haram não foi nem indireta nem acidental.

Mohammed Yusuf, fundador do Boko Haram, defendia abertamente Sayyid contra críticos dentro do movimento salafista da Nigéria. Em um dos sermões reproduzidos em *The Boko Haram Reader* — livro organizado por Abdulbasit Kassim e Michael Nwankpa —, Yusuf advertia seus seguidores a não lerem obras que menosprezassem Sayyid e Hasan al-Banna, fundador da Irmandade Muçulmana, uma organização islamista sunita transnacional criada no Egito em 1928.

Ele exaltava Sayyid como um erudito a quem Allah concedera uma compreensão singular do comunismo e daquilo que ele descrevia como sistemas políticos politeístas. Citando o estudioso de Hadith sírio de origem albanesa Muhammad Nasir al-Din al-Albani, ele argumentou que nenhum estudioso contemporâneo havia explicado o significado de *la ilaha illa Allah* (não há divindade além de Allah) de forma tão abrangente quanto Sayyid o fez em seu livro *Milestones*. Ele também afirmou que os escritos de Sayyid desempenharam um papel ao inspirar Osama bin Laden.

Ao longo de grande parte de sua pregação pública, o fundador do Boko Haram apresentava-se como alguém que restaurava os ensinamentos originais do Islã, em vez de introduzir novas doutrinas. No entanto, seus sermões revelavam que uma das bases intelectuais de sua organização terrorista havia sido lançada décadas antes por um autor egípcio, que escrevera a partir da prisão. Embora Sayyid não tenha criado o Boko Haram, ele introduziu a linguagem conceitual que ideólogos jihadistas expandiram, refinaram e, por fim, levaram para o nordeste da Nigéria.


Enquanto Sayyid parecia ter estabelecido as bases para as ideologias jihadistas radicais, Abu Muhammad al-Maqdisi, um escritor palestino e islamista salafista, desenvolveu a estrutura jurídica. Nascido em 1959, o ideólogo jordaniano surgiu na década de 1980 como um dos teóricos mais influentes do salafismo-jihadista moderno. Seu livro *Millat Ibrahim* (A Religião de Abraão), concluído em 1984, baseou-se nos conceitos de soberania de Sayyid, transformando-os em uma doutrina prática.

Abu Muhammad argumentava que os líderes que optavam por governar com base em leis convencionais e seculares, em vez da revelação divina, haviam se desviado dos ensinamentos do Islã e, portanto, abandonado a religião. A partir disso, ele desenvolveu o conceito de *takfir al-hukkam* (declarar tais governantes como apóstatas) e a doutrina de *al-wala’ wal-bara’* (lealdade absoluta aos crentes e rejeição total aos descrentes, bem como às suas instituições e sistemas políticos).

Em uma publicação do *Combating Terrorism Center*, Joas Wagemakers, professor associado de Estudos Islâmicos e Árabes na Universidade de Utrecht, afirmou que Abu Muhammad foi o primeiro islamista proeminente a declarar publicamente a família governante saudita como apóstata por abraçar a ideia de democracia. Sua influência estendeu-se muito além de seus próprios escritos extremistas.

Em meados da década de 1990, ele conheceu na prisão um jovem militante jordaniano chamado Ahmad Fadil al-Khalayleh, mais conhecido como Abu Mus’ab al-Zarqawi. Os dois passaram anos detidos juntos, com Abu Muhammad atuando como o principal mentor ideológico de Abu Musab. Quando Abu Musab fundou posteriormente a Al-Qaeda no Iraque, após a invasão dos EUA em 2003, ele levou consigo grande parte dessa estrutura intelectual. Essa relação acabou se tornando o primeiro grande estudo de caso de um padrão que mais tarde se repetiria no Boko Haram.


Por volta de 2004, Abu Mus’ab havia levado a doutrina da excomunhão muito além do que seu mentor considerava aceitável. Sua campanha contra os xiitas iraquianos baseava-se na excomunhão em massa e na violência indiscriminada, tratando comunidades inteiras como alvos militares legítimos. Abu Muhammad opôs-se publicamente a essa abordagem. Após ser libertado da prisão em julho de 2005, ele declarou à Al Jazeera que era "proibido equiparar o xiita comum aos americanos em um conflito armado". Sua objeção não dizia respeito à legitimidade da própria jihad, mas sim à crescente lista de muçulmanos declarados descrentes. Abu Mus’ab rejeitou a crítica, alegando que a intervenção de seu mentor prejudicava a jihad no Iraque em vez de solucioná-la. A disputa logo atrairia a atenção dos principais líderes da Al-Qaeda.

Em julho de 2005, Ayman al-Zawahiri, então braço direito de Osama bin Laden, enviou a Abu Mus’ab uma carta que, desde então, tornou-se um dos documentos internos mais importantes do movimento. Ayman alertou que o assassinato indiscriminado de civis xiitas estava afastando os muçulmanos comuns e minando os objetivos mais amplos da Al-Qaeda. Ele questionou por que os xiitas iraquianos deveriam ser alvo de ataques generalizados, quando muitos poderiam ser isentados de culpa devido à ignorância. Essa ressalva teológica reapareceria mais tarde, quase palavra por palavra, na correspondência interna do próprio Boko Haram.

A divergência estabeleceu um padrão que ressurgiu repetidamente nas décadas seguintes. Primeiro, um ideólogo desenvolvia a doutrina. Em seguida, um comandante militante aplicava a doutrina de forma mais agressiva do que seus autores. Por fim, uma dissidência interna argumentava que a doutrina havia sido levada além de seus limites. Anos mais tarde, o Boko Haram repetiu praticamente a mesma sequência.


Muhammad Yusuf, o fundador do Boko Haram, não herdou essas ideias por meio de influências vagas ou boatos; ele teve contato direto com elas. Em seu tratado de 168 páginas em árabe, *Hadhihi ‘Aqidatuna wa-Minhaj Da’watina* (Este é o Nosso Credo e Método de Proclamação), escrito por volta de 2006–2007, ele citou Abu Mus’ab ao discutir democracia e autoridade política. Abu Mus’ab havia descrito a democracia como um "sistema ilegítimo e infiel". A opinião popular, argumentava ele, tornava-se sagrada, e a legislação refletia desejos humanos em vez da revelação divina.


Yusuf reproduziu o argumento quase palavra por palavra. Ele chegou a se referir a Abu Mus’ab como "o combatente", pedindo a Deus que tivesse "misericórdia dele". Ele tratou o comandante da Al-Qaeda não apenas como um militante, mas como uma voz religiosa de autoridade, digna de citação em um tratado teológico.

Como observa o acadêmico americano David Cook em sua introdução a *The Boko Haram Reader*, o líder insurgente nigeriano raramente citava Abu Muhammad al-Maqdisi, apesar de sua posição central no pensamento jihadista contemporâneo. Em vez disso, ele se baseava fortemente em Abu Mus’ab, juntamente com estudiosos salafistas sauditas como Abd al-Aziz ibn Baz, Muhammad ibn Uthaymin e Muhammad Nasir al-Din al-Albani — clérigos que, eles próprios, rejeitavam a jihad armada contra governos muçulmanos. Seus escritos denunciavam repetidamente a governança e a liderança seculares, considerando-as falsas autoridades que rivalizavam com a soberania de Deus. Ele retratava as legislaturas modernas como manifestações de *shirk*, a associação de parceiros a Allah. Ele também alegava que governos que não seguiam a lei divina haviam feito as sociedades muçulmanas retrocederem àquele período — ecoando a visão peculiar de Sayyid e utilizando a terminologia de Abu Mus’ab.

Essa cadeia intelectual é fundamental para compreender a evolução do Boko Haram, segundo especialistas. O movimento não se limitou a tomar emprestados slogans isolados de jihadistas estrangeiros. Ele herdou toda uma cosmovisão que atravessou gerações de ideólogos antes de chegar a Maiduguri, o berço do Boko Haram no estado de Borno, no nordeste da Nigéria. Quando o fundador do Boko Haram começou a pregar essas ideias publicamente, o debate sobre excomunhão, autoridade política e luta armada já se desenrolava há décadas. Quando Yusuf surgiu como um dos pregadores salafistas mais influentes do nordeste da Nigéria, ele havia consolidado uma estrutura ideológica que combinava a crítica de Sayyid à sociedade moderna, a ênfase de Abu Muhammad na soberania divina e a rejeição da democracia por Abu Mus’ab. No entanto, o movimento que ele construiu antes de 2009 era muito diferente da insurgência que mais tarde desestabilizaria a Bacia do Lago Chade. Seus sermões revelavam um pregador mais interessado na separação em relação ao Estado nigeriano do que em um confronto armado imediato contra ele.

Durante seu debate teológico de seis horas com o erudito e político salafista Isa Ali Pantami, em junho de 2006, ele argumentou que a educação ocidental era proibida não por causa de disciplinas como medicina, engenharia ou biologia, mas devido ao sistema político por meio do qual eram ensinadas. Em sua visão, o sistema educacional gerava lealdade a um Estado laico que legislava à margem da lei divina.

Quanto à questão da obediência aos governantes muçulmanos, ele seguia, em grande parte, a posição sunita clássica. Ele argumentava repetidamente que os muçulmanos não deveriam se revoltar contra seus líderes simplesmente por serem injustos. "Não nos revoltamos contra nossos imãs", dizia ele, "mesmo que sejam iníquos e pratiquem o mal, desde que não cometam uma descrença aberta."

Essa formulação ecoava fielmente o pensamento do jurista medieval Ibn Taimiyya, que sustentava ser inadmissível a rebelião contra governantes muçulmanos, a menos que estes abandonassem abertamente o Islã. Embora Yusuf condenasse a democracia, a governança laica e o Estado nigeriano, ele ainda mantinha restrições teológicas que limitavam quem poderia ser declarado descrente e em que circunstâncias a violência se tornava obrigatória.

Seus seguidores viviam, em grande parte, como uma comunidade religiosa separatista. Eles rejeitavam as instituições estatais, criticavam a educação ocidental e pregavam uma interpretação intransigente do Islã, mas o movimento ainda não havia evoluído para a insurgência em larga escala em que se transformaria após 2009.

A mudança ocorreu não devido a uma nova descoberta teológica, mas por meio da violência. Em julho de 2009, confrontos entre os seguidores de Muhammad e as forças de segurança nigerianas se intensificaram depois que membros da seita resistiram a uma norma sobre o uso de capacetes em motocicletas, a qual consideravam uma inovação ilícita. Dezenas de seus seguidores foram mortos durante a repressão, e ele foi capturado antes de ser executado sob custódia policial. Sua morte transformou o movimento. David, professor da Universidade Rice e autor de *Understanding Jihad*, descreve o episódio como o ponto de virada que transformou o Boko Haram — de um movimento salafista essencialmente quietista — em uma insurgência salafista-jihadista de pleno direito. A ideologia permaneceu, mas as restrições persistiram.


Enquanto Yusuf lançava as bases intelectuais para a criação do Boko Haram, Shekau eliminava as barreiras que restringiam a violência armada em larga escala do grupo. Em situações nas quais Yusuf mantinha a distinção sunita clássica entre muçulmanos pecadores e apóstatas declarados, Shekau adotava uma das posturas mais intransigentes do pensamento jihadista moderno: a de que a ignorância não poderia servir de desculpa para atos de descrença. Segundo sua interpretação, votar em eleições, servir em instituições governamentais, integrar as forças armadas ou até mesmo viver sob sistemas que ele considerava não islâmicos poderia constituir motivo para excomunhão. A categoria de "alvos legítimos" expandiu-se drasticamente.

Essa mudança não passou despercebida dentro do próprio Boko Haram. Um dos registros mais claros da crise interna do movimento consta em uma carta escrita por comandantes dissidentes do Boko Haram à Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQIM), por volta de 2010 ou 2011. Reproduzido na obra *The Boko Haram Reader*, o documento acusava Shekau de abandonar a doutrina jihadista convencional em favor de autoridades de vertentes marginais.

Shekau baseava-se fortemente em obras como *al-Mutammima*, de Ali al-Khudayr, e no tratado de Diya’ al-Din al-Qudsi, que rejeitam qualquer "desculpa de ignorância" em questões de *shirk* (idolatria ou politeísmo) grave. Para os dissidentes, as implicações eram alarmantes. Eles comparavam o raciocínio de Shekau ao de Antar Zouabri, o notório líder do Grupo Islâmico Armado (GIA) da Argélia, cuja campanha de massacres indiscriminados durante a década de 1990 tornou-se um dos episódios mais controversos da história jihadista moderna. Mesmo nos círculos jihadistas, Antar havia se tornado um exemplo de advertência sobre as consequências de se declarar pessoas infiéis sem qualquer restrição.

"Al-Shekawi piora a situação", afirmava a carta, "como se fosse um aluno de al-Zouabri e um discípulo de sua escola."

A mesma correspondência acusava Shekau de exigir obediência irrestrita de seus seguidores, agindo "como se fosse um califa" e tratando a discordância como apostasia. À medida que sua autoridade se tornava cada vez mais personalista, a dissidência interna no movimento passava a ser sinônimo de traição. Seus discursos públicos refletiam essa mesma trajetória. Após declarar um califado islâmico nos territórios sob controle do Boko Haram em agosto de 2014, ele insistiu que ninguém poderia ser verdadeiramente muçulmano sem rejeitar completamente a democracia e romper laços com o que descrevia como as falsas autoridades que governavam a Nigéria. Ele reforçou esse argumento citando a famosa posição de Ibn Taymiyya de que quem buscasse julgamento de autoridades diferentes daquelas sancionadas pelo Profeta estaria buscando julgamento daqueles que desobedeciam a Allah. Ao jurar lealdade a Abu Bakr al-Baghdadi em março de 2015, ele recorreu novamente à teologia para justificar a lealdade política.

Citando uma tradição profética, ele declarou que quem morresse sem jurar lealdade a um imã morreria uma morte de ignorância. Décadas antes, Sayyid havia usado o termo *jahiliyya* (período de ignorância) para descrever sociedades governadas por leis seculares. Abubakar agora usava o mesmo conceito contra muçulmanos que se recusavam a reconhecer a legitimidade de sua própria liderança. Àquela altura, a jornada intelectual iniciada em uma prisão egípcia havia chegado às florestas do nordeste da Nigéria. Também havia chegado a outro destino familiar. O movimento começava a se fragmentar em torno dos limites da excomunhão. A divergência não começou com a cisão de 2016 entre o grupo terrorista liderado por Abubakar e o ISWAP.

Em janeiro de 2012, o Boko Haram realizou ataques coordenados em Kano, matando cerca de 185 pessoas. Muitas das vítimas eram muçulmanos sem qualquer ligação direta com as forças de segurança nigerianas. A operação gerou críticas dentro da organização, com alguns comandantes argumentando que o movimento havia abandonado os princípios que alegava defender. Meses depois, uma facção dissidente anunciou-se como Jama’atu Ansarul Muslimina fi Biladis Sudan, mais conhecida como Ansaru. O novo grupo justificou sua formação com base em fundamentos religiosos, e não em ressentimentos pessoais. Sua declaração de fundação condenava o assassinato indiscriminado de muçulmanos, descrevendo tais atos como indesculpáveis ​​à luz da lei islâmica. A ironia era que ambas as facções reivindicavam a mesma herança histórica.

Assim como Shekau, o Ansaru invocava o legado de Usman dan Fodio e sua *jihad* do século XIX. Seu estatuto de fundação falava em restaurar a dignidade dos muçulmanos "como era durante o califado de Dan Fodio". A disputa, portanto, nunca foi sobre a legitimidade da *jihad* em si. Tratava-se de quem poderia ser legitimamente declarado descrente e morto. A mesma questão que havia dividido Abu Mus’ab e seu mentor no Iraque ressurgia agora no seio do Boko Haram.

Quatro anos depois, a história se repetiu. A cisão que deu origem ao ISWAP seguiu quase o mesmo padrão da disputa anterior entre a liderança da al-Qaeda e Abu Mus’ab. Desta vez, as figuras centrais eram Mamman Nur, Abu Mus’ab al-Barnawi (da insurgência nigeriana) e Shekau. A crítica contundente de Nur não era apenas um ataque ao estilo de liderança de Shekau; era uma condenação de sua teologia. Ele o acusava de matar civis muçulmanos, executar seus próprios comandantes, abusar da doutrina do *takfir* e voltar a violência para dentro, contra a própria comunidade que o movimento alegava defender.

As críticas ecoavam, quase palavra por palavra, os argumentos que Ayman havia apresentado a Abu Mus’ab onze anos antes. A preocupação era que a violência indiscriminada tivesse afastado os muçulmanos comuns e minado a legitimidade da própria insurgência. O Estado Islâmico acabou ficando do lado da facção de Nur. Em seu boletim oficial publicado em agosto de 2016, o Estado Islâmico anunciou Abu Mus’ab al-Barnawi como o novo governador (*wali*) da Província da África Ocidental. Shekau rejeitou a decisão, levando a uma ruptura formal entre o ISWAP e o grupo que voltaria a ser conhecido como Jama’atu Ahlussunnah Lidda’awati wal Jihad (JAS).

Embora ambos os grupos continuassem a promover a jihad armada, suas abordagens divergiam cada vez mais. O ISWAP buscava apresentar-se como uma insurgência mais disciplinada. Tentava regular a tributação, administrar mercados e impor regras sobre o tratamento de civis muçulmanos que viviam sob seu controle. Os manuais de governança do grupo, incluindo a aplicação de preceitos islâmicos, refletiam um esforço para restringir o alcance do *takfir* e distinguir entre alvos militares e civis. Enquanto o JAS continuava a autorizar ataques que matavam um grande número de civis muçulmanos, o ISWAP apresentava-se como um grupo que corrigia o que considerava um desvio teológico. Tratava-se da mesma correção institucional que a liderança da al-Qaeda havia tentado implementar anteriormente no Iraque.

A figura de Dan Fodio

Apesar de suas diferenças, ambas as facções continuaram a utilizar a figura de Usman dan Fodio para legitimar sua campanha de terror. Shekau frequentemente descrevia sua insurgência como uma tentativa de reviver o Califado de Sokoto, estabelecido por Dan Fodio em 1804, retratando o domínio colonial como a interrupção de uma ordem política islâmica autêntica que o Boko Haram agora buscava restaurar. Dan Fodio era um erudito islâmico sufi vinculado à tradição jurídica maliquita, uma das quatro principais escolas sunitas de jurisprudência islâmica. Sua aplicação da excomunhão era cautelosa e muito específica, dirigida a governantes determinados — acusados ​​de opressão documentada e desvio religioso — e não a populações muçulmanas inteiras. Mais importante ainda: seu objetivo era estabelecer um Estado funcional, governado com base na erudição, na administração e em instituições judiciais, e não promover uma insurgência permanente contra a própria sociedade muçulmana.

Em seu livro recente, *Boko Haram: The Past of the Present Upheaval*, Moses Ebe Ochonu — professor nigeriano de História da África na Universidade Vanderbilt — afirmou: "Enquanto Usman fundamentava suas ações em justificativas teológicas e dedicava-se a criar o espaço intelectual para uma governança islâmica sólida, Shekau não tinha paciência para as dimensões intelectuais e organizacionais da liderança, mostrando-se impulsivo, reativo e bombástico".

A invocação da jihad de Sokoto cumpre, portanto, um propósito estratégico. Ela confere legitimidade histórica e ressonância local a uma ideologia originada fora da África Ocidental. Na região central habitada pelos povos hauçá e canúri, o nome de Dan Fodio carrega uma autoridade religiosa que a literatura salafista-jihadista importada dificilmente consegue obter.

"A ideia aqui não é afirmar que esse modelo preexistente de jihad ofereça instruções diretas ao Boko Haram; o objetivo é destacar que o Boko Haram... vê a si mesmo como continuador da tradição da jihad de Dan Fodio... Esse histórico e essa tradição de reforma, dissidência e jihad tornaram-se, coletivamente, um álibi de uso geral ao qual o grupo pode recorrer", acrescenta Moses.

Irã ataca bases dos EUA na Jordânia após ataque americano à Ilha de Larak

 O Irã afirma ter disparado mísseis contra duas bases dos EUA na Jordânia, em resposta a um ataque americano à Ilha de Larak, no sul do Irã, ocorrido mais cedo no domingo.


Em um comunicado divulgado por agências de notícias iranianas no domingo, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) informou que a operação conjunta com mísseis e drones — denominada "Punição ao Agressor" — atingiu as bases King Hussein e Al Azraq, na Jordânia.

Essa troca de ataques representa a primeira escalada de violência entre os dois lados desde o final de julho.

O IRGC afirmou que os ataques "destruíram a infraestrutura técnica e de reparos, bem como os locais de posicionamento de caças inimigos", causando danos significativos.

A Jordânia relatou a interceptação de oito mísseis logo após o anúncio do ataque pelo IRGC.


"Sistemas de defesa aérea interceptaram oito mísseis que violaram o espaço aéreo do Reino na madrugada desta segunda-feira", informaram as forças armadas jordanianas em comunicado.

Não houve relatos de feridos em nenhuma das bases.

Em um desdobramento adicional nesta segunda-feira, o IRGC afirmou ter abatido um drone americano MQ-9 Reaper sobre o Estreito de Ormuz.

As agências de notícias iranianas Fars e Mehr citaram um comunicado do IRGC informando que suas defesas aéreas interceptaram "um drone americano MQ-9 de longo alcance" sobre o Estreito de Ormuz, o qual caiu nas águas do Golfo.

Alerta de viagem para Moçambique: Por que o combate ao grupo 'Estado Islâmico em Moçambique (ISM)' é diferente desta vez

 Em 21 de agosto, o Departamento de Estado dos EUA emitiu seu mais recente alerta de viagem para Moçambique. O comunicado desaconselhava qualquer viagem à província de Cabo Delgado, bem como a distritos da província vizinha de Nampula, ao sul, e à Reserva Especial do Niassa, na província de Niassa, a oeste.

Peter Bofin, especialista da ACLED em Sudeste da África, afirmou:


“Os EUA estão alertando as pessoas para não viajarem ao norte de Moçambique, uma vez que combatentes ligados ao Estado Islâmico estão avançando novamente em direção à Reserva Especial do Niassa. No entanto, desta vez, eles estão enfrentando uma resistência muito mais forte.

“Combatentes do Estado Islâmico em Moçambique (ISM) avançaram em direção à reserva novamente este mês, naquela que é apenas a segunda incursão significativa na área desde abril de 2024.



“Na última vez que isso ocorreu, as consequências foram graves. Os insurgentes conseguiram transitar pela reserva praticamente sem resistência; um conhecido alojamento de caça foi destruído e mais de 2.000 pessoas que viviam em vilarejos no Niassa foram forçadas a deixar suas casas. A violência afetou o lucrativo setor de turismo de caça da reserva, levando os EUA a emitir seu primeiro alerta para a região dois meses depois.


“A experiência deste ano tem sido bem diferente. As forças militares moçambicanas perseguiram os combatentes do ISM até o interior da reserva e os confrontaram pelo menos quatro vezes em agosto, no lado da reserva pertencente a Cabo Delgado. Pelo menos 20 combatentes do ISM morreram nesses confrontos, sendo 16 deles em um embate nas minas de ouro de Shamba Kubwa, próximas à província de Niassa.

“Esse sucesso deve-se, em parte, à colaboração entre os setores de conservação e turismo e as forças militares. Eles contam com guardas-florestais locais que conhecem a área melhor do que os insurgentes, bem como com recursos aéreos capazes de rastrear grupos de insurgentes. Ambos podem fornecer informações valiosas às forças de contraguerrilha — dados que não estavam disponíveis quando os combatentes entraram na área anteriormente.

“Esta não será a última incursão dos insurgentes no lado da reserva pertencente a Cabo Delgado. As áreas de mineração de ouro representam uma fonte de recursos cada vez mais importante para o grupo, seja por meio de extorsão, resgates ou do acesso ao próprio ouro. Se as autoridades conseguirem mantê-los fora de Niassa, poderão restringir parte do acesso do grupo a redes de apoio na Tanzânia e concentrar as operações de contraguerrilha em Cabo Delgado.”

EUA atacam a Ilha de Larak, no Irã, na primeira ofensiva em semanas

 


Os Estados Unidos atacaram a Ilha de Larak, no sul do Irã — a primeira ofensiva contra o país desde o final de julho —, conforme confirmado por uma autoridade americana à Al Jazeera.

Teerã prometeu retaliar o ataque de domingo. Os ataques ameaçam reacender o confronto militar num momento em que os EUA transicionam de uma campanha de bombardeios para uma estratégia de pressão financeira, enquanto a guerra EUA-Israel contra o Irã entra em seu sétimo mês.

A autoridade americana afirmou que os ataques visaram lançadores preparados para disparar foguetes carregados com minas em direção ao Estreito de Ormuz.

A agência de notícias iraniana Fars havia relatado que explosões foram ouvidas nas proximidades da ilha. Mais tarde, no domingo, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) confirmou o ataque perpetrado pelo "inimigo americano-sionista", informando que a ação resultou na morte e em ferimentos de vários soldados.


"Este ato receberá uma resposta dos filhos do Irã Islâmico e resultará na punição do agressor", declarou o IRGC em um comunicado.

Em uma declaração divulgada pela agência de notícias, o porta-voz do IRGC, Sardar Mohebi, acusou os EUA de cometerem "um erro estratégico e fatal", cujas consequências seriam pagas "tanto na esfera econômica quanto na militar".

Nas últimas semanas, os EUA têm reivindicado o controle da estratégica via navegável, afirmando que conseguem fazer passar milhões de barris de petróleo pelo estreito sob proteção militar, mesmo com o bloqueio imposto pelo Irã.

Ainda assim, ataques a navios em Ormuz têm sido relatados quase diariamente, e o Irã sustenta que o estreito está fechado.

Os ataques de domingo demonstram que os EUA ainda estão dispostos a utilizar força militar, apesar do foco em sanções para pressionar o Irã a fazer concessões sobre seu programa nuclear e as disputas pelo controle de Ormuz.

Anteriormente, o Irã respondeu a ataques americanos semelhantes lançando mísseis e drones contra bases militares que abrigam tropas dos EUA em países vizinhos.

Ataques aéreos, recrutamento forçado e apoio da China: como os militares de Mianmar estão recuperando terreno

 Combatentes rebeldes em Mianmar estão perdendo cidades-chave, à medida que o recrutamento forçado, ataques aéreos incessantes e o apoio da China fortalecem as forças militares.


Os combatentes rebeldes que abandonaram Falam, em Mianmar, em abril, disseram que só desistiram da cidade fronteiriça — situada perto da Índia — depois que suas munições acabaram.

Os combatentes haviam resistido a uma ofensiva de seis meses das forças militares de Mianmar, que incluiu centenas de ataques aéreos e um ataque terrestre com cerca de 1.000 soldados. A queda da cidade, que estava sob controle da oposição há um ano, representou uma vitória estratégica para os militares: Falam abriga o único aeroporto do estado de Chin e controla uma rota comercial para a fronteira com a Índia.

Em questão de semanas, outras três cidades em Chin caíram e, no final de maio, os militares reivindicavam o controle de toda a parte norte do estado.

"Falam nos ensinou uma lição importante", disse Salai William Chin, membro do grupo rebelde Chin Brotherhood. "Capturar uma cidade e mantê-la sob controle são desafios muito diferentes", disse ele à Al Jazeera. "Mantê-la por um longo período exigia efetivo, logística, administração, proteção de civis e a capacidade de resistir a ataques repetidos, especialmente aéreos."

A retirada faz parte de uma reversão mais ampla da situação em todo o país.


A oposição de Mianmar — uma coalizão flexível de milícias e organizações armadas de base étnica que lutam contra os militares que tomaram o poder em um golpe em 2021 — foi enfraquecida. Os avanços obtidos em 2023 e 2024, quando ofensivas coordenadas fizeram os militares perderem dezenas de cidades, deram lugar a uma retirada constante dos centros urbanos que haviam sido capturados.

Analistas afirmam que essa mudança foi impulsionada por vários fatores: uma campanha de recrutamento em massa que repôs as fileiras militares com dezenas de milhares de soldados; uma campanha aérea devastadora que matou centenas de civis; e o apoio da China, que mediou cessar-fogos entre os militares e alguns grupos armados étnicos poderosos, ao mesmo tempo em que ajudou a bloquear o fornecimento de armas para outros.

A guerra, iniciada após o golpe militar de fevereiro de 2021, entra agora em seu quinto ano. O conflito teve início após uma repressão brutal contra manifestantes desarmados, levando jovens a pegar em armas e formar milícias conhecidas como Forças de Defesa do Povo (PDF). Eles contaram com o apoio de poderosas organizações étnicas armadas que controlam as regiões fronteiriças de Mianmar — algumas das quais lutam por autonomia desde a fundação do país, em 1948.

Segundo o projeto *Armed Conflict Location and Event Data* (ACLED), o número de mortes no conflito já ultrapassou 100 mil, enquanto as Nações Unidas informam que 3,9 milhões de pessoas foram deslocadas e estima-se que uma em cada três pessoas necessite de assistência humanitária.

No início deste ano, o general sênior Min Aung Hlaing — que liderou a tomada de poder em 2021 — conduziu eleições sob rígido controle, nas quais os principais partidos de oposição foram impedidos de participar e a votação tornou-se impossível ou foi boicotada em grande parte do país. Ele tomou posse como presidente em abril, concretizando sua transição de comandante-em-chefe para chefe de um governo nominalmente civil em Naypyidaw.

Min Aung Hlaing afirma agora que seu governo deseja realizar negociações de paz com grupos armados de oposição, inclusive na região de Chin.

No entanto, os combates continuam.


As forças armadas iniciaram novas operações este ano nos estados de Chin, Kachin, Kayin e Rakhine e, segundo o ISP-Myanmar — um centro de estudos independente —, já retomaram 22 das 101 cidades que haviam perdido após o golpe. Isso representa 9% do território perdido, mas as áreas são estrategicamente importantes e incluem corredores comerciais fundamentais que ligam as regiões de fronteira ao centro de Mianmar, onde estão localizadas as principais bases militares.

A retomada dessas áreas prejudicou a "capacidade econômica e logística de muitos grupos de resistência", escreveu Su Mon, analista da ACLED, em um relatório recente. Embora os militares ainda não tenham restabelecido plenamente sua administração nessas regiões, ela observou que "as vitórias efetivamente dificultaram a coordenação da resistência", forçando os grupos de oposição a abandonar ofensivas coordenadas em larga escala e a adotar táticas de guerrilha defensiva.

Ainda assim, é pouco provável que os militares conquistem "vitórias existenciais ou politicamente decisivas" contra a oposição, acrescentou ela, alertando que o país "enfrenta uma guerra de atrito prolongada" nos próximos meses.

As forças armadas de Mianmar celebraram as vitórias no campo de batalha.

Em discurso proferido em Bangkok neste mês, Min Aung Hlaing afirmou que Mianmar está "no caminho da democracia e rumo a um futuro melhor", enquanto a mídia estatal divulgou fotos do que descreveu como tropas triunfantes retornando de operações em todo o país.

Anthony Davis, analista de segurança sediado em Bangkok, afirmou que uma campanha de recrutamento em massa e o apoio chinês revelaram-se fundamentais para as forças armadas.

Cerca de 150.000 soldados foram incorporados às fileiras de combate desde 2024 por meio do recrutamento obrigatório, disse ele; muitos desses recrutas mal receberam treinamento, mas são numerosos o suficiente para permitir um avanço gradual.

A pressão da China afastou do conflito duas poderosas forças de oposição — o Exército da Aliança Democrática Nacional de Mianmar e o Exército de Libertação Nacional Ta’ang —, liberando as forças armadas para redistribuir tropas a outras áreas. Pequim também pressionou o Exército do Estado Unido de Wa, um dos grupos armados étnicos mais fortes de Mianmar, a interromper a venda de armas para grupos de oposição, contribuindo para a escassez de munição em todo o país.

"A superioridade aérea incontestada proporcionou às forças armadas uma vantagem crucial desde o início da guerra", acrescentou Davis, tanto no reabastecimento de tropas quanto na execução de ataques contra forças de oposição. Ao mesmo tempo, "a rápida proliferação da tecnologia de drones, tanto para vigilância quanto para ataques, juntamente com uma melhor coordenação em campo entre diferentes ramos de combate, impulsionou a capacidade [das forças armadas]", disse ele.

O impacto da campanha aérea sobre a população civil tem sido severo.

O projeto *Myanmar Internet Project* registrou 520 ataques aéreos entre abril e junho, atingindo 87 municípios e matando pelo menos 314 civis, incluindo 41 crianças. O estado de Chin foi o mais atingido, com 122 ataques, seguido por Sagaing, com 101, e Rakhine, com 98.

Phil Robertson, diretor da organização *Asia Human Rights and Labour Advocates*, afirmou que "a incapacidade da resistência de contrapor a superioridade aérea dos militares" enfraqueceu o ânimo das forças de oposição.

"Os ataques aéreos desmoralizam as Forças de Defesa do Povo (PDFs) e outras tropas da resistência, além de dispersar civis que apoiavam os rebeldes", disse ele à Al Jazeera.

Ainda assim, as forças de oposição aos militares insistem que a guerra não está perdida.

Thinzar Shunlei Yi, uma ativista que vive no exílio, afirmou que as redes de oposição continuam treinando organizadores e angariando apoio. "Mesmo diante de assassinatos em massa e violações generalizadas, mantemos a coragem e a integridade para resistir e rejeitar [a situação]", disse ela. "O povo de Mianmar mantém esse espírito, e nós continuaremos em frente."

Em Chin, Salai William Chin manteve-se firme.

"Temos outros planos, mas ainda é cedo para falar publicamente sobre eles", disse ele. "Eu não diria que o poder aéreo definiu permanentemente o cenário do conflito. Ele continua sendo um desafio sério, mas a guerra evolui, e as forças de resistência também continuam aprendendo e se adaptando."

O sucesso da oposição não deve ser medido "apenas pela nossa capacidade de manter permanentemente o controle de cada cidade", acrescentou.

"Onde os militares têm uma vantagem significativa, especialmente devido ao poder aéreo, a guerra de movimento pode, por vezes, ser mais eficaz. O importante é preservar nossas forças, proteger os civis e manter nossa capacidade de continuar a luta", afirmou.

Manifestantes indonésios entram em confronto com a polícia devido a penas para crimes de corrupção

 Manifestantes na Indonésia entraram em confronto com a polícia na quinta-feira, enquanto milhares marchavam em direção ao parlamento exigindo penas mais rigorosas para autoridades corruptas, em um país há muito assolado pela corrupção tanto no setor público quanto no privado.


Ao cair da noite, e com a maioria dos manifestantes já dispersa, a violência eclodiu: manifestantes arremessaram objetos contra a polícia, que respondeu com gás lacrimogêneo e um canhão de água.

Mais cedo, a tropa de choque havia contido a multidão diante dos portões fechados do Legislativo, onde manifestantes exibiram uma bandeira de vários metros de comprimento nas cores nacionais (vermelho e branco) e estenderam uma faixa com os dizeres: "Os corruptos enriquecem enquanto o povo sofre".


Alguns manifestantes, usando capacetes de moto e máscaras ou lenços cobrindo o rosto, tentaram sem sucesso derrubar o portão do parlamento, enquanto outros jogavam lixo e outros objetos por cima dele.


A polícia de Jacarta informou ter mobilizado 18.500 agentes pela capital, em meio à crescente indignação pública com as dificuldades econômicas e o aumento da desigualdade.

"O que precisamos é que o governo acorde", disse à Agence France-Presse (AFP) Dian Purnomo, um escritor de 50 anos que participava do protesto. "Eles precisam oferecer o que o povo necessita, e não impor programas que todos sabemos que beneficiarão apenas a eles mesmos."

Os manifestantes querem que o parlamento aprove um projeto de lei, pendente desde 2008, que permitiria o confisco de bens de autoridades corruptas. Alguns participantes do ato de quinta-feira pediram a pena de morte para os condenados. Eles também exigem o fim do dispendioso programa governamental de merenda escolar gratuita — um projeto emblemático do presidente Prabowo Subianto que tem sido alvo de denúncias de corrupção e casos de intoxicação alimentar em massa.

Rebeldes tuaregues do Mali libertam 60 soldados em troca de comandante preso

 

 Inkinane Ag Attaher

Separatistas tuaregues libertaram cerca de 60 soldados malineses em troca de um ex-oficial do exército que se tornou um de seus líderes, informaram fontes de segurança. A troca, intermediada pelo vizinho Níger, demonstra que canais discretos de negociação permanecem abertos mesmo com a expansão do conflito no Mali.

Cerca de 60 soldados foram levados para o Níger na quinta-feira, 27 de agosto, segundo uma fonte de segurança do Mali informou à agência de notícias AFP. Eles foram trocados por Inkinane Ag Attaher e por indivíduos supostamente ligados ao JNIM, grupo afiliado à Al-Qaeda no Sahel.

Uma segunda fonte de segurança afirmou que o governo do Níger supervisionou diretamente o acordo. A Al Jazeera noticiou a troca em 29 de agosto, e a FLA informou que alguns de seus membros, que estavam detidos em prisões malinesas, também foram libertados como parte do acordo.

A FLA, ou Frente de Libertação de Azawad, é uma coalizão separatista liderada por tuaregues que luta por uma pátria no norte do país, denominada Azawad. O governo militar do Mali classifica o grupo como terrorista, rótulo que a FLA rejeita.


Ag Attaher é um ex-oficial do exército malinês que desertou e aderiu à rebelião tuaregue. Ele foi membro fundador do MNLA — o movimento que liderou a revolta de 2012 — e conselheiro de seu líder, Bilal Ag Acharif, antes de se tornar uma figura de destaque na FLA.

Ele foi preso na noite de 3 para 4 de abril de 2025, perto da fronteira entre o Níger e a Nigéria. Bamako o acusou de organizar treinamento de drones suicidas para combatentes da FLA, coordenar ataques letais dentro do Mali e atuar como intermediário internacional do movimento.

O porta-voz da FLA, Mohamed Elmaouloud Ramadane, celebrou a libertação no Facebook. Ele desejou a Ag Attaher "coragem, força e serenidade para a continuidade da luta".

A FLA recebeu Inkinane Ag Attaher — ex-oficial do exército que se tornou uma figura rebelde de destaque — e indivíduos supostamente ligados ao JNIM, afiliado da Al-Qaeda. A FLA também informou que alguns de seus membros detidos em prisões malinesas foram libertados.


A Frente de Libertação de Azawad é uma coalizão separatista liderada por tuaregues, formada no final de 2024 a partir de movimentos armados do norte. O grupo luta por uma pátria independente ou autônoma chamada Azawad e controla a cidade de Kidal desde abril.

Contraofensiva do M23 Abala as Colinas de Kivu do Sul, no Congo

 


Rebeldes do M23 lançaram uma contraofensiva no território de Kalehe, nas colinas ao norte de Kivu do Sul, e intensos combates com forças pró-governo ainda estão em curso. O avanço rebelde reverteu a maior parte das conquistas que o exército congolês havia reivindicado na área no início deste mês, segundo a análise *Critical Threats Congo War Security Review* de 28 de agosto.

O M23, formalmente conhecido como Movimento 23 de Março, é um grupo rebelde congolês que afirma defender comunidades de etnia tutsi e que, juntamente com seu parceiro, a Aliança do Rio Congo (AFC), controla as duas principais cidades da região — Goma e Bukavu — desde o início de 2025.


Os confrontos concentram-se no agrupamento de Ziralo, na chefia de Buhavu (em Kalehe), nas terras altas a oeste do Lago Kivu. Fontes da sociedade civil e da administração local informaram ao *Kivu Morning Post* que combatentes da AFC/M23 tomaram Ku Kivocat/Katenderi, Tushunguti, Matutira e Mutale em meados de agosto, além da vila de Kashihe, no agrupamento vizinho de Mubuku.

A Rádio Okapi relatou disparos de artilharia pesada nas imediações de Kusisa, no eixo de Igali. Os combates também se estenderam para o norte, atingindo o agrupamento de Ufamandu I, no sul de Masisi — cruzando a divisa provincial para Kivu do Norte —, nas localidades de Remeka e Kashovu.

Grupos da sociedade civil alertam que um novo avanço rebelde poderia ameaçar as posições das milícias Wazalendo ao longo do eixo Mianda-Lulere-Kalamo. Isso abriria caminho para uma incursão mais profunda no interior de Kalehe.

O lado pró-governo é composto pelo exército congolês (FARDC), que luta ao lado das milícias Wazalendo — nome que significa "patriotas" em suaíli. No início de agosto, essa coalizão iniciou uma ofensiva e reivindicou o controle das localidades de Chambombo, Shanje, Lumbishi, Kavumu-Luzirantaka e Numbi.


O contra-ataque do M23 ocorreu dias depois, entre 15 e 18 de agosto. Fontes locais informaram à Rádio Okapi que os rebeldes retomaram o controle de grande parte da área de Ziralo, anulando os avanços anteriormente reivindicados pelo exército. O M23 (Movimento de 23 de Março) é um grupo rebelde congolês que afirma defender as comunidades de etnia tutsi. Por meio de sua aliança com a AFC, o grupo controla Goma e Bukavu — as duas maiores cidades do leste do Congo — desde o início de 2025. A atuação abrange o agrupamento de Ziralo, no território de Kalehe (norte de Kivu do Sul), estendendo-se para o sul de Masisi (em Kivu do Norte). Vilarejos como Tushunguti, Matutira, Mutale e Kashihe mudaram de controle em meados de agosto.

Confrontos abalam capital do Níger e junta militar afirma ter retomado o controle da cidade

 A junta governante do Níger afirmou, no sábado, que "retomou gradualmente o controle" após soldados amotinados atacarem pontos estratégicos da capital, incluindo o palácio presidencial, em meio a horas de intensos disparos na cidade.


Assim que os confrontos começaram, soldados bloquearam o acesso ao palácio presidencial e à emissora de televisão nacional; a Tele Sahel ficou fora do ar por pouco mais de uma hora na manhã de sábado, antes de retomar a transmissão por volta das 10h (9h GMT).

"Houve uma tentativa de insurgentes das forças armadas do Níger de entrar no palácio presidencial", disse uma fonte de segurança à AFP, acrescentando que "eles foram repelidos pela guarda presidencial".

O ministro da Defesa do Níger, general Salifou Mody, afirmou em comunicado lido na televisão estatal que um grupo de soldados manteve tropas reféns em um quartel em Niamey e abriu fogo contra "certos locais sensíveis" da cidade, sem especificá-los.

"A pronta reação das forças de defesa e segurança permitiu conter esse momento de tensão, e elas retomaram gradualmente o controle desses locais", acrescentou.

O comunicado de Mody pediu à população que "mantenha a calma e siga com suas atividades normalmente". O Níger é governado há três anos por uma junta militar que tem enfrentado dificuldades para conter a violência jihadista, a qual assola o país da África Ocidental há cerca de uma década.


Um diplomata africano em Niamey afirmou que, por enquanto, a guarda presidencial permanece leal ao governante, general Abdourahamane Tiani. "Tudo está calmo novamente; não ouvimos mais tiros", disse um morador do bairro de Yantala, próximo ao palácio presidencial, no final da manhã de sábado.

Os disparos começaram nas primeiras horas de sábado, levando os militares a publicar uma nota em suas redes sociais pedindo às pessoas que mantivessem a calma e "evitassem compartilhar informações não verificadas".

"Nossas forças de defesa e segurança foram mobilizadas para a defesa da pátria", dizia o comunicado.

Um morador local relatou à AFP ter ouvido "tiroteio intenso e explosões" na Base 101, em Niamey — informação confirmada por várias outras testemunhas.


Os primeiros disparos foram ouvidos por volta da 1h da manhã (horário local) e continuaram até o amanhecer, segundo um vídeo publicado por um jornalista local que filmava a área ao redor do aeroporto. Outro morador local disse ter ouvido "rajadas de tiros" por volta das 7h (horário local), acrescentando que as armas ouvidas "não são do tipo que terroristas em motocicletas conseguem transportar".

"Fui comprar crédito para o meu celular. Vi um veículo militar indo em direção à base que teve de voltar", disse ele.

Outro morador da zona oeste de Niamey relatou ter ouvido disparos esporádicos de armas leves por volta das 5h.

Vídeos na internet mostravam veículos blindados posicionados para reforçar a segurança do bairro próximo ao aeroporto.