Brasil : Sem fiscalização da Agência Nacional de Mineração, ‘garimpos fantasmas’ legalizam ouro de terras indígenas e áreas protegidas

 Pelo menos 220 lavras de garimpo que registraram produção de ouro em 2019 e 2020 simplesmente não existem. Ou melhor, existem apenas formalmente: estão autorizadas a funcionar e comercializam o minério, mas quem tentar visitá-las só encontrará mata fechada e nenhum sinal de intervenção humana. São os chamados “garimpos fantasmas”, utilizados para acobertar a origem do metal extraído clandestinamente e que se espalham pelo país beneficiados pela falta de fiscalização da Agência Nacional de Mineração (ANM).


Quando um garimpeiro invade uma terra indígena ou unidade de conservação ambiental, ele só consegue colocar o ouro tirado dali no mercado se camuflar sua origem. É nesse esquema que entram os “garimpos fantasmas”, registrando como produção própria o minério dos garimpos ilegais.

“Essa tem sido a forma mais utilizada para esquentar [legalizar] o ouro extraído de uma área ilegal. Algumas pessoas também costumam chamar de ‘garimpo laranja’. Esse é um problema que a agência precisa enfrentar”, reconhece Valdir Farias, ex-chefe da Divisão de Procedimentos Arrecadatórios da Superintendência da ANM em São Paulo e que hoje atua como diretor-executivo Fioito Consultoria.

O termo “garimpo fantasma” foi cunhado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, que identificaram a prática em um estudo feito em parceria com o Ministério Público Federal (MPF) e divulgado em agosto deste ano. Ao cruzar a origem declarada do ouro com a geolocalização das lavras de garimpo, os especialistas descobriram, por meio de imagens de satélite, que muitas delas estavam em uma área de mata nativa, sem intervenção humana. Outras tinham áreas de exploração superando os limites legais.


Para Raoni Rajão, professor da UFMG e um dos autores do estudo, é dever da ANM fiscalizar os garimpos, o que poderia ser feito com um acompanhamento mais minucioso do Relatório Anual de Lavra, documento que indica a produção de minérios. “Para isso, é preciso tecnologia. Quando o garimpeiro indicar uma lavra na venda do ouro, ela deveria ser checada no mesmo momento pela ANM”.

De acordo com os pesquisadores da UFMG, 6,3 toneladas de ouro produzidas no Brasil entre 2019 e 2020 tinham como origem lavras que não mostraram atividade garimpeira, segundo registros de satélite. O valor representa 13% do total de 49 toneladas do minério que o estudo ligou a algum tipo de irregularidade.

Apesar de ser somente 4% do total de ouro extraído nacionalmente, a produção dos garimpos fantasmas movimentou aproximadamente R$ 1,2 bilhão nesses dois anos.


A partir do estudo da UFMG, o MPF protocolou ações civis públicas contra as empresas FD’Gold, Ourominas e Carol. As três são DTVM’s (Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários), companhias autorizadas pelo Banco Central para adquirir ouro de garimpo. De acordo com o levantamento, essas empresas comercializaram ouro registrado por 220 “garimpos fantasmas”, mas que tudo indica ter sido extraído ilegalmente de terras indígenas e áreas protegidas nos municípios de Itaituba, Jacareacanga e Novo Progresso, todos do Pará.

Em julho, a Repórter Brasil e Amazônia Real mostraram no especial Ouro do Sangue Yanomami como o metal extraído ilegalmente da maior Terra Índigena do país, em Roraima, é legalizado no Pará e posteriormente vendido para grandes empresas – até chegar em joalherias como a HStern.

Há ainda outra distorção. A lei que criou o conceito das permissões de lavras garimpeiras é de 1989, e hoje os garimpos já não são operados de forma artesanal, mas com grandes retroescavadeiras, que chegam a custar R$ 1 milhão. Muitos deles são de difícil acesso, sendo necessário o uso de jatos particulares, cujos pilotos chegam a faturar R$ 200 mil por semana. Ou seja, o conceito de exploração “artesanal” de garimpos por pessoas físicas é algo do passado.

Atualmente, existem 2.765 permissões de lavra ativas no país, segundo a ANM. E, apesar das preocupações que esse regime de concessão tem despertado nos órgãos fiscalizadores, funcionários e ex-funcionários da agência relatam pressão externa para que esse número cresça ainda mais. O lobby vem de políticos e empresários, especialmente do Pará, que querem facilitar as concessões de PLGs, contornando os mecanismos de controle, segundo fontes ouvidas pela reportagem. “São senadores e deputados que estão em constante diálogo com membros da diretoria da ANM”, afirma Jaime Sznelwar. O executivo suspeita que sua demissão da agência, após pouco mais de um ano no cargo, tenha ocorrido por sua tentativa de frear a outorga de novos garimpos.

Ter um Presidente apoiado por Trump é ruim para os países da América Latina? Compare... Capítulo 1 - No Equador

 No Equador quando o país era governado por Guillermo Lasso, um presidente de centro, o país era dominado em várias regiões por gangues de criminosos como : 


Los Choneros: 

Historicamente a maior e mais tradicional facção do Equador, liderada por José Adolfo Macías Villamar, vulgo "Fito". Durante o governo Lasso, operavam em aliança com o Cartel de Sinaloa. Controlavam rotas estratégicas e grandes alas dos presídios do país.

Los Lobos:

 Emergiram com força brutal durante a gestão de Lasso, desbancando a hegemonia dos Choneros em várias regiões e expandindo-se para cerca de 8 mil membros. Atuavam como braço operacional do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) e também se envolveram em mineração ilegal e extorsões.

Los Tiguerones, Los Chone Killers e Los Lagartos: 

Gangues menores que inicialmente nasceram como dissidências ou ramificações, mas que se aliaram ao CJNG para guerrear contra os Choneros pelo controle de territórios urbanos e portos estratégicos (como o de Guayaquil).

O Cenário da Crise de Segurança


Guerra nas Prisões: Os presídios tornaram-se os "quartéis-generais" das gangues. Entre 2021 e 2023, o país viveu massacres prisionais bárbaros decorrentes de disputas territoriais internas, resultando na morte de mais de 450 detentos.

Explosão de Homicídios: O índice de mortes violentas disparou a níveis históricos. Bairros inteiros de cidades litorâneas viraram zonas de guerra por conta de disputas de territórios pelas gangues para a saída de drogas.

A tática dos Estados de Exceção: Sem conseguir conter o avanço do crime organizado por vias institucionais ou de inteligência, Lasso recorreu repetidas vezes à decretação de estados de emergência e ao envio das Forças Armadas para as ruas. No entanto, a medida provou-se ineficaz para desarticular as estruturas financeiras e o armamento pesado das facções


O presidente Daniel Noboa, apoiado por Trump,  adotou uma estratégia de "mão de ferro" inspirada no modelo de El Salvador, militarizando o país e alterando a legislação para combater de forma direta as facções criminosas. Logo no início de seu mandato, diante de episódios graves de violência (como a fuga do líder criminoso "Fito"), Noboa mudou a abordagem do Estado frente ao crime organizado.

Declaração de "Conflito Armado Interno" e Status de Terroristas

Nova Classificação Legal: 

Noboa assinou um decreto histórico classificando mais de 20 gangues criminosas (como Los Choneros e Los Lobos) como organizações terroristas e atores não estatais beligerantes.


Uso da Força Militar: 

Essa mudança jurídica permitiu que as Forças Armadas fossem mobilizadas permanentemente para "neutralizar" os criminosos, tratando a segurança pública sob as regras de uma guerra, e não apenas como um problema policial.

Aumento de Penas: 

Elevação drástica das sentenças de prisão para crimes graves como terrorismo, narcotráfico e assassinato.

Apoio do Exército:

 Formalização do patrulhamento conjunto definitivo entre a polícia e os militares nas ruas e no entorno das prisões

Estratégia Nacional: 

O governo instituiu o Plano Fênix, unificando a inteligência civil e militar para rastrear o financiamento dessas facções.

O movimento "Barata" da Índia forçará o partido Bharatiya Janata de Modi a repensar sua política?


 Na noite de 4 de agosto, em um centro de apuração de votos na cidade de Patna, no leste da Índia — a cerca de 1.000 km da capital nacional —, o partido Bharatiya Janata (BJP), do primeiro-ministro Narendra Modi, sofreu um de seus reveses políticos mais surpreendentes em 12 anos.

Bankipur, um distrito eleitoral do legislativo do estado de Bihar, estava sob controle do BJP há três décadas. No entanto, o recém-criado partido Jan Suraaj — liderado por Prashant Kishor, estrategista político que se tornou político — pôs fim a essa hegemonia, conquistando uma cadeira que havia sido ocupada até poucos meses antes por Nitin Nabin, presidente estadual do BJP.

A derrota ocorreu menos de duas semanas após a renúncia do ministro da Educação da Índia, Dharmendra Pradhan, que cedeu a sete semanas de protestos liderados por estudantes; tais manifestações haviam abalado Nova Délhi e se espalhado por várias cidades. O partido "Cockroach Janta Party" (CJP) — uma sigla satírica surgida no Instagram em maio, depois que o juiz da Suprema Corte Surya Kant comparou jovens indianos desempregados a "baratas" e "parasitas" — foi quem liderou esses protestos.

Nabin, o líder do BJP, havia passado a campanha em Bankipur denunciando os manifestantes da Geração Z do país como "um vírus e uma gangue de baratas dedicada a destruir o país".

Em vez disso, foi o domínio absoluto do BJP sobre o distrito eleitoral que acabou sendo rompido. Esse veredito eleitoral inesperado impôs à Índia uma questão mais ampla, segundo analistas: será que a máquina política mais formidável do país — o BJP — será forçada a mudar?


O sinal mais claro de que o BJP encara a revolta da Geração Z como algo além de um incômodo passageiro é o evidente desconforto na resposta do partido. No auge dos protestos, Modi divulgou uma série de vídeos no estilo "selfie" no Instagram abordando os vazamentos de provas de exames que motivaram as manifestações. Relatos indicam que ele disse a colegas de gabinete que os jovens estavam "apenas no Instagram", incentivando os ministros a conquistá-los na plataforma com vídeos curtos (*reels*) em vez de coletivas de imprensa. Em Uttar Pradesh, o estado mais populoso da Índia, o partido lançou uma iniciativa de aproximação com a Geração Z, enviando funcionários administrativos públicos às escolas para sessões de orientação profissional. O BJP também divulgou um vídeo ambientado em uma academia, no qual jovens trocam gírias da internet com um instrutor mais velho, que direciona a conversa para o histórico de desenvolvimento do governo. O uso de gírias foi tão exagerado que muitos usuários do Instagram zombaram do partido, brincando que ele aparentemente havia pago jovens para criar propaganda voltada para a sua própria geração.

Após outro vídeo de Modi ter desaparecido brevemente do Facebook, a comissão parlamentar de tecnologia da informação exigiu um pedido de desculpas do CEO da Meta, Mark Zuckerberg.

O analista Asim Ali, sediado em Nova Délhi, afirma que essa busca repentina por relevância nas redes sociais revela muito sobre o próprio partido.

Antigamente, o BJP produzia narrativas que seus próprios apoiadores disseminavam espontaneamente. Hoje, segundo ele, grande parte de suas mensagens "parece mais algo gerenciado e pago" — o que destoa de um ambiente descentralizado que recompensa muito menos a disciplina hierárquica do que o Facebook e o WhatsApp faziam no passado.

"A máquina de comunicação do partido continua poderosa, dado o seu controle sobre a grande mídia", disse Ali à Al Jazeera. "Mas, nas redes sociais, especialmente no Instagram, ele não consegue gerar o tipo de identificação emocional orgânica que conseguia entre 2011 e 2014."

Gilles Verniers, pesquisador do Centro de Estudos Internacionais (CERI) da Sciences Po, em Paris, descreveu a estratégia de comunicação do BJP como "uma batalha pela percepção", e não como uma mudança de políticas.

Somália : Forças somalis repelem combatentes rebeldes em Baidoa após intensos combates envolvendo explosivos e dezenas de baixas

 O exército da Somália afirmou ter expulsado combatentes da oposição de Baidoa, a maior cidade do Estado do Sudoeste da Somália, após horas de combates pesados.


Os confrontos eclodiram antes do amanhecer de segunda-feira, quando combatentes leais ao ex-presidente do estado, Abdiaziz Hassan Mohamed Laftagareen, atacaram posições mantidas por forças federais, informou o Ministério da Defesa.






O ministério acrescentou que os agressores utilizaram veículos carregados de explosivos, mas foram repelidos depois que as forças federais mataram 30 deles. O órgão acusou as forças de Laftagareen de lutarem ao lado do grupo armado al-Shabab, ligado à al-Qaeda.

Mais cedo, em uma publicação no Facebook, o grupo de Laftagareen alegou que suas forças haviam tomado o centro da cidade.


Moradores relataram à agência de notícias AFP que os confrontos foram os mais violentos desde que o exército somali assumiu o controle da cidade, em março. A organização Médicos Sem Fronteiras, que mantém instalações em Baidoa, informou à agência que várias vítimas deram entrada em seu hospital e que houve combates em duas frentes.


Baidoa fica a cerca de 245 km a noroeste da capital somali, Mogadíscio, e abriga centenas de milhares de pessoas deslocadas pela guerra e por eventos climáticos.


Laftagareen havia liderado o Estado do Sudoeste por mais de sete anos quando, em março, rompeu laços com Mogadíscio devido a controversas emendas constitucionais promovidas pelo presidente Hassan Sheikh Mohamud.

As mudanças estenderam o mandato de Mohamud em um ano e alteraram drasticamente o frágil acordo de partilha de poder da Somália, estabelecido em sua constituição provisória de 2012.


A medida desencadeou confrontos em todo o país, inclusive na capital; nesse contexto, o exército somali tomou Baidoa, levando Laftagareen a renunciar. Desde então, combatentes leais a ele têm atacado a cidade repetidamente, incluindo uma tentativa fracassada de retomar o controle do estado em maio.

O Cerco de Burhakaba – Como a Falta de Financiamento Está Devolvendo a Somália ao Al-Shabaab

 


Uma cidade estratégica cercada por militantes. Um cinturão de segurança estabelecido há uma década desfeito da noite para o dia. E uma missão da ONU discretamente vendendo seu próprio mobiliário. A retirada das tropas etíopes de Burhakaba representa mais do que uma simples transferência de uma base operacional avançada; é a primeira fissura visível na arquitetura de segurança internacional da Somália desde a reconfiguração da Missão de Apoio e Estabilização da União Africana na Somália (AUSSOM).

Burhakaba, situada a 185 quilômetros a noroeste de Mogadíscio, na rota de abastecimento crucial para Baidoa, está agora cercada por todos os lados pelo Al-Shabaab. Por quase doze anos, as Forças de Defesa Nacional da Etiópia sustentaram a defesa da cidade. Agora, elas se foram, e a 60ª Divisão do Exército Nacional Somali ficou encarregada de manter uma posição que observadores militares descrevem como perigosamente exposta. A retirada não é motivada por cálculos estratégicos ou pela prontidão somali. É motivada por dinheiro — ou melhor, pela falta dele.


Os Estados Unidos sinalizaram que não financiarão a estrutura logística da ONU para a AUSSOM além de dezembro de 2026. Sem financiamento substituto à vista, os países contribuintes de tropas estão sendo forçados a uma retirada descoordenada. A cúpula de Kampala, convocada para resolver a crise, acabou expondo sua gravidade; um centro de estudos (*think tank*) observou que cada nação contribuinte está, na prática, planejando "salvar a si mesma individualmente".

O comunicado oficial da AUSSOM descreveu a transferência de Burhakaba, ocorrida em 8 de agosto, como um marco na trajetória da Somália rumo a assumir a responsabilidade principal por sua própria segurança — uma transferência gradual de funções para as forças nacionais, nas palavras da própria missão. No papel, a transferência seguiu o protocolo. O Escritório de Apoio da ONU na Somália (UNSOS) forneceu suporte logístico. O contingente etíope cedeu formalmente a base para a 60ª Divisão do Exército Nacional Somali. A transferência foi descrita como ordenada. No terreno, porém, a realidade era outra.

Jornalistas somalis relataram que as forças de paz etíopes se retiraram durante a noite, nas horas imediatamente seguintes à transferência. Várias autoridades somalis teriam acompanhado o grupo, supostamente por medo de ataques insurgentes. O *Somali Guardian* não verificou esses relatos de forma independente, mas o padrão é consistente com uma força que está recuando mais rapidamente do que o cronograma da transferência sugeria. A geografia de Burhakaba torna a situação crítica. Todas as rotas de saída do distrito estão sob controle do Al-Shabaab. A cidade é a porta de entrada entre Mogadísco e Baidoa — a capital interina do Estado do Sudoeste — e constitui uma artéria vital tanto para as linhas de abastecimento civil quanto para a logística militar. Com a retirada do contingente etíope, os insurgentes agora cercam a guarnição, que perdeu seus defensores mais experientes, com um anel de território sob seu domínio.

Autoridades somalis locais manifestaram sérias dúvidas sobre a capacidade das forças nacionais de manterem a posição sozinhas. A preocupação não é teórica: o Al-Shabaab tem um histórico de explorar exatamente esse tipo de transição, testando unidades somalis recém-posicionadas poucas semanas — ou, por vezes, poucos dias — após a partida das tropas internacionais.

E a retirada pode não parar em Burhakaba. Relatos distintos sugerem que as forças etíopes pretendem desocupar várias outras cidades na região de Bay nas próximas semanas; a Rádio Dalsan noticiou uma transferência planejada de pelo menos três grandes cidades para as forças somalis. O padrão é inconfundível: uma retirada gradual que está sendo acelerada por pressões financeiras, e não por prontidão operacional.

A retirada de Burhakaba não ocorreu isoladamente. Foi consequência direta de um acerto de contas diplomático ocorrido na capital de Uganda no final de julho. A Segunda Cúpula Extraordinária dos países contribuintes de tropas para a AUSSOM e do Governo Federal da Somália reuniu-se em Kampala em 31 de julho. O objetivo declarado era elaborar um plano coletivo para o futuro da missão. O resultado, segundo analistas que acompanharam as deliberações, foi expor a inexistência de tal plano.


O estopim foi uma notificação da Missão dos Estados Unidos junto à União Africana, em 1º de julho. Washington deixou claro que não apoiaria a prorrogação da UNSOS — a espinha dorsal logística da AUSSOM financiada pela ONU — para além do mandato atual da missão, que expira em 31 de dezembro de 2026. Os EUA indicaram que não se oporiam à renovação do mandato da própria AUSSOM, mas que se oporiam a qualquer resolução do Conselho de Segurança que mantivesse a UNSOS. Para uma missão que depende inteiramente da logística da ONU para transporte, combustível, evacuação médica, apoio de engenharia e entrega de suprimentos, isso não era uma questão de detalhe técnico. Era uma sentença de morte lenta e gradual.

O comunicado da cúpula de Kampala, endossado pelos Estados contribuintes — Burundi, Djibuti, Egito, Etiópia, Quênia e Uganda —, solicitou ao Conselho de Segurança a prorrogação da missão por um período de 18 a 24 meses. No entanto, conforme observou a Amani Africa — um *think tank* sediado em Adis Abeba que acompanha de perto o Conselho de Paz e Segurança da UA — em uma análise contundente, esse apelo estava desvinculado de qualquer plano de financiamento ou logística realmente existente.

O Chefe das Forças de Defesa de Uganda aproveitou o encontro para defender o que chamou de arranjos alternativos liderados por africanos para sustentar a missão além de 2026 — uma proposta que, segundo a Amani Africa, depende inteiramente de os Estados Unidos reverterem uma decisão que não deram qualquer sinal de que pretendem mudar. Na ausência dessa reversão, o *think tank* argumentou que o horizonte de planejamento mais realista não é de 18 a 24 meses, mas sim um processo de encerramento comprimido de seis a doze meses, realizado paralelamente a desdobramentos bilaterais — em vez da transição mais longa, para a qual a cúpula não apresenta meios visíveis de financiamento.

O comunicado orientou, de fato, os ministros das Relações Exteriores dos países contribuintes de tropas a formar uma força-tarefa conjunta e a buscar a realização de uma conferência de doadores para garantir um financiamento previsível. No entanto, essa iniciativa ainda está em estágio inicial e, dada a posição firme dos EUA, as perspectivas de suprir uma lacuna de centenas de milhões de dólares por meio de contribuições voluntárias parecem remotas.

Se a cúpula de Kampala representou a face pública da crise, um sinal mais discreto surgiu nesta semana vindo da própria UNSOS — um sinal que fala mais alto do que qualquer comunicado. Em 6 de agosto, o Escritório de Apoio da ONU na Somália (UNSOS) publicou uma solicitação de manifestação de interesse no *UN Global Marketplace*, buscando leiloeiros licenciados para conduzir a venda comercial de um vasto inventário de bens pertencentes à ONU na Somália.


A lista é extensa: computadores, telefones e outros equipamentos de TI, contêineres de carga, torres de vigilância, estações de tratamento de águas residuais, veículos, geradores, unidades habitacionais pré-fabricadas e equipamentos médicos e laboratoriais. O contrato inicial teria duração de três meses, com três prorrogações opcionais de igual período. O prazo para envio de propostas encerra-se em 11 de agosto — um intervalo surpreendentemente curto de cinco dias que, por si só, tem gerado comentários entre observadores que acompanham a deterioração das finanças da missão.

A venda de equipamentos é uma prática comum durante a redução de efetivos de missões. No entanto, o momento, o escopo e a urgência do leilão sugerem uma operação logística que se prepara para uma retirada total, e não para uma transição. Uma missão que espera continuar operando por mais 18 a 24 meses não começa a vender suas estações de tratamento de águas residuais e geradores em agosto.

A retirada etíope na região de Bay levanta uma questão que analistas agora debatem abertamente: o ritmo da retirada foi calibrado, pelo menos em parte, para pressionar Washington a reconsiderar sua posição antes de dezembro? A lógica é simples. Se o Al-Shabaab for visto retomando cidades no sul e no centro da Somália à medida que as forças internacionais recuam, o governo Trump poderá se ver compelido a um envolvimento mais profundo, algo que tentou evitar até agora.

Os EUA já investiram pesadamente no combate ao terrorismo na Somália, com ataques de drones, compartilhamento de inteligência e apoio a unidades de elite somalis. Contudo, traçaram uma linha clara ao se recusarem a financiar a logística mais ampla da missão da União Africana, que mantém a força principal em campo. A transferência de Burhakaba e as retiradas etíopes que podem se seguir podem ser interpretadas como uma demonstração do custo dessa postura.


Para o Governo Federal da Somália, o cálculo é diferente. O país solicitou formalmente um adiamento de dois anos para a retirada das tropas estrangeiras, mas a escassez de recursos tornou esse pedido cada vez mais difícil de atender. O governo do presidente Hassan Sheikh Mohamud enfrenta agora um vácuo militar na região de Bay, justamente quando ainda luta para conter a crise política em Mogadishu, onde uma controversa extensão de mandato constitucional já desencadeou violentos confrontos de rua.

A convergência das duas crises — o colapso político na capital e a falência da segurança no interior — apresenta uma ameaça composta que a Somália não enfrentava desde o auge da expansão territorial do Al-Shabaab, uma década atrás. O futuro imediato de Burhakaba será definido nas próximas semanas. Se o Al-Shabaab testar a 60ª Divisão do Exército Nacional Somali e perceber sua fragilidade, a cidade poderá cair, cortando a rota de abastecimento para Baidoa e potencialmente desmantelando a arquitetura de segurança do Estado do Sudoeste.

A perspectiva a médio prazo é ainda mais precária. Com a previsão de que as forças etíopes deixem várias outras cidades e sem um plano de financiamento claro para a AUSSOM após dezembro, é provável que o padrão de retiradas nacionais descoordenadas se acelere. Cada país contribuinte de tropas enfrentará seus próprios cálculos sobre riscos, custos e vontade política. A avaliação do *Amani Africa* resumiu essa realidade sombria com extrema concisão: na ausência de um plano coletivo viável resultante da cúpula da UA e de Kampala, cabe a cada país contribuinte de tropas da AUSSOM planejar sua própria sobrevivência individual. Isso não é um plano de transição; é um plano de fragmentação. A bandeira da Etiópia já não tremula sobre Burhakaba. A ONU está leiloando seus equipamentos. E o Al-Shabaab observa de todos os lados.

A crise na Somália já não se resume a prorrogações de mandatos políticos em Mogadíscio; trata-se de saber se a comunidade internacional está disposta a pagar o preço para evitar um vácuo de segurança que a insurgência está pronta para preencher. A cúpula de Kampala gerou comunicados, mas nenhum recurso financeiro. O Conselho de Segurança pode prorrogar mandatos, mas, sem logística, mandatos não passam de papel. E, no terreno, os soldados que mantiveram a linha de frente por doze anos estão fazendo as malas.

O que é certo é que a retirada de Burhakaba não é o fim da história. É o início de um capítulo novo e perigoso — um no qual o frágil Estado federal da Somália enfrenta tanto uma ruptura política na capital quanto um colapso militar no interior, com o Al-Shabaab à espreita para tirar proveito de ambas as situações.

Lítio no Sahel: como grupos armados estão explorando a corrida global por esse mineral crítico

 A bateria de todo veículo elétrico, smartphone e notebook começa com um ingrediente essencial: o lítio.

Esse mineral crítico está no centro da transição global para energias mais limpas. O lítio alimenta baterias recarregáveis. Garantir seu suprimento é, portanto, uma prioridade econômica e geopolítica.

A Agência Internacional de Energia prevê que a demanda global por lítio aumentará à medida que a produção de veículos elétricos e o armazenamento de energia renovável se expandem. A África, particularmente a região do Sahel, está se tornando cada vez mais importante na busca por suprimentos. Os principais produtores atuais são Chile, Austrália e China.

O Sahel é uma zona semiárida que se estende do oeste ao leste da África, entre o Deserto do Saara, ao norte, e as savanas tropicais, ao sul.


Por toda essa vasta região, grupos armados estão encontrando novas formas de lucrar com o comércio em expansão do lítio. Mais de 40.000 toneladas de lítio já são extraídas de rochas africanas anualmente para consumidores internacionais. Esse número deve subir para uma estimativa de 500.000 toneladas até 2030.

Sou pesquisador especializado em geopolítica e estudos de guerra. Em um estudo recente, examinei como a expansão da extração de lítio se cruza com conflitos em todo o Sahel. Analisei o Mali, o Níger, Burkina Faso, o Chade e a Nigéria.

Descobri que as indústrias de lítio em crescimento estão se envolvendo em conflitos existentes, atividades insurgentes e contrabando transfronteiriço. Tudo isso é facilitado pela fragilidade da governança.

Por exemplo, grupos jihadistas e criminosos — particularmente o Boko Haram e o Estado Islâmico na África Ocidental (ISWAP) — estão explorando a fiscalização deficiente da mineração de lítio para gerar receita e expandir suas operações.

Defendo que, se os governos do Sahel não fortalecerem a fiscalização, o lítio corre o risco de se tornar mais um recurso que financia conflitos em vez de desenvolvimento. Onde a governança é fraca, minerais valiosos, como ouro e diamantes, já alimentaram conflitos no passado.

Lítio no Sahel


Sob partes do Sahel encontram-se algumas das jazidas de lítio mais promissoras da África, particularmente na Nigéria e no Mali. A exploração e os levantamentos geológicos estão se expandindo para outras áreas da região, incluindo Níger, Burkina Faso e Chade.

Para governos que enfrentam desafios econômicos persistentes, as reservas de lítio estão atraindo investimentos e gerando empregos. Se esses ganhos iniciais se traduzirão em um desenvolvimento econômico mais amplo dependerá de decisões relacionadas à governança, à regulamentação e à segurança.

Mali, Burkina Faso, Níger e Nigéria já enfrentam insurgências violentas. Eles também lidam com o crime organizado, instituições frágeis e controle governamental limitado sobre regiões fronteiriças remotas.

As mesmas condições de recursos naturais que atraem investidores também atraem grupos armados. Há dezenas de exemplos em todo o continente.

Diamantes ajudaram a financiar guerras civis em Serra Leoa e Angola. A mineração de ouro tem financiado grupos armados em toda a África Ocidental. A riqueza petrolífera alimentou a corrupção e a instabilidade política na Nigéria, em Angola e na Líbia.

Minha pesquisa sugere que o lítio pode se tornar o exemplo mais recente.

Seguindo o dinheiro

Como qualquer organização, grupos armados precisam de dinheiro para sustentar suas operações.

Eles cobram taxas de mineradores e controlam o acesso às áreas de mineração. Também cobram de comerciantes e transportadores que movimentam minérios por seus territórios e oferecem "segurança" onde os governos não conseguem fazê-lo.

Ao fazer isso, desempenham algumas das funções normalmente associadas ao Estado. Minha pesquisa sugere que, à medida que a extração de lítio se expande, esses mesmos sistemas estão se adaptando a essa commodity.


Analisei evidências da Nigéria, Mali, Burkina Faso, Níger e Chade para identificar por que algumas indústrias emergentes de lítio são mais vulneráveis ​​à exploração por grupos criminosos e terroristas do que outras.

Comparei diferenças na governança, a presença de mineração artesanal, a influência de insurgentes e a acessibilidade de rotas de contrabando transfronteiriço. Utilizei bancos de dados sobre conflitos, levantamentos geológicos, reportagens da mídia e publicações de organizações africanas e internacionais.

Constatei que a vulnerabilidade geral de cada país depende da solidez das instituições locais, dos controles de fronteira e da governança.

Nigéria: A mineração de lítio está se expandindo rapidamente, mas permanece amplamente informal e fora da fiscalização governamental. Grupos criminosos exploram a falta de regulamentação. Eles exigem pagamentos por "proteção" e se infiltram tanto nas cadeias de suprimentos legais quanto nas ilegais.

Mali: Grupos armados, já inseridos na economia do ouro do país, começaram a aplicar modelos semelhantes de tributação e extorsão nas regiões produtoras de lítio. Instituições estatais fracas e conflitos em curso aumentaram o risco de exploração.

Burkina Faso: Grupos jihadistas têm utilizado redes informais de mineração para gerar receita com o lítio e fortalecer sua influência local. O controle governamental limitado em áreas remotas criou oportunidades para que grupos armados cobrassem taxas e regulassem a extração.

Níger: A instabilidade política e o enfraquecimento dos controles de fronteira após o golpe de 2023 aumentaram o risco de contrabando de minérios. Rotas de tráfico usadas para ouro e armas estão sendo adaptadas para o lítio.

Chade: A governança fraca e a corrupção facilitam o comércio ilícito transfronteiriço. Isso cria vulnerabilidades que podem ser exploradas.

Onde os governos regulamentam a mineração de forma eficaz e mantêm o controle sobre as cadeias de suprimentos de minérios — como Botsuana fez com os diamantes —, é mais provável que as receitas geradas apoiem a infraestrutura, os serviços públicos e o crescimento econômico.


Nos países analisados ​​em meu estudo, onde a governança é mais fraca e o controle estatal é mais limitado, grupos armados conseguem se inserir nas cadeias de suprimentos.

O que vem a seguir

A transição global para energias mais limpas depende da expansão da produção de lítio. No entanto, a crescente demanda também cria incentivos para uma extração mais acelerada. Esse ritmo pode superar a capacidade dos governos de implementar regulamentações e mecanismos de fiscalização eficazes.

Assim, as baterias que ajudam o mundo a reduzir as emissões de carbono poderiam, indiretamente, financiar alguns dos grupos armados mais letais da África.

A solução reside em uma melhor governança do lítio.

Os governos devem integrar os garimpeiros e os mineradores de pequena escala à economia formal. Isso pode ser feito por meio de licenciamento, proteções legais e mercados transparentes. É preciso restaurar a autoridade estatal nas regiões de mineração.

Organizações regionais devem fortalecer os sistemas de rastreamento de minerais entre fronteiras e compartilhar informações de inteligência sobre o comércio ilícito.

Os governos africanos devem investir mais no processamento de lítio, em vez de exportar o minério bruto.

Mas não existe uma solução única para todos os contextos.

A formalização da mineração artesanal tende a ser mais eficaz onde os governos exercem controle sobre o território. O compartilhamento de inteligência é importante onde as rotas de tráfico abrangem vários países — como Mali, Burkina Faso e Níger. O processamento interno de lítio pode gerar benefícios a longo prazo em países com instituições mais sólidas e capacidade de apoiar o desenvolvimento industrial.

Essas recomendações baseiam-se em abordagens já adotadas em outras partes da África. Existem iniciativas regionais de rastreabilidade de minerais na região dos Grandes Lagos e esforços de países como o Zimbábue para promover o processamento interno de lítio.

As reservas de lítio da África poderiam ajudar a impulsionar uma das transformações tecnológicas decisivas deste século. Também poderiam se tornar o próximo capítulo de uma longa história de conflitos motivados pela exploração de recursos.

O futuro que emergirá dependerá dos governos responsáveis ​​pela gestão desse recurso.

Afeganistão : Talibã está sob pressão de insurgentes após 5 anos no poder

 O Talibã conseguiu retomar o poder no Afeganistão em 15 de agosto de 2021. Agora, o grupo enfrenta facções armadas que desafiam seu domínio e colocam em xeque a sua principal promessa: a de garantir a segurança.

Resistência anti Taliban

Menos de um mês antes de completar cinco anos desde que o Talibã retomou o poder no Afeganistão, o regime islâmico perdeu o controle da capital do distrito de Yaftal-e Payeen, na província de Badakhshan (nordeste do país). Embora a perda tenha sido temporária, ela marcou a primeira vez que o Talibã perdeu o controle de uma sede distrital desde o seu retorno ao poder em agosto de 2021.



Relatos provenientes de Badakhshan também indicaram confrontos internos entre combatentes do Talibã e ataques fatais contra autoridades de alto escalão do grupo.


Em 2 de agosto, cerca de duas semanas após a breve perda da sede distrital, o ex-general do exército afegão Sami Sadat ordenou que suas forças lançassem ataques contra o Talibã em todo o país.

"Hoje, às 5h da manhã, ordenei que todos os membros militares da Frente Unida iniciassem operações militares", afirmou o general Sadat em uma mensagem de vídeo divulgada a partir dos EUA, onde vive desde a queda do Afeganistão para o Talibã.


Outros grupos armados, incluindo a Frente de Resistência Nacional — liderada pelo filho do falecido comandante Ahmad Shah Massoud —, travam uma luta armada contínua contra o Talibã desde 2021. Embora os insurgentes armados não tenham conseguido representar uma ameaça significativa ao controle geral do Talibã sobre o poder, especialistas questionam se os confrontos em Badakhshan poderiam abrir caminho para uma resistência de maior impacto. "Ao longo desses cinco anos, essa oposição existiu de duas formas: política e militar... À medida que a marca de cinco anos se aproxima, ambas as formas de oposição ganharam corpo", disse à DW o ex-ministro do Interior do Afeganistão, Mohammad Umer Daudzai.

O Talibã governa com mão de ferro desde o colapso do governo afegão apoiado pelos EUA, há cinco anos. O regime islâmico negou direitos humanos básicos e impôs restrições severas às mulheres, proibindo-as de trabalhar e de frequentar a escola após a sexta série. As mulheres também estão, em grande parte, banidas da vida pública no Afeganistão e possuem pouquíssimos direitos.

A maioria das autoridades do antigo governo vive no exílio. Embora o Talibã sustente que todos os afegãos são livres para retornar e levar vidas comuns, a oposição argumenta que o retorno só é viável se a atividade política for permitida.

Embora o regime tenha conseguido estabelecer alguns contatos internacionais, ele ainda é visto como ilegítimo pela maioria dos governos do mundo. Até o momento, apenas a Rússia reconheceu o Talibã como o governo oficial do Afeganistão. Enfrentando pressões tanto dentro quanto fora do país, o Talibã tem apontado repetidamente a restauração da segurança em todo o território nacional como sua principal fonte de legitimidade. No entanto, especialistas alertam que seu estilo de governo pode, na verdade, permitir que rebeldes armados os desafiem em várias partes do Afeganistão. "Se essa política do Talibã continuar, forças armadas surgirão contra eles, a oposição emergirá, haverá interferência de vizinhos e, por fim, o terreno estará preparado para guerras por procuração", disse à DW o ex-ministro da Defesa interino, Shahmohammad Miakhel.

Além da oposição política, a filial regional do "Estado Islâmico" (EI) permanece ativa no Afeganistão. O grupo reivindicou a autoria de vários ataques de grande repercussão contra autoridades do Talibã, incluindo uma explosão em janeiro em um restaurante chinês no centro de Cabul, que matou pelo menos sete pessoas, e um atentado suicida em Cabul, em dezembro de 2024, que matou o ministro de Refugiados do regime, Khalil Ur-Rahman Haqqani.

Coreia do Sul diz ter disparado tiros de advertência após soldados norte-coreanos cruzarem a linha de demarcação


 O Estado-Maior Conjunto (JCS) da Coreia do Sul informou, no domingo, que tiros de advertência foram disparados depois que soldados norte-coreanos violaram a linha de demarcação militar entre os dois países, levando-os a recuar.

A agência de notícias Yonhap havia noticiado mais cedo, no domingo, que tiros de advertência foram disparados na semana passada, citando uma fonte não identificada.


"Recentemente, na Frente Leste, forças norte-coreanas cruzaram a linha de demarcação militar, levando nossas forças armadas a disparar tiros de advertência em conformidade com os procedimentos operacionais", afirmou o JCS em comunicado, sem especificar a data do incidente.

"Nossas forças armadas estão monitorando atentamente os movimentos norte-coreanos, mantendo uma postura firme de prontidão militar."

A Yonhap informou que esse incidente foi a primeira violação da linha de demarcação militar registrada por parte da Coreia do Norte neste ano e que os soldados provavelmente estavam patrulhando a área quando cruzaram a linha.

A embaixada da Coreia do Norte em Singapura não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Tropas norte-coreanas violaram a linha 17 vezes no ano passado, segundo a Yonhap.

A próxima guerra no Iêmen pode ser diferente - Drones não são mais vantagem exclusiva de um lado

 À medida que o conflito no Iêmen se intensifica e se espalha pelo Mar Vermelho, os acontecimentos das últimas semanas revelam uma nova tendência que merece reflexão. O grupo Houthi, que durante anos praticamente monopolizou a vantagem da guerra com drones, começou a enfrentar fogo da mesma arma usada por seus oponentes em múltiplas frentes.


Isso não significa que o equilíbrio de poder tenha mudado, ou que os Houthis tenham perdido sua superioridade em mísseis e drones. No entanto, o uso crescente desse tipo de guerra pelas forças leais ao governo internacionalmente reconhecido pode mudar a natureza do confronto, especialmente se ele passar de operações dispersas para uma capacidade organizada e sustentada.

Durante anos, os Houthis foram capazes de usar drones como uma das armas mais importantes da guerra assimétrica. Eles conseguiam monitorar seus oponentes e atacar suas reuniões, centros de comando e instalações longe das linhas de contato, enquanto as forças governamentais estavam, em sua maioria, em posição de defesa e interceptação. Hoje, a equação não é mais tão simples.

As forças afiliadas ao governo anunciaram nos últimos dias o uso de drones contra posições Houthi em Marib, al-Jawf, Taiz, Hajjah, al-Dhalea e outras frentes – e mostraram vídeos de várias dessas operações. Ainda não é possível falar em paridade no poder dos drones. Os Houthis têm anos de experiência e uma infraestrutura de mísseis e drones mais avançada. No entanto, o governo não precisa necessariamente de paridade total para provocar mudanças no campo de batalha.


Basta que as concentrações, veículos, artilharia, reforços e centros de comando Houthi se tornem vulneráveis ​​a ataques para que sejam forçados a mudar seus padrões de implantação, movimentação e abastecimento. Em uma guerra, forçar o inimigo a mudar seu comportamento já é, por si só, uma conquista militar. Seria errado dizer que os Houthis passaram para a defensiva. Eles estão realizando amplas operações ofensivas: atacaram Marib e Hadramout, alvejaram repetidamente al-Makha (Mocha), intensificaram os ataques contra a Arábia Saudita e, mais uma vez, deslocaram suas operações para o Mar Vermelho e Bab al-Mandeb. Mas há uma diferença entre o grupo estar em uma postura defensiva estratégica e começar a agir em algumas frentes como se precisasse se preparar para um possível ataque. Aqui, a geografia dos ataques recentes torna-se mais importante do que o seu número.


Marib, Taiz, Meca e a costa oeste não são frentes aleatórias; elas representam pontos de acesso cruciais para qualquer potencial guerra terrestre. Marib é a porta de entrada para o leste e um dos centros de gravidade militares e políticos mais importantes do governo. Atacar acampamentos e movimentações ali não só causa perdas, como também pode expor posicionamentos, defesas, velocidade de resposta e fontes de reforço. Taiz é a junção central e costeira. Ativar suas frentes pode imobilizar grandes forças e impedir seu fácil redesdobramento em direção à costa oeste ou a outras frentes. Meca e a costa oeste têm um significado diferente. Ao sul da cidade fica Bab al-Mandeb e, ao norte, a estrada se estende em direção a Hodeida. Portanto, os repetidos ataques a Meca com mísseis e drones também podem ser vistos como um teste de uma frente que poderia se tornar muito importante caso uma operação terrestre comece ao longo da costa.

Quando combinamos o que está acontecendo em Marib, Taiz, Meca, Dala, Jawf, Saada e Hodeida, torna-se difícil considerar cada frente como um incidente isolado. Isso não significa que a decisão por uma guerra terrestre tenha sido tomada, mas significa que as partes começaram a agir como se essa possibilidade devesse ser levada a sério. Por essa razão, o indicador mais importante no próximo período não será o número de mísseis ou drones, mas a movimentação de forças e reservas, e a transferência de munição.

Quando essa movimentação começar a se concentrar em um eixo específico, teremos passado do teste da frente para a preparação da frente.

Se essas declarações não tivessem sido acompanhadas de ações, poderiam ter sido vistas apenas como uma escalada da retórica política. Drones governamentais entraram abertamente no confronto, a artilharia está operando em mais de uma frente, a prontidão militar está aumentando e o governo está falando mais claramente sobre dissuasão. O verdadeiro teste para o governo será se essas ações se transformarão em uma doutrina operacional sustentada, na qual qualquer ataque Houthi incorre em um custo direto, ou se o padrão antigo será mantido, onde as forças governamentais absorvem os ataques e emitem respostas limitadas.

Isso pode levar a uma fórmula diferente da guerra anterior: as forças iemenitas assumindo a maior parte do confronto terrestre, enquanto a Arábia Saudita e seus parceiros fornecem apoio, dissuasão e proteção para as rotas marítimas. O perigo é que todos agora estão se aproximando da beira da guerra: os Houthis estão testando quanta pressão podem exercer sobre a Arábia Saudita, o governo iemenita e as nações internacionais. Enquanto isso, as forças governamentais testam novas ferramentas e sua capacidade de retomar a iniciativa, e a Arábia Saudita tenta construir uma nova capacidade de dissuasão, ao passo que o confronto entre os EUA e o Irã prossegue em segundo plano. Isso amplia a margem para erros estratégicos que poderiam levar a uma guerra aberta.

Afeganistâo : Confrontos ocorrem entre a guerrilha 'Frente de Libertação do Afeganistão' e o Talibã em Zebak, Badakhshan


 Fontes locais relataram novos confrontos no sábado, 15 de agosto, entre a Frente de Libertação do Afeganistão e forças do Talibã no distrito de Zebak, em Badakhshan.

Segundo as fontes, os combates ocorreram na área de Topkhana, em Zebak, com ambos os lados utilizando armas leves e pesadas.


A Frente de Libertação do Afeganistão havia anunciado anteriormente o que descreveu como um "ataque preventivo" contra posições do Talibã em Zebak.

De acordo com informações recebidas, um veículo do Talibã saiu da estrada em uma área do distrito de Zebak e caiu em um rio.


Fontes informaram que todos os ocupantes do veículo morreram, embora o número exato de baixas permaneça desconhecido.

Relata-se que o veículo transportava uma metralhadora pesada DShK para a linha de frente quando o acidente ocorreu.

Enquanto isso, fontes em Faizabad, capital de Badakhshan, informaram que helicópteros do Talibã retomaram voos em direção ao distrito de Zebak nas últimas horas.

Myanmar : Tropas da Junta Militar lançam ofensivas pesadas para penetrar no Estado de Arakan

 A junta militar está lançando ofensivas pesadas, utilizando diversas táticas e métodos, na tentativa de penetrar no Estado de Arakan — território controlado pelo Exército de Arakan —, segundo um comunicado divulgado pelo grupo armado de etnia arakanesa em 14 de agosto.


A junta militar está lançando ofensivas pesadas, utilizando diversas táticas e métodos, na tentativa de penetrar no Estado de Arakan — território controlado pelo Exército de Arakan —, segundo um comunicado divulgado pelo grupo armado de etnia arakanesa em 14 de agosto. Atualmente, a junta militar conduz ofensivas contra posições do Exército de Arakan ao longo da fronteira entre Arakan e Ayeyarwady, com combates intensos registrados nos últimos dias. A junta iniciou essas ofensivas com amplo apoio de aeronaves, drones e artilharia pesada terrestre, conforme o comunicado do Exército de Arakan.

No entanto, por meio de operações defensivas e de contraofensiva, o Exército de Arakan repeliu os ataques, forçando as forças da junta a recuar e causando-lhes baixas. Corpos de soldados da junta e equipamentos militares também foram capturados, segundo o comunicado. "A junta militar está combatendo com membros de milícias recrutados à força e efetivos que carecem de eficácia em combate. É por isso que sofrem baixas e recuam em desordem. Contudo, acredito que a junta militar continuará tentando entrar no Estado de Arakan por todos os meios possíveis", afirmou um analista militar e político sediado em Arakan.


Em 12 de agosto, a junta mobilizou grandes contingentes para lançar ofensivas contra colunas do Exército de Arakan perto do acampamento no topo da colina "Point 101", no município de Yekyi (região de Ayeyarwady), e próximo à vila de Thabaung Kalay, no município de Thabaung. A ação desencadeou confrontos intensos que duraram o dia todo em cinco locais diferentes, segundo o Exército de Arakan.

No mesmo dia, um confronto de três horas ocorreu a cerca de 1.000 metros a leste da vila de Thabaung Kalay, envolvendo o Exército de Arakan e o Batalhão de Infantaria Leve nº 101 — vinculado à Divisão de Infantaria Leve nº 66 —, que avançava a partir do município de Thabaung. Da mesma forma, ocorreram confrontos ao sul e sudoeste do acampamento no topo da colina "Ponto 101" entre o Exército de Arakan e os Batalhões de Infantaria Leve nº 1 e nº 11 — subordinados à Divisão de Infantaria Leve nº 66, que avançava a partir do município de Yekyi —, segundo o comunicado.


A junta militar mobilizou caças a jato, aeronaves Y-12, drones e artilharia pesada terrestre para apoiar o deslocamento de tropas em larga escala durante as ofensivas, informou o Exército de Arakan. "A junta militar está tentando entrar a partir de áreas limítrofes ao Estado de Arakan utilizando diversos métodos. No entanto, eles não conseguem resistir aos ataques defensivos e de contraofensiva do Exército de Arakan e de suas forças aliadas. Portanto, avalio que penetrar no Estado de Arakan será extremamente difícil para eles", afirmou U Aung Marm Oo, editor-chefe do DMG e analista político.

A junta militar tenta penetrar no Estado de Arakan a partir de regiões e estados adjacentes, incluindo as regiões de Ayeyarwady, Magway e Bago, bem como o Estado de Chin. Paralelamente, a junta militar tem realizado ataques aéreos contínuos nos últimos dias contra o município de Gwa — que faz fronteira com a região de Ayeyarwady — como parte de seus esforços para penetrar no Estado de Arakan. "Incapazes de romper a defesa e entrar no Estado de Arakan, eles estão visando diretamente civis com bombardeios aéreos em massa. Isso constitui uma violação dos direitos humanos internacionais e representa uma violação flagrante das Convenções de Genebra", acrescentou ele.

Nos dias 12 e 13 de agosto, bombardeios realizados por caças da junta contra a vila de Kaingkhon e a cidade de Kyeintali, no município de Gwa, causaram baixas civis, matando oito pessoas, incluindo mulheres e crianças. Há anos, a junta militar vem lançando ofensivas e repetidos bombardeios aéreos contra áreas residenciais ao longo das fronteiras de três regiões e um estado, na tentativa de penetrar no Estado de Arakan.

China e Belarus realizam exercícios conjuntos de operações aerotransportadas em meio a tensões crescentes com a OTAN

 


A China e Belarus realizaram um treinamento conjunto de contraterrorismo aerotransportado com o início da quarta edição do exercício "Swift Eagle" (Águia Veloz). O exercício concentra-se em operações conjuntas de contraterrorismo em ambiente urbano, com as forças participantes treinando vigilância e contravigilância, tomada e controle de objetivos, operações de proteção, bem como a eliminação e defesa de posições. O programa também incluirá seminários e intercâmbios culturais. A mídia estatal chinesa descreveu o exercício como uma oportunidade para aprimorar as capacidades de combate das forças participantes e aprofundar a cooperação militar substantiva.


O treinamento teve início em 12 de agosto em um centro de treinamento da Força Aérea do Exército de Libertação Popular (ELP) na China, marcando o primeiro exercício "Swift Eagle" desde 2015 e mais um indício da crescente relação militar prática entre Pequim e Minsk. O componente aerotransportado é particularmente significativo devido às capacidades especializadas necessárias para o rápido deslocamento de tropas para áreas contestadas ou de difícil acesso. Embora nenhum dos lados tenha divulgado os equipamentos envolvidos, o analista militar chinês Wang Yanan sugeriu que Belarus poderia empregar aeronaves de transporte Il-76 para operações aerotransportadas de pequena escala e baixa altitude, enquanto a China — embora também possua uma frota considerável de Il-76 — provavelmente utilizaria transportes mais modernos, como o Y-9 ou o Y-20. O Y-20 é atualmente a maior aeronave de transporte militar em produção no mundo.

Forças chinesas já haviam sido deslocadas para Belarus em julho de 2024 para o exercício militar de onze dias "Eagle Assault" (Ataque da Águia), realizado na região de Brest, a menos de 5 quilômetros da fronteira com a Polônia. Embora as forças terrestres de ambos os países tenham participado de exercícios multilaterais no passado, e forças bielorrussas tenham participado de exercícios na China, essa foi a primeira vez que forças terrestres chinesas foram deslocadas para exercícios em Belarus, aproximando-as como nunca antes do território da OTAN. Belarus vinha enfrentando tensões crescentes tanto com a Ucrânia quanto com a Polônia nos meses anteriores; o chefe do comando de operações especiais das Forças Armadas de Belarus, Vadzim Dzenisenka, explicou: "a situação mundial é difícil e, por isso, estamos praticando novas formas e métodos para solucionar tarefas táticas".

Embora as forças aerotransportadas chinesas possuam vasta experiência na realização de exercícios militares de grande escala, seu emprego em operações de contraterrorismo tem sido relativamente limitado. As missões internas de contraterrorismo da China são geralmente conduzidas por unidades policiais e pela Polícia Armada Popular; portanto, as forças aerotransportadas seriam relevantes principalmente em cenários excepcionais que exigissem o rápido deslocamento de contingentes substanciais, como operações contra terroristas que ocupassem grandes complexos urbanos. O exercício *Swift Eagle 2026* oferece, assim, uma oportunidade para treinar uma missão especializada que, de outra forma, receberia comparativamente pouca experiência operacional.


O treinamento não visa simplesmente permitir que um dos lados replique as táticas do outro. Wang descreveu a iniciativa como uma oportunidade para que as duas forças estabeleçam uma base de cooperação e se familiarizem com os procedimentos operacionais mútuos. Isso é particularmente relevante para operações aerotransportadas, nas quais diferenças em procedimentos de comando, comunicações, logística e doutrina tática podem complicar operações multinacionais. O exercício também representa a retomada de uma relação militar que remonta a mais de uma década. As forças aerotransportadas da China e da Bielorrússia realizaram treinamentos conjuntos em 2011 e 2012, enquanto o *Swift Eagle 2015* contou com o envio de um destacamento de operações especiais aerotransportadas da Força Aérea do Exército de Libertação Popular (ELP) para a Bielorrússia. O exercício mais recente, portanto, restaura um padrão de cooperação que havia sido interrompido por cerca de onze anos.

Para a China, o valor do *Swift Eagle* vai além do contraterrorismo. Exercícios regulares proporcionam a oportunidade de testar a interoperabilidade, desenvolver a familiaridade entre o pessoal e identificar diferenças de doutrina e equipamento. Embora o exercício atual não indique que a China e a Bielorrússia estejam se preparando para operações conjuntas de combate convencional, a retomada da cooperação aerotransportada demonstra o interesse contínuo de Pequim em desenvolver relações militares práticas com parceiros fora de sua região imediata. No entanto, a China enfrenta uma ameaça persistente de terrorismo, proveniente principalmente de grupos militantes jihadistas apoiados pela Turquia — como o Partido Islâmico do Turquestão Oriental —, que reuniram forças estimadas em mais de 20.000 combatentes na Turquia e na Síria, recebendo considerável apoio material, de treinamento e de inteligência.