Qual é o sistema antidrone ucraniano Sky Map que está sendo usado no Golfo?

 O sistema ucraniano, testado em combate, utiliza milhares de sensores acústicos e interceptores para localizar e destruir drones.

Drones unidirecionais baratos e produzidos em massa têm desempenhado um papel importante no conflito entre os Estados Unidos, Israel e Irã desde os primeiros ataques a Teerã, em 28 de fevereiro. Enquanto o Irã usa esses drones para atacar instalações de energia, bases aéreas e outros locais estratégicos no Golfo e em Israel, os EUA e Israel utilizam mísseis interceptores caros para defesa. Para combater a ameaça dos drones, os estados do Golfo e seus parceiros americanos recorreram à tecnologia antidrone de fabricação ucraniana, testada em combate contra ataques de drones russos.


No final de março, o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy visitou a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Catar para oferecer conhecimento especializado em contra-drones, assinando acordos de defesa de 10 anos com os três países. Posteriormente, ele confirmou que as forças ucranianas participaram de operações ativas usando drones interceptores de fabricação nacional, abatendo drones Shahed iranianos em vários países do Golfo. De acordo com a agência de notícias Reuters, os militares dos EUA também implantaram o Sky Map, uma plataforma ucraniana de comando e controle usada para detectar drones que se aproximam, na Base Aérea Príncipe Sultan, na Arábia Saudita, com oficiais ucranianos viajando para a base para treinar militares americanos no software. Nesta explicação visual, a Al Jazeera detalha como funcionam os sistemas antidrone da Ucrânia, que tipos de interceptores eles usam e contra que tipos de drones estão sendo implantados.



O Shahed-136 é um drone de ataque unidirecional iraniano que ganhou destaque global depois que a Rússia começou a usá-lo na Ucrânia em 2022. A aeronave triangular tem cerca de 3,5 metros (11,5 pés) de comprimento e 2,5 metros (8,2 pés) de envergadura. A chave para a eficácia desses drones está nos números. Cada drone custa entre US$ 20.000 e US$ 50.000 – em comparação com os mísseis interceptores Patriot dos EUA usados ​​para abatê-los, que custam cerca de US$ 4 milhões cada. Por utilizar um motor de pistão simples, semelhante ao de um cortador de grama, o drone é muito barulhento. Embora isso facilite sua audição, sua baixa altitude e pequena assinatura de radar dificultam que os sistemas automatizados tradicionais o localizem até que esteja muito próximo. Os drones são guiados por GPS e pré-programados com coordenadas para atingir alvos fixos, embora variantes mais recentes incorporem tecnologia anti-interferência depois que os adversários aprenderam a interromper sua navegação. A palavra "Shahed" é de origem árabe e significa "testemunha". Embora a palavra seja originalmente árabe, ela também está totalmente integrada ao idioma persa, o farsi, no qual carrega o mesmo significado. O gráfico abaixo mostra vários tipos de drones iranianos, incluindo suas munições, alcance e capacidade de carga útil.



O projeto é tão eficaz e replicável que várias forças armadas o adotaram, incluindo o Shahed original do Irã, o Geran-2 da Rússia e o LUCAS (Sistema de Ataque de Combate Não Tripulado de Baixo Custo) dos EUA, enquanto outros países desenvolveram munições de ataque de longo alcance semelhantes ao Shahed e drones de ataque menores inspirados nesse formato. Drones interceptores são projetados para perseguir e abater drones de ataque antes que eles consigam atingir seus alvos. Eles também são capazes de transportar uma ampla gama de cargas úteis e não se autodestroem, ao contrário dos drones de uso único. Os preços dos drones interceptores ucranianos variam de cerca de US$ 1.000 a US$ 3.000. Drones interceptores populares incluem:



O Sting: Este quadricóptero de fabricação ucraniana tem aproximadamente o tamanho de uma garrafa térmica grande ou, tipicamente, de 30 a 45 cm (12 a 18 polegadas) de comprimento. Ele pode atingir velocidades de até 342 quilômetros por hora (213 milhas por hora), tornando-o um dos interceptores mais rápidos. Ele pode voar a uma altitude de 3.000 metros (cerca de 10.000 pés) e utiliza câmeras de imagem térmica para atingir alvos com sua cabeça em forma de cúpula, que abriga o sistema de câmeras e a carga explosiva. Ele pode retornar à base se um alvo não for localizado.

P1-Sun: Similar em design ao Sting, é um interceptor impresso em 3D produzido pela empresa de armamentos Skyfall e pode voar a até 300 km/h (186 mph).

ODIN Win_Hit: Desenvolvido pela empresa de defesa ucraniana ODIN, este é outro drone em formato de bala construído para missões de curta duração e alta intensidade. Possui velocidade máxima de até 300 km/h (186 mph) e pode voar até 5 km (3,1 milhas) por 7 a 10 minutos de cada vez.

Octopus 100: Este interceptor de design ucraniano é capaz de voar a velocidades superiores a 300 km/h (186 mph) e tem uma altitude de até 4,5 km (2,8 milhas). É produzido em massa no Reino Unido.

Bagnet: Um drone interceptor de alta velocidade lançado em 2024 com velocidade máxima de 250 km/h (155 mph). O Bagnet é classificado como um interceptor UAV de resposta rápida e pode atingir drones em voo estacionário e alvos de reconhecimento.

Merops: Um drone interceptor desenvolvido nos EUA, guiado por IA e resistente a interferências de GPS, com um custo de desenvolvimento mais elevado, de cerca de US$ 15.000.

VB140 Flamingo: Capaz de operar a uma altitude de até 4,5 km (2,8 milhas) e em um alcance de até 50 km (31 milhas).



O Sky Map é a plataforma de software de comando e controle da Ucrânia, que pode identificar.  A Sky Fortress, empresa por trás do Sky Map, foi fundada em 2022 e é financiada pelas forças armadas da Ucrânia. Segundo a Reuters, a empresa instalou mais de 10.000 sensores acústicos em toda a Ucrânia para detectar ataques de drones. Esses sensores são essencialmente microfones de alta sensibilidade implantados em todo o país para captar as assinaturas sonoras distintas dos motores dos drones. O Sky Map integra sensores acústicos, radares e sistemas de inteligência artificial para detectar ameaças e orientar os sistemas de defesa aérea. Cada interceptor é operado por um piloto treinado, que acompanha em tempo real as imagens da câmera do drone em um monitor ou por meio de óculos de visão em primeira pessoa (FPV) próximos à área de combate. A tecnologia está se tornando cada vez mais autônoma, com sensores embarcados e sistemas de navegação inercial assistidos por IA que permitem aos drones realizar mudanças rápidas de direção em pleno ar, rastrear alvos em movimento e manter trajetórias de voo precisas mesmo com interferência de GPS. Segundo o Conselho de Defesa da Ucrânia, abater um míssil Shahed com um drone interceptor é mais de 25 vezes mais barato do que usar um míssil de defesa aérea de modelo ocidental. Analistas afirmam que os drones podem neutralizar uma variedade de ataques, mas não conseguem interceptar mísseis balísticos. No mês passado, o Pentágono anunciou um investimento de US$ 350 milhões em sua unidade antidrone, equipada com câmeras, sensores e interceptores, para dar suporte contra ataques de drones no conflito atual. Os sistemas de defesa aérea atualmente em uso pelos EUA têm dificuldades para eliminar rajadas de ataques unidirecionais de drones, já que estes são rápidos demais para esses sistemas e frequentemente conseguem escapar da detecção. Além disso, o custo das defesas aéreas costuma ser muito alto para justificar o investimento em relação à quantidade de drones que chegam ao país.

Irã : Milícia Basij: a última linha de defesa do regime de Teerã

 


A milícia Basij liderou os esforços para suprimir a mais recente onda de protestos no Irã, onde milhares de pessoas teriam sido mortas em uma repressão do regime.

Nos últimos sete anos, a Basij foi comandada por Gholamreza Soleimani, um oficial da Guarda Revolucionária Islâmica com patente equivalente a general de brigada. Apesar do nome, ele não tem parentesco com Qassem Soleimani, o ex-comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária Islâmica, morto pelos EUA em janeiro de 2020. Gholamreza Soleimani iniciou sua carreira na milícia durante a guerra Irã-Iraque em 1984, servindo primeiro como comandante de companhia e depois como comandante de batalhão.


Devido ao seu profundo envolvimento na brutal repressão dos protestos nos últimos anos, ele está sujeito a sanções impostas pelos EUA, Reino Unido, Canadá e União Europeia. 
Assim como outras figuras importantes do regime, ele declarou repetidamente que a República Islâmica continuará seus esforços para destruir o Estado de Israel“O inimigo se iludiu pensando que assassinar cientistas e comandantes impediria o progresso da civilização iraniana, mas continuaremos em nosso caminho até a completa libertação da Palestina”, disse Soleimani após a “Operação Leão Ascendente”, a guerra de 12 dias de Israel contra o Irã em junho. Em 2019, o comandante da Basij vangloriou-se de que a milícia já havia se tornado uma “potência militar regional”, operando em quatro países árabes. Na época, ele foi citado dizendo: “A influência da Basij não se limita mais às fronteiras do Irã. Ela pode ser vista na Síria, no Iraque, na costa do Mediterrâneo [Líbano] e no sudeste do Hejaz [Iêmen]”.

Esta foi uma clara indicação de que o Irã havia enviado membros da Basij para auxiliar as organizações terroristas que apoia em todo o Oriente Médio. Em todo lugar ao mesmo tempo De fato, é difícil encontrar uma esfera no Irã em que a Basij não esteja envolvida, desde a prisão de manifestantes até a execução das tarefas mais obscuras. Há poucos dias, por exemplo, membros da milícia prenderam um jovem iraniano chamado Arfan Soltani durante um protesto contra o regime na cidade de Karaj. A acusação contra Soltani, segundo exilados iranianos, era de que ele ousou liderar a manifestação. Ele foi condenado à morte por enforcamento, o que gerou uma campanha nas redes sociais contra sua execução. Na quinta-feira, surgiu a notícia de que os esforços deram resultado, após o Irã anunciar que a sentença havia sido anulada.


Outra prática brutal envolvendo membros da Basij é cegar manifestantes atirando diretamente em seus olhos. A mídia estrangeira expôs repetidamente como centenas de iranianos, entre 400 e 500, segundo alguns relatos, perderam a visão durante as manifestações. 
Mesmo antes dos distúrbios atuais, a história de Nechirvan Maroufi foi publicada em novembro pelo IranWire. Em 2022, Maroufi era um recruta no exército iraniano. Após terminar seu turno, ele foi participar de um protesto, que foi rapidamente reprimido pelas forças do regime, incluindo membros da Basij que chegaram em motocicletas e abriram fogo contra os participantes que fugiam em todas as direções. O protesto eclodiu após o assassinato de Mahsa Amini, uma jovem curda que foi detida pela chamada polícia da moralidade do regime e torturada por supostamente não usar seu hijab corretamente. "É impossível descrever a dor", lembrou Maroufi. "Minha retina foi rasgada. O sangue jorrava." Hoje, após uma série de cirurgias no Irã e no exterior, Maroufi só consegue enxergar com um olho. De acordo com o canal de notícias oficial da Basij, durante a atual onda de protestos, seus membros foram encarregados de prender blogueiros iranianos para impedi-los de noticiar os acontecimentos dentro do país. Além disso, eles monitoraram a atividade online, pelo menos até que o regime ordenasse o bloqueio total da internet. Tudo isso faz parte de uma doutrina estruturada. Já em 2021, Soleimani anunciou um “plano para controlar a internet”. Ele revelou um ambicioso esquema para treinar oito milhões de usuários para “impor controle sobre o espaço digital”. Em outras palavras, para espionar cidadãos iranianos nas redes sociais e disseminar propaganda do regime.

Em continuidade direta a essa abordagem, a milícia está constantemente envolvida na vigilância de bairros, repassando informações sobre opositores do regime e coordenando-se com outros órgãos de segurança e inteligência. É um Grande Irmão composto por inúmeros informantes. A extensão da influência da Basij pode ser vista no caso de Mahta Sadri. Ela era editora-chefe do canal de notícias regional Gilan Sadr, na província de Gilan, no noroeste do Irã. Em setembro, ela foi intimada a comparecer ao tribunal depois que o chefe da célula estudantil local da Basij apresentou uma queixa contra ela. O motivo foi uma acusação de “cobertura crítica” de um oficial da milícia local. Em outros casos, a Basij foi enviada por órgãos de inteligência para realizar missões especiais. No verão passado, em meio à operação “Leão Ascendente”, forças da milícia foram enviadas para confiscar câmeras de segurança privadas em Teerã e Karachi.

Araj.

As origens


O pai da milícia foi o aiatolá Ruhollah Khomeini, o primeiro líder da República Islâmica após a revolução de 1979. Ele fundou a organização naquele ano para “defender a revolução”, em meio a seus temores, não infundados, dos generais militares do Irã. 
De fato, apesar de ondas de expurgos, uma tentativa de golpe militar ocorreu já em 1980. A Basij foi efetivamente criada para bloquear o exército iraniano, ou qualquer outra força que pudesse tentar iniciar uma nova revolução. Mas a milícia rapidamente se tornou a arma do juízo final de Khomeini. Na década de 1980, a Basij foi usada para recrutar crianças, jovens e adultos que foram enviados aos campos de batalha da guerra contra o Iraque de Saddam Hussein, que havia invadido o Irã. Mais do que qualquer outra coisa, a milícia deixou sua marca por meio dos infames ataques em onda humana. Para ajudar a limpar campos minados, membros da Basij eram enviados para uma morte quase certa para permitir que as forças avançassem. Em outros casos, receberam ordens para atacar formações de tropas iraquianas. Desde então até hoje, a Basij mantém unidades militares treinadas dentro da Guarda Revolucionária, fornecendo apoio logístico e de combate. À medida que a influência da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) cresceu, a Basij tornou-se parte de uma vasta rede econômica e política que desfruta de privilégios e posições dentro das instituições estatais. O Departamento do Tesouro dos EUA estimou que essa rede canaliza bilhões de dólares por meio de imóveis, participações no mercado de ações e outros ativos. “De acordo com a doutrina da Basij, se as forças de segurança oficiais e o exército não puderem ou não quiserem defender o regime, então essa força, composta principalmente por civis treinados e armados, realizará a tarefa”, escreveu um influente veículo de mídia árabe. Nos círculos do regime, a Basij é apresentada como a “guardiã da revolução” e a “última linha de defesa”.

Segundo fontes oficiais iranianas, o número de membros da Basij chega aos milhões. Em contraste, a oposição iraniana disse ao Israel Hayom que o número está apenas na casa das centenas de milhares, uma discrepância que provavelmente decorre das diferenças entre os vários tipos de forças que a Basij opera. De qualquer forma, os membros armados da milícia constituem a maior força à disposição do regime iraniano. Eles desempenham um papel ideológico significativo na promoção do discurso revolucionário e na disseminação de mensagens de lealdade ao líder supremo, seja por meio de atividades religiosas ou campanhas de propaganda. O recrutamento da Basij é realizado principalmente por meio de mesquitas. Uma exilada iraniana disse ao Israel Hayom que os membros da Basij também usavam mesquitas como centros militares para se equiparem com armas antes de saírem para reprimir os manifestantes. Como resultado, disse ela, várias mesquitas foram incendiadas em todo o Irã. Este pode ser o símbolo mais claro da reputação da Basij perante o público iraniano. Até mesmo locais de culto associados à milícia se tornaram símbolos de repressão e tirania.

Alto funcionário do Hamas alerta milícias colaboradoras de Israel no Líbano e em Gaza sobre elas serem e merecerem “desgraça e humilhação… e o lixo da história”


 Dr. Basem Naim, membro sênior do gabinete político do Hamas, emitiu um alerta na terça-feira aos palestinos que trabalham com as forças israelenses no Líbano e também aos colaboracionistas de Gaza, escrevendo que aqueles que “atrelaram seu destino à ocupação às custas de seu povo” compartilharão o destino dos colaboradores ao longo da história:

“Humilhação e desgraça neste mundo, e o lixo da história aos olhos das gerações futuras. E no além, um fim maligno e punição.”

Ele acrescentou que o Exército de Lahad “lhes ensinou uma dura lição sobre como o inimigo os usa e depois os abandona à própria sorte. Seu povo é sua única escolha.”

milícia Exército do Sul do Líbano (ESL)

Naim se refere ao Exército do Sul do Líbano (ESL), liderado por Antoine Lahad — uma milícia libanesa apoiada por Israel que colaborou com Israel durante a ocupação do sul do Líbano. Quando Israel se retirou do Líbano em 2000, abandonou o ESL completamente. Milhares de membros do SLA e suas famílias fugiram para Israel em pânico, com suas vidas no Líbano destruídas. Muitos acabaram apátridas e em um limbo.



O alerta surge após as forças de segurança da resistência terem realizado recentemente uma emboscada em Khan Yunis, visando colaboradores dos israelenses, matando e ferindo vários indivíduos armados que operavam em Gaza em nome da ocupação israelense.

O porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, também rebateu um canal de televisão árabe não identificado que descreveu a operação como "confrontos internos palestinos", chamando-a de "uma completa ausência de profissionalismo e uma distorção dos fatos". O canal descreveu o Hamas e as milícias que ele atacou como sendo igualmente "grupos armados no cenário palestino" — uma classificação que Qassem rejeitou categoricamente.

Chade : Ataque do Boko Haram mata 23 soldados na região do Lago Chade

 


Pelo menos 23 soldados chadianos foram mortos e 26 ficaram feridos em um ataque do Boko Haram a um posto militar na região do Lago Chade, no Chade, segundo as Forças Armadas do país.

Em um comunicado divulgado na terça-feira, os militares afirmaram que o grupo armado com base na Nigéria – que há muito representa uma ameaça na região do Lago Chade, localizada na junção de Camarões, Chade, Níger e Nigéria – atacou na noite de segunda-feira a ilha de Barka Tolorom, no Chade.

O exército disse que “um número significativo” dos atacantes foi morto e o grupo foi repelido.


“Mais uma vez, o nebuloso grupo terrorista Boko Haram realizou um ataque covarde na noite passada contra nossa base militar em Barka Tolorom”, disse o presidente do Chade, Mahamat Idriss Déby Itno, em uma publicação no Facebook na terça-feira.

“Continuaremos a luta com renovada determinação até que esta ameaça seja completamente erradicada”, disse ele, oferecendo suas condolências às famílias enlutadas.


Os soldados chadianos têm sofrido ataques cada vez mais frequentes do Boko Haram na região do Lago Chade, com um ataque em outubro de 2024 que matou cerca de 40 soldados das fileiras do exército chadiano. Os últimos meses também testemunharam um aumento nos ataques da facção JAS do grupo, incluindo sequestros e ataques a posições avançadas do exército, especialmente nas ilhas e ao longo da porção do Níger das margens do lago. Em resposta ao ataque de outubro de 2024, Deby lançou uma contraofensiva, que prometeu liderar “pessoalmente” em campo por duas semanas. Após o término dessa ofensiva em fevereiro do ano passado, o exército insistiu que o Boko Haram “não tinha mais santuário em território chadiano”. As ilhas e pântanos do Lago Chade também servem de refúgio para o grupo rival dissidente do Boko Haram, o afiliado do Estado Islâmico na Província da África Ocidental (ISWAP). O Chade, país da África Central sem litoral, enfrenta anos de instabilidade, marcados por rebeliões recorrentes, facções armadas e golpes de Estado. Apesar de sua riqueza petrolífera, a estagnação econômica e o clima rigoroso mantêm o país entre as nações mais pobres da África.

Forças dos EUA realizam ataque contra o Estado Islâmico na Somália


 Em coordenação com o Governo Federal da Somália, o Comando dos EUA para a África (AFRICOM) realizou um ataque aéreo contra o Estado Islâmico na Somália em 4 de maio de 2026.

O ataque aéreo ocorreu nas proximidades das Montanhas Golis, a cerca de 75 km a sudeste de Bossaso.


O AFRICOM, juntamente com o Governo Federal da Somália e as Forças Armadas Somali, continua a tomar medidas para reduzir a capacidade do Estado Islâmico na Somália de ameaçar o território dos EUA, nossas forças e nossos cidadãos no exterior.

Detalhes específicos sobre unidades e recursos não serão divulgados para garantir a segurança das operações em andamento.

Acertos e bobagens a serem tratados nos EUA quanto ao combate ao crime organizado - Successes and Mistakes to be Addressed in the US Regarding the Fight Against Organized Crime


  Há dois pontos principais a serem tratados. A vinda de armamento pesado, principalmente fuzis de assalto e munições dos EUA para o Brasil através de containers marítimos e aéreos geralmente embutidos em cargas diversas. 

O outro ponto é a lavagem de dinheiro de organizações criminosas brasileiras em 'paraísos fiscais' nos EUA e no Caribe.


A maior asneira que pode ser dita é sobre ' a entrada de drogas sintéticas no Brasil vindas dos EUA'. Mais de 90% das drogas sintéticas, tais como ecstasy, MDMA, LSD e assemelhados vêm da Europa e não dos EUA.


A metanfetamina tem 100% de sua entrada no Brasil vinda do México. O resto é pura 'bobajada'.







Outras coisas importantes que o governo brasileiro pode tratar seria o financiamento a fundo perdido de helicópteros para as polícias estaduais e densímetros para a Polícia Rodoviária Federal , além de scanners corporais para a Polícia Federal nos grandes aeroportos.

Pelo lado dos EUA seria muito importante a abertura de escritórios da DEA -  Drug Enforcement Administration (DEA), especialmente em São Paulo, capital , e Rio de Janeiro, Manaus, além de uma capital nordestina como Fortaleza, que também têm sido porta de saída de drogas. A colaboração da DEA foi e tem sido fundamental para auxiliar os sucessivos governos da Colômbia no combate ao narcotráfico transnacional. A DEA não tem ideologia e cumpre geralmente de forma magistral sua missão de combate ao narcotráfico em colaboração com outros governos. 


O que poderia ser feito também é um convite para que delegações da DEA e do FBI viessem ao Brasil para uma temporada de um mês, pelo menos, para se aprofundarem sobre a organização e o funcionamento do PCC e do Comando Vermelho. 

A questão de nossas fronteiras com os países sul-americanos que produzem cocaína, pois maconha nunca é embarcada para os EUA e a Europa, também merecia ser objeto de atenção, pois o contingente e o equipamento da Polícia Rodoviária Federal são extremamente insuficientes. Nas polícias estaduais, o GEFRON (Grupo Especial de Segurança de Fronteira) no Mato Grosso, e o DOF (Departamento de Operações de Fronteira), no Mato Grosso do Sul, caso recebessem apoio financeiro, logístico e de ações da DEA, sua eficiência que já boa dentro de suas limitações poderia ser bastante potencializada.

Caso haja um entendimento dos dois governos sobre estes pontos e a formalização de acordos concretos o resultado pode ser muito bom. Caso contrário, não passa de 'espuma político eleitoral' para os dois governos.

There are two main points to be addressed. The arrival of heavy weaponry, mainly assault rifles and ammunition, from the US to Brazil via maritime and air containers, usually embedded in various cargoes.

The other point is the money laundering of Brazilian criminal organizations in 'tax havens' in the US and the Caribbean.

The biggest nonsense that can be said is about 'the entry of synthetic drugs into Brazil from the US'. More than 90% of synthetic drugs, such as ecstasy, MDMA, LSD and similar substances, come from Europe and not the US, and methamphetamine has 100% of its entry into Brazil coming from Mexico. The rest is pure 'nonsense'.

Other important things that the Brazilian government could address would be the non-reimbursable funding of helicopters for state police forces and densimeters for the Federal Highway Police, in addition to body scanners for the Federal Police at major airports.

From the US perspective, it would be very important to open DEA (Drug Enforcement Administration) offices, especially in São Paulo, the capital, and Rio de Janeiro, Manaus, as well as a northeastern capital like Fortaleza, which have also been an exit point for drugs. The DEA's collaboration has been and continues to be fundamental in assisting successive Colombian governments in combating transnational drug trafficking. The DEA has no ideology and generally fulfills its mission of combating drug trafficking masterfully in collaboration with other governments.

What could also be done is to invite delegations from the DEA and the FBI to come to Brazil for at least a month to learn more about the organization and functioning of the PCC and Comando Vermelho.

The issue of our borders with South American countries that produce cocaine, since marijuana is never shipped to the US and Europe, also deserves attention, as the contingent and equipment of the Federal Highway Police are extremely insufficient. In the state police forces, GEFRON (Special Border Security Group) in Mato Grosso, and DOF (Border Operations Department) in Mato Grosso do Sul, if they received financial, logistical, and operational support from the DEA, their already good efficiency within their limitations could be greatly enhanced.

If there is an understanding between the two governments on these points and the formalization of concrete agreements, the result could be very good. Otherwise, it is nothing more than 'political and electoral froth' for both governments.

China revela novos sistemas de defesa naval enquanto drones mudam a natureza da guerra no mar


 O Exército de Libertação Popular (ELP) tem trabalhado para aprimorar suas defesas após as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio terem destacado a ameaça de drones antinavio.

O Comando do Teatro Sul do Exército de Libertação Popular (ELP STC) afirmou que suas forças realizaram uma patrulha de prontidão para combate na disputada área marítima do Mar da China Meridional na quinta-feira. O comando militar de Pequim para a região declarou que essas patrulhas “servem como uma contramedida eficaz para lidar com todos os tipos de violações de direitos e atos provocativos”. O destacamento envolveu duas fragatas Tipo 054A – a Bayanner (551) e a Tongliao (554), a corveta Tipo 056A Hanzhoug (648) e caças J-16 durante o exercício. Um dos J-16 parecia estar equipado com um único míssil de cruzeiro YJ-91, um derivado chinês do russo KH-31 que possui variantes antinavio e antirradiação.


Embora patrulhas de bombardeiros H-6 sejam uma visão comum sobre o Atol de Scarborough, o aumento da sua carga útil de mísseis supersônicos YJ-12 ocorre em meio ao maior exercício Balikatan EUA-Filipinas até o momento. Com 17.000 participantes, o Balikatan deste ano teve um foco maior em atividades de ataque marítimo contra adversários convencionais e a participação inaugural de forças de combate japonesas completas. Um grande exercício marítimo multinacional também ocorreu ao largo do norte de Luzon, que consistiu em 11 embarcações das Filipinas, EUA, Japão, Austrália e Canadá. A flotilha foi acompanhada por pelo menos quatro navios de guerra chineses durante seus exercícios, incluindo um navio espião da classe Tipo 815.


Nos últimos anos, a série anual de exercícios militares tem se voltado para a defesa dos territórios mais ao norte de Manila, perto de Taiwan – uma mudança que a China observou. Antes do início do Balikatan, um editorial de opinião da mídia estatal chinesa destacou que as Filipinas permitiram que potências estrangeiras, como os EUA e o Japão, estabelecessem “pontos de apoio militar localizados perigosamente perto da ilha de Taiwan e dos recifes e ilhas chinesas no Mar da China Meridional”.

A presença reforçada de Pequim durante o Balikatan deste ano inclui o destacamento de numerosos navios de guerra e embarcações de vigilância. O grupo de ataque de porta-aviões (CSG) Liaoning (16) opera no Mar da China Meridional desde o início dos exercícios liderados pelos EUA e pelas Filipinas. O primeiro porta-aviões da China transitou pelo Estreito de Taiwan antes de suas operações em andamento.

Embora a China mantenha uma grande rede de bases em ilhas artificiais equipadas com portos e aeródromos a uma curta distância das Filipinas metropolitanas, Pequim ocasionalmente realiza exercícios cada vez mais complexos com sua crescente força de porta-aviões no Mar da China Meridional. Em 2024, a Marinha do Exército de Libertação Popular (PLAN) realizou seus primeiros exercícios conjuntos de dois CSGs nessas águas.

O PLA STC também destacou os exercícios de combate de um grupo de ação de superfície posicionado a leste de Luzon, poucos dias após o início da Operação Balikatan. Liderada pelo destróier de mísseis guiados da classe Tipo 055, Zunyi (107), de 10.000 toneladas, a formação realizou exercícios com munição real em um local que representaria uma ameaça para as forças americanas e filipinas que tentassem reforçar Manila em caso de conflito. As baías e portos do leste de Luzon têm recebido maior atenção de Washington e Manila como rotas alternativas para as forças americanas e reabastecimento no país do Sudeste Asiático durante exercícios recentes.

Os pontos tradicionais de desembarque nas baías de Subic e Manila estariam sob ameaça em um potencial conflito envolvendo a aliança EUA-Filipinas e a China, devido ao grande arsenal de mísseis, aeronaves de ataque e navios de guerra do PLA STC. Desde o início da década de 2020, planejadores americanos e filipinos têm examinado o uso de locais mais austeros no leste e sul do arquipélago do Sudeste Asiático.

Paquistão : Separatistas do ' Exército de Libertação do Baluchistão' reivindicam uma série de ataques em todo o Baluchistão, informando baixas e a captura de militares do exército paquistanês

 


O Exército de Libertação do Baluchistão (BLA) reivindicou a responsabilidade por 11 operações realizadas em todo o Baluchistão entre 25 de abril e 3 de maio, afirmando que 11 membros das chamadas “forças de ocupação” foram mortos e três oficiais da Inteligência Militar foram capturados.

Em um comunicado divulgado pelo porta-voz Jeeyand Baloch, o grupo afirmou que seus ataques tiveram como alvo militares do exército paquistanês, veículos que transportavam minerais e “colaboradores locais”.


Quatro das operações teriam envolvido dispositivos explosivos improvisados ​​(IEDs) controlados remotamente, que, segundo o BLA, causaram perdas significativas em pessoal e material.

O grupo também reconheceu suas próprias baixas, afirmando que três de seus combatentes foram mortos em 24 de abril durante confrontos em Taarez, Nushki. Em 25 de abril, em Dasht, Mastung, o BLA alegou ter detido três membros da Inteligência Militar disfarçados de civis, afirmando que dispositivos de rastreamento foram recuperados com eles e que as investigações estavam em andamento.


No dia seguinte, seus combatentes bloquearam a estrada principal Panjgur-Chedgi por várias horas, furando os pneus de 12 caminhões antes de liberar os motoristas com advertências. Um bloqueio semelhante foi repetido em 27 de abril, com os pneus de mais 11 caminhões furados e os motoristas liberados após o que o grupo descreveu como uma “advertência final”.

Em 28 de abril, o BLA disse ter realizado um ataque com granada de mão contra os alojamentos de uma construtora em Dalbandin, ferindo cinco pessoas. Em Parom, Panjgur, seus combatentes teriam atacado militares em Gomaazi quando estes chegavam para escoltar comboios, alegando que dois foram mortos.

No dia seguinte, 29 de abril, o grupo afirmou ter disparado granadas contra o acampamento central do exército na cidade de Kalat, alegando perdas tanto de pessoal quanto de material. Em 1º de maio, combatentes do BLA afirmaram ter apreendido armas e uma motocicleta após assumirem o controle de um terreno arrendado em Chalgazi, Dalbandin.


Em 2 de maio, o grupo disse ter atacado um veículo do exército com um artefato explosivo improvisado (AEI) controlado remotamente em Chedgi, Panjgur, alegando que cinco militares foram mortos e dois ficaram gravemente feridos. Outro ataque com AEI foi relatado em Shadi Kaur, Pasni, onde o BLA alegou que quatro militares foram mortos e quatro ficaram feridos.

Em Loni, Dukki, o grupo afirmou ter atacado uma milícia armada que guardava veículos de transporte de minerais, ferindo dois militares em uma explosão de AEI.

Em 3 de maio, o BLA disse ter realizado outro ataque com AEI em Al-Mark, Kharan, visando um esquadrão antibombas do exército durante operações de limpeza, alegando que três militares ficaram feridos.

O BLA reiterou sua aceitação de responsabilidade por todas essas operações e declarou que tais ataques continuarão “com a mesma intensidade” até o que chama de “libertação da pátria”.

A declaração do grupo ressalta sua campanha contínua contra as forças de segurança e a infraestrutura paquistanesas, ao mesmo tempo que destaca sua disposição de intensificar as operações em vários distritos simultaneamente. As alegações, se verificadas, refletem um aumento significativo na atividade insurgente no Baluchistão, agravando o ambiente de segurança já instável na província.

Brasil : Estupro, roubos e assassinatos - Os crimes da ditadura cívico - militar escondidos pelo Cel. da Reserva Cyro Etchegoyen

 

Cel. da Reserva Cyro Etchegoyen

“Dr. Bruno – baixo, meio gordo, tipo sírio-libanês. Pareceu-me o oficial mais graduado do grupo (coronel). Defendeu tese na Escola Superior de Guerra, segundo me contou. É gaúcho”. Foi assim que a ex-presa política Inês Etienne Romeu descreveu o primeiro dos 20 homens que a violentaram por 91 dias na “Casa da Morte”, o maior cárcere clandestino da ditadura militar, localizado no morro Caxambu, em Petrópolis, região Serrana do Rio. Por mais de quatro décadas, o codinome “Dr Bruno” escondeu o coronel Cyro Guedes Etchegoyen, ex-chefe da seção de Contra-Informações do gabinete do ministro do Exército no governo do ditador-presidente Emilio Garrastazu Médici. A atuação do coronel foi revelada por um antigo subordinado, o tenente-coronel Paulo Malhães, em 2014.  Só que, ao ser descoberto como um dos chefes do centro clandestino criado pelos militares para torturar e desaparecer com opositores, o coronel Cyro já tinha morrido. Ele morreu dois anos antes, em 2012, em decorrência de complicações de um AVC.

O ICL Notícias publica o projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e cerca de 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação foi entregue em fevereiro deste ano pela mesma fonte à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

Entre os documentos, obtidos com exclusividade, o coronel guardava, por exemplo, relatórios de monitoramento do presidente Lula, no fim dos anos 1970. Mas o documento mais perturbador é uma denúncia feita por um soldado do Centro de Informações do Exército (CIE), órgão do gabinete do ministro, informando a existência de um estupro perpetrado, em 1969, por uma equipe de militares que atuava na área de operações e inteligência do CIE contra uma mulher que alugava quartos a integrantes da Ação Libertadora Nacional (ALN). O crime aponta para a existência de uma nova vítima da ditadura, desconhecida quando o relatório da Comissão Nacional da Verdade foi finalizado em 2014. Na ocasião, foram reconhecidas 434 vítimas, das quais 210 desaparecidas.

No arquivo de Cyro Etchegoyen estava ainda uma apostila que detalha um curso de interrogatório feito por ele, em dezembro de 1970, na Inglaterra, a convite do próprio governo inglês. No documento, é possível verificar a indicação para a construção de locais isolados, nos quais os presos são levados vendados e após técnicas de desorientação.

O coronel Cyro tinha relatórios que registravam metodicamente sistemáticos roubos de móveis, objetos e dinheiro feitos por militares nas casas e apartamentos em que prendiam pessoas. Segundo o soldado Israel Sturne, o produto do roubo era levado para os escritórios do CIE, um dentro do Palácio Duque de Caxias e outro que ficava em prédio da Avenida Presidente Vargas. Havia ainda um apartamento que, de acordo com o militar, era utilizado pelos agentes para “encontros ocasionais com pessoas do sexo feminino”.

O coronel tinha em seu poder um extenso relatório informando como foi o trabalho para o planejamento de operações que resultaram em prisões e assassinatos de diversos opositores políticos entre 1969 e 1974, período em que ele esteve no CIE. No documento, os militares nomeiam e dão detalhes inéditos da atuação de dois agentes infiltrados que a ditadura colocou dentro das organizações de luta armada. A documentação ainda aponta que o Exército teve, até 1974, ao menos 30 agentes infiltrados. Desses, pelo menos seis no exterior, entre Argentina, Chile e Uruguai. No documento, a maioria é apresentada por meio de codinomes. Não é possível saber se são militares treinados ou ex-integrantes dos grupos de resistência que trocaram de lado.

O arquivo inédito também possui uma caderneta empoeirada de 83 páginas na qual o coronel expõe os gastos com todo o planejamento de várias operações que resultaram em assassinatos. Um cruzamento de informações feito pelo ICL Notícias entre as datas dos pagamentos descritos pelo militar com os dados produzidos pela Comissão Nacional da Verdade e pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos encontrou pagamentos no total de R$ 1 milhão para cerca de 30 ações militares que resultaram em mortes cometidas por agentes do CIE durante o período mais violento da repressão política da ditadura militar.

O registro dos pagamentos, que inclui a indicação de um centro clandestino de tortura, desconhecido até aqui, também aponta para o controle e a prestação de contas que era feito dentro do gabinete do então ministro do Exército, Orlando Geisel. Os dados reforçam as informações existentes do controle da cúpula da ditadura sobre os crimes do período, conforme também ficou registrado em um memorando da CIA de 11 de abril de 1974. No documento do governo dos EUA, é descrita uma reunião em 30 de março daquele ano na qual os ex-ditadores-presidentes Ernesto Geisel e João Figueiredo discutem com os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino, respectivamente os chefes de saída e chegada do Centro de Inteligência do Exército (CIE), à época, a manutenção da política de assassinatos e desaparecimentos desenvolvida no governo Médici. Na ocasião, eles registravam 104 mortes de opositores.

O próprio coronel Cyro, ainda em 1994, tinha apontado para essa proximidade da cúpula em relação às decisões do gabinete. “Eu cansei de ver assuntos do CIE irem direto para o presidente da República. Não que não tenham ido ao SNI. Mas eram tão importantes que o general Orlando Geisel (ministro da Justiça) os levava direto ao gabinete do presidente, e lá se encontrava também com o chefe do SNI”, afirmou Cyro, em uma entrevista concedida aos pesquisadores Maria Celina D’Araujo e Gláucio Ary Dillon Soares, publicada no livro “Os anos de chumbo: a memória militar da repressão”, que inclui o professor Celso Castro, do CPDOC, da FGV. Cyro Etchegoyen não costumava receber jornalistas ou pesquisadores. Esse é o único registro de declarações públicas dele em vida.

E foi por meio de uma cópia dessa entrevista que o ICL Notícias também averiguou a veracidade desse arquivo. No meio dos documentos, há uma carta manuscrita da professora Maria Celina com a cópia da entrevista entregue por ela em 1993 para o coronel Cyro, pouco antes da publicação do livro. A pesquisadora reconheceu a cópia da carta e lembrou da entrevista. “Todos eram muito educados. Eu acho que é parte até da masculinidade e a parte do machismo, você ser educado com uma dama. Ele não me chamou a atenção, assim em termos de ser uma pessoa que tivesse vaidade de falar sobre seus feitos, do ponto de vista do que foi a repressão. Bem, porque ele negava. Ele negava que tivesse havido uma repressão nos moldes que os presos políticos falavam. Ele negava a tortura, por mais que a gente tentasse saber detalhes. Mas ele vai falar sempre de uma forma muito orgulhosa do trabalho deles. Isso era uma coisa que me impressionava. Era o orgulho que eles tinham de falar da contribuição que eles tinham dado para o golpe de 64, para a ditadura, para ter combatido o comunismo”, conta a pesquisadora. Sobre a apostila do estágio na Inglaterra, Maria Celina pontuou a importância da descoberta. “Quer dizer, obviamente que o governo inglês não faz um convite assim… ó, vem aqui. Ele faz um convite a partir de uma conjuntura. Deve ter havido negociações anteriores”, explica.


Cerca de um mês depois do retorno do coronel Cyro da Inglaterra, ele coordenou a criação da “Casa da Morte” em moldes semelhantes ao que descreveu ter aprendido no curso. “A tortura era uma política de Estado. A gente se diferencia dos países da América Latina, porque de fato a gente vai ter um grupo específico a frente dessas ações”, explica Samantha Quadrat, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense. “Eles se beneficiavam economicamente, seja através das pilhagens (roubos) que eram feitas, mas também porque eles tinham boas gratificações nessa atuação. Eles recebem as melhores promoções. Eles tinham uma série de benesses para estar atuando ali e eram homens formados para aquilo. Havia uma ciência ao redor daquilo”, completa.

Há ainda uma lista com 73 nomes de integrantes do CIE, dos quais a metade recebeu a Medalha do Pacificador com Palma naquele período, revelando uma série de novos potenciais integrantes das ações da repressão da ditadura.

Cyro, o “dr Bruno”

Cyro nasceu em 1929 e é filho de Alcides, o patriarca do Etchegoyen. Nasceu na fronteira entre o Brasil e o Uruguai a ponto de inspirar entre seus conhecidos uma certa lenda sobre se era brasileiro ou uruguaio. Torcia pelo Fluminense, não costumava beber, mas manteve até os últimos dias, em 2012, o hábito de fumar. Guardava consigo quatro armas: uma pistola .38, uma Beretta 22 e duas Magnum, uma .48 e outra .45.

Pertence a uma longa família de militares. O primeiro Etchegoyen militar é o pai: Alcides. Ele  aderiu à chamada Coluna Relâmpago, em 1926, e tentou um levante em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, contra a posse do presidente Washington Luís. Depois, apoiou o movimento que levou Getúlio Vargas ao poder e cresceu na carreira. Em 1942, substituiu Filinto Müller na chefia de Polícia Civil do Distrito Federal — o mesmo Müller que havia prendido e entregado à Gestapo de Hitler a judia alemã Olga Benário, mulher de Luís Carlos Prestes, então grávida, que foi executada na câmara de gás do campo de extermínio de Bernburg. Alcides foi promovido a coronel e passou a perseguir o jogo do bicho e a prostituição, além de dar continuidade à repressão dos opositores políticos do governo.

Nos anos 1950, Alcides se envolveu em novas conspirações. Em agosto de 1954, assinou o manifesto que exigia a renúncia de Getúlio Vargas  e acabou preso em 1955 pelo ministro Henrique Teixeira Lott, quando este resolveu depor o presidente interino Carlos Luz. Naquele mesmo ano, Alcides também se somou aos que tentaram barrar a posse de Juscelino Kubitschek. Um ano depois, morreu de infarto fulminante e não chegou a ver a ascensão militar dos filhos Cyro e Léo. Ambos seguiram a carreira militar e despontaram com a ascensão dos militares após o golpe de 1964.

Em março e abril de 1964, o envolvimento pessoal de Cyro foi decisivo. Ele estudava na Escola do Comando do Estado Maior e lá integrou as articulações do golpe. Quando as tropas do general Olímpio Mourão deixaram Juiz de Fora rumo ao Rio, Cyro ajudou a proteger o governador Carlos Lacerda, simpático à ideia dos militares derrubarem o presidente João Goulart. Nesse alinhamento de forças, encontrou o então tenente Freddie Perdigão Pereira, que guardava a entrada do Parque Guinle, no bairro de Laranjeiras, com cinco tanques M-41 inicialmente disponibilizados para proteger Goulart. Com o desenrolar dos acontecimentos, Perdigão foi convidado a trocar de lado. Hesitante, negociou com seus subordinados e, horas depois, saiu com quatro tanques em direção ao Palácio Guanabara. O major Cyro Guedes Etchegoyen liderou o comboio dirigindo um Volkswagen. Discursos e fotos se seguiram, com o governador Carlos Lacerda bradando sobre o que chamou de “salvação do Brasil e a de si próprio”.


Naquele mesmo ano, em junho de 1964, Leo, então chefe da polícia gaúcha em Porto Alegre, recebeu o policial norte-americano Dan Mitrione, especialista em torturas e responsável no Brasil do Office of Public Safety (OPS), braço da CIA que atuava na América Latina sob a fachada da USAID. Os dois posaram para fotos na escadaria do Palácio da Polícia. A primeira visita de Mitrione a Porto Alegre havia ocorrido entre 21 de janeiro e 1º de fevereiro de 1964, com um curso de 30 horas intitulado “Supervisão e operações de patrulhamento”. Mitrione voltou no mesmo ano, dois meses após o golpe, para um curso de 25 horas sobre “Técnica de patrulhamento”, entre os dias 19 e 26 de junho.

Ao longo dos anos seguintes, Cyro subiu na hierarquia militar. Em 1967, foi adido militar no Paraguai e chegou a conviver com o ditador Alfredo Stroessner, que comandou aquele país entre 1954 e 1989 e deixou mais de 3 mil pessoas assassinadas no período. Na sequência do crescimento, veio o convite ao CIE.

Sete anos após o golpe, era um dos chefes do órgão e foi chamado para dar início ao trabalho de contra-informação.  Sediado no 8º andar do Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio de Janeiro, onde ficava também o Quartel General do I Exército, o CIE centralizou algumas das principais ações para prender e assassinar lideranças dos grupos de oposição à ditadura. Junto com outros oficiais do gabinete do ministro do Exército, Cyro tornou-se expoente do trabalho de segurança, espionagem e repressão. Ele passou à reserva em 1983 e morreu em 2012.

O último dos Etchegoyen a ser conhecido publicamente é o sobrinho de Cyro, general Sergio Etchegoyen, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional no governo de Michel Temer, entre 2016 e 2018.

Nota Instituto Fernando Santa Cruz


Há histórias que o tempo tenta enterrar, guardadas em arquivos “reservados”, escritas com a frieza burocrática de quem transformou o terror em rotina, reduzidas a números em relatórios de “subversivos postos fora de circulação”. Há famílias que resistiram ao silêncio imposto pelo Estado, guardando memórias como brasas acesas. Há o heroísmo dos que disseram não, que escolheram a consciência em vez da ordem e desapareceram sem túmulo, sem despedida, sem fim. Foi Juliana Del Piva e a equipe do ICL quem foram até essas famílias, quem os ouviu, quem reconstituiu os fatos com a coragem de quem sabe que a verdade, quando finalmente encontrada, dói e liberta ao mesmo tempo. Este trabalho não é apenas uma séri de reportagens. É um ato de resistência, de reparação e de memória viva.

​O Instituto Fernando Santa Cruz – IFSC apoia de forma incondicional este trabalho e estende esse apoio a cada família que abriu suas portas e suas feridas para que ele existisse. O IFSC leva o nome de Fernando Santa Cruz, estudante, militante, pai, desaparecido político desde 1974, cujo corpo o Estado jamais devolveu à sua família. Levamos seu nome não como símbolo de dor, mas de luta: pela memória, pela verdade e pela justiça que ainda está por vir. O IFSC teve papel central na reunião, preservação e publicização dos documentos que deram origem a este documentário, arquivos sigilosos do Centro de Informações do Exército que confessam, em papel timbrado, o que o Estado brasileiro fez aos seus próprios filhos. Cada família encontrada confirma que a história não pertence aos que tentaram apagá-la, ela pertence aos que sobreviveram para contá-la. Acreditamos, com toda a força de nossa missão, que um país que não enfrenta o seu passado não apenas o repete, mas o legitima. Nunca mais!

Instituto Fernando Santa Cruz-IFSC

Memória, Verdade e Justiça


A vendedora de joias Marilene dos Santos Mello, à época com 32 anos, nem pôde se despedir dos três filhos. Arrancada de casa à força por agentes do Centro de Informações do Exército (CIE), em 19 de dezembro de 1969, ela foi brutalizada por três dias. Não era militante da luta armada contra o regime e nem sequer se envolvia com política, mas acabou capturada ao lado de três guerrilheiros da Ação Libertadora Nacional (ALN). Foi estuprada pelo menos duas vezes, uma na viatura do Exército, logo após a captura, e outra em um apartamento de Copacabana, usado como aparelho da ALN.

O estupro no imóvel, na Rua República do Peru 143, está descrito em informe sobre “Irregularidades na Seção de Operações”, de 12 de fevereiro de 1970, um dos mais importantes papéis encontrados no acervo pessoal do coronel Cyro Etchegoyen. O documento estava guardado dentro de uma pasta intitulada “Ordem dos gorilas” e com um desenho na capa.

Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP), está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação foi entregue em fevereiro deste ano pela mesma fonte à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias. Em nota, o Instituto Fernando Santa Cruz disse que “teve papel central na reunião, preservação e publicização dos documentos que deram origem a este documentário, arquivos sigilosos do Centro de Informações do Exército que confessam, em papel timbrado, o que o Estado brasileiro fez aos seus próprios filhos”. Além disso, o IFSC vai atuar pelo reconhecimento oficial de Marilene como vítima da ditadura militar brasileira.


No depoimento que prestou a Cyro, o então sargento Israel Sturne, indignado com a atitude dos colegas do CIE, denunciou não apenas a violência praticada contra Marilene, mas o roubo sistemático, por parte de agentes, de bens encontrados com os presos políticos. 

O documento interno descreve que as “irregularidades que estariam ocorrendo na seção de Operações (do CIE), a qual era acusada de praticar violências desnecessárias e excessivas durante os interrogatórios e de apropriação, para uso pessoal de seus integrantes, de objetos pessoais encontrados em aparelhos estourados”. Denominado “Resumo das declarações do sargento Sturne”, de 12 de fevereiro de 1970, o documento diz que, após ser presa na Tijuca, Marilene foi levada para outro local usado como aparelho pela ALN, em Copacabana, e foi estuprada.

Sturne descreveu a violência a Etchegoyen. “Consta que o sargento Iraci forçou a senhora Marilene a dormir com ele na frente dos demais”, relatou. Na sequência, ainda disse ter ficado absolutamente chocado com o episódio. “Sintetizando, disse que funcionalmente o fato que mais o chocou foi a limpeza no apartamento de Domingos e, do ponto de vista humano, chocou-se com a violência sexual sobre a sra Marilene e com as torturas violentas observadas durante os interrogatórios”, completou Sturne. Segundo ele, o sargente Canaã também presenciou o crime. Sturne ainda definiu os colegas como “os piores sem sombra de dúvidas”.


O agressor descrito pelo colega é o sargento Iracy Pedro Interaminense Correa e Canaã é o sargento Jairo de Canãa Cony. Em 2014, em depoimento ao Grupo de Justiça de Transição do  Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, Iracy disse que serviu 15 anos no Exército e admitiu que trabalhou no CIE e que conheceu o coronel Cyro. Na ocasião, tanto Iracy como Canaã tinham sido apontados pelo tenente-coronel Paulo Malhães como os sargentos que atuaram com ele na operação para ocultar os restos mortais do ex-deputado federal Rubens Paiva, desaparecido desde janeiro de 1971.

Ao depor, Iracy negou a participação no crime. Questionado sobre seu trabalho, ele reconheceu que atuava junto com Canaã. “Esse Canaã ele era muito ligado na brigada. Então, era um companheiro meu da brigada. Ele era da minha equipe, mas eu não trabalhava quase com ele”, disse. “Eles iam sair, iam fazer a informação e eu ia cuidar da viatura e cuidar de rádio”, informou. Ambos também foram integrantes das equipes que atuaram nas torturas da “Casa da Morte”, de Petrópolis.


Inês Etienne Romeu, única sobrevivente a passar pelo local, também denunciou que foi estuprada ao longo dos três meses em que foi torturada no aparelho clandestino da ditadura. Ela acusou o soldado Antonio Waneir Pinheiro Lima, o Camarão, de tê-la violentado. Ele responde a um processo na Justiça Federal do Rio de Janeiro que aguarda apenas a sentença desde o ano passado. Camarão mora em Mogi das Cruzes, em São Paulo.
Canaã morreu em 1982 e Iracy em 2024.
Sequestrada por três dias
Marilene morava com os filhos e a avó centenária em um sobrado na Rua Tenente Villas Boas 16, na Tijuca. Ela era enteada do ator Modesto de Souza, um velho militante do PCB, que atuou em filmes como “Terra em transe”. Depois que o padrasto morreu, em agosto de 1967, o sobrado passou a ser usado como “casa de passagem” para os militantes da ALN chegados do treinamento de guerrilha em Cuba. A mãe de Marilene, Laura Santos Mello, organizava a acolhida em comum acordo com Zilda Xavier Pereira, sua amiga e uma das mais importantes dirigentes da organização guerrilheira.
A rua, estreita e sem saída, parecia uma vila de casas e prédios baixos. Um bom esconderijo para quem tramava contra o regime militar. O clima insuspeito do local era reforçado pela vizinhança, formada por famílias tradicionais, moradores pacatos e muitos militares. O tenente médico Amilcar Lobo, que seria denunciado anos depois por atuar nas sessões de tortura no Destacamento de Operações de Informações (DOI) na Rua Barão de Mesquita, era vizinho de porta. Nunca desconfiou da existência do aparelho.

O ex-deputado Carlos Marighella, o fundador da ALN que chegou a ser considerado o inimigo “número um” do regime, frequentava o aparelho da Tijuca para se reunir com os militantes da organização. O líder sindical Virgílio Gomes da Silva, o Jonas, que coordenou o sequestro do embaixador dos Estados Unidos Charles Elbrick, em setembro de 1969, esteve escondido no local. Ambos foram assassinados pelos militares naquele ano.
Hoje morando em Brasília, o ex-integrante da ALN Gilney Viana lembrou que passou alguns meses no local e conviveu com Marilene e os filhos. “Ela era, no máximo, uma simpatizante”, conta Viana, ao dizer que Marilene sabia que os hóspedes eram integrantes da oposição à ditadura.  “Foi o aparelho que eu fiquei mais tempo. De final de maio até o dia 2 de novembro de 1969″, relembra. “O Marighella, veja bem, eles tinham confiança nesse aparelho porque é um aparelho que normalmente era de trânsito”, explica.
Tanto Viana como o agora advogado Aton Fon Filho, outro integrante da ALN, recordam de encontros com Marighella naquele local. Aton agora vive em São Paulo, mas recorda de cada detalhe daquele 19 de dezembro de 1969.
“Tinha regra na organização: se tiver algo estranho, uma pessoa diferente, foge. Eu descumpri a regra. Subi e entrei. Quando eu entro na casa, a Linda Tayah já havia sido presa e estava sendo torturada numa banheira no banheiro lá dessa casa. Eu sou preso também. Subindo a escada. Eu tomo uns pontapés. Rolo escada abaixo”, relembra. Depois, Aton foi levado para a mesma banheira onde estava a colega da ALN. “Eles molhavam a gente e puxaram o fio de lá de cima do chuveiro elétrico para aplicar choques elétricos na gente. Então, as torturas começaram ali mesmo, na casa”, revela. Aton depois foi levado pelo capitão Maurício Lima para São Paulo e ficou preso até novembro de 1979. Ele não chegou a ver o que ocorreu com Marilene naquele dia.
Quem soube o que Marilene sofreu foi o sargento do Exército Israel Sturne. Ele integrava a equipe que, no dia 19 de dezembro de 1969, estourou o aparelho da ANL na casa de Marilene. 

No local, foram presos três nomes importantes da organização na cidade: Aton Fon Filho, guerrilheiro treinado em Cuba, que morava no sobrado, Linda Tayar e Domingos Fernandes, primeiro chefe militar da ALN carioca. Marilene foi levada pelos militares para o endereço onde ficava o “aparelho” de Domingos, em Copacabana. Nas palavras do sargento, do “ponto de vista humano” ele “chocou-se com a violência sexual sobre a sra Marilene”.
Fon Filho era um quadro importante da ALN. Meses antes da prisão, em junho de 1969, ele participou da ação que detonou uma bomba-relógio no elevador da Câmara Americana de Comércio, nos arredores do viaduto do Chá. O objetivo do atentado era protestar contra a missão do então governador de Nova York, Nelson Rockefeller, enviado ao Brasil pelo presidente norte-americano, Richard Nixon.
Na memória de Augusto dos Santos Mello, 61 anos, existe uma lembrança viva daquele dia. Ele é um dos cinco filhos de Marilene e hoje mora no interior do Rio de Janeiro com a mulher. Ele diz que saiu com Marilene para fazer a feira naquele dia e ela reparou em carros cheios de armas no caminho. Por isso, parou e resolveu telefonar para sua mãe em casa. “Aí quando volta, é o terror, né? Eu e meus irmãos fomos levados para uma sala no centro da casa, toda fechada, a portas fechadas, janelas fechadas e ficamos lá. Ficamos lá até eles saírem da casa e nos jogarem no vizinho”.
No entanto, ao longo do tempo em que os militares torturavam Aton, Linda e Domingos, as crianças ouviram tudo. “Eles encheram a banheira. Nós tínhamos uma banheira de encher com água. E torturavam com fios. Estupraram ela e tudo mais e bateram nela. E foi isso lá que aconteceu. A gente escutou”, relembra.  Depois, a mãe ficou desaparecida por cerca de três dias. “Quando nós voltamos para casa, a minha avó que foi tomar conta da gente”, explica. Augusto diz que a mãe retornou diferente. Calada, distante e por um bom tempo continuou assim. “Ela voltou meio afastada da gente”, revela.

Sobre o que aconteceu a ela no período em que desapareceu, Marilene guardou a dor por muito tempo. A única vez em que revelou parte da violência sofrida foi quando a família estava num carro e precisava passar por um túnel. “Ela só relatou depois de muito tempo, porque a gente tinha que ir visitar minha avó e tinha que passar pelo túnel. Ela não queria passar. Ela tinha trauma do túnel porque ela foi retirada de casa e foi estuprada dentro do túnel”, revela.
O militar Israel Sturne já morreu, mas o comerciante Reinaldo Sturne, um de seus filhos, recorda bem de um período em que ele e a família passaram a ser perseguidos pelos colegas do pai. “Lembro dele ter dito que foi fazer uma inspeção nesse chamado aparelho, como diziam na época, e que lá era dividido em paredes falsas e que provavelmente um militar que estava lá na operação haveria dormido com a senhora do apartamento”, conta.
Na memória do comerciante, há uma infância sob tensão e na qual o convívio com o pai foi pequeno por um longo período. “Aí ele fez essas denúncias. Depois disso que começou o vai e vem, que até então a nossa vida era tranquila. Depois disso, começou a perseguição em cima dele”, recorda. “Nós tivemos que sair dessa casa e ir para outra, aí novamente não dava dois ou três meses, tinha que mudar dessa casa aí para outra. Então, morei em Olaria, Ramos e depois fui parar na Ilha do Governador”, completa.
Dois meses depois do depoimento para Etchegoyen, Sturne foi dispensado da função de auxiliar no gabinete do ministro do Exército — enquadramento funcional dado aos agentes do CIE. O ato administrativo indica que ele deixou de integrar a equipe do órgão de repressão.
Segundo Reinaldo, esse foi o começo da retaliação contra o pai, que teve consequências para toda a família.
“Realmente ele se sentiu perseguido porque ele denunciou alguns colegas de farda. O pessoal estava ameaçando ele, praticamente. Tanto é que ele não tinha local fixo. Ele quase que não ficava com a gente. Passei minha infância todinha prejudicado porque não via meu pai. Ele não vinha pra casa para não expor a família dele a risco”, relembra.
Por conta desse afastamento, o sargento também deixou de receber uma gratificação paga aos agentes do CIE, valor que se somava ao soldo dos militares que eram designados para o órgão. A movimentação foi confirmada pela reportagem com base em uma publicação no Diário Oficial da União em 16 de abril de 1970.
Brinquedo de criança, canetas, poltronas, estantes, sapatos, dinheiro, armas e até um carro. Esses são alguns exemplos dos itens que militares do Exército brasileiro roubaram de casas e apartamentos nos quais efetuaram revistas, buscas e prisões de militantes da luta armada. Não importava a quem pertencesse. Agentes inconformados com os desvios dos colegas denunciaram que a pilhagem atingiu pessoas que não integravam grupos de oposição à ditadura. O esquema contava até com o uso de um apartamento na Rua Tenente Possolo, no Centro do Rio, utilizado para “encontros ocasionais com pessoas do sexo feminino”
Um dos militares do CIE, de acordo com a denúncia, chegou a usar os objetos furtados para pagar seus caseiros em um sítio de Teresópolis. Alguns bens, após o assalto, eram levados para a sede do Centro de Informações do Exército (CIE), no Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio, mas também para um outro escritório secreto que o órgão mantinha na Avenida Presidente Vargas, mobiliado com móveis furtados.
A denúncia desses crimes consta do depoimento de Israel Sturne, sargento do CIE, tomado em 17 de fevereiro de 1970 pelo coronel Cyro Etchegoyen no informe “Irregularidades na Seção de Operações”. 

Além dos assaltos, Sturne denunciou um estupro feito por um colega durante uma ação para prender integrantes da ALN em dezembro de 1969. O documento integra o arquivo secreto do oficial que é publicado pelo ICL Notícias no projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio.
O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação foi entregue pela mesma fonte em fevereiro deste ano à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.
Móveis roubados para encontros com amantes
No relato, Sturne diz que os paraquedistas que vieram servir no CIE eram os principais envolvidos nos crimes relatados. Ele estranhou o fato de os colegas serem voluntários para qualquer tipo de missão, especialmente estouro de aparelhos.“Em sua impressão todo o problema começou com a vinda dos referidos paraquedistas para o CIE, pois a partir de certo tempo verificou que quando se estourava um aparelho, este era cercado por eles e ninguém entrava no recinto senão depois de certo tempo”, afirmou o sargento.

Logo adiante, Sturne completou: “Com o correr do tempo soube que os objetos retirados dos aparelhos eram, em sua maioria, levados para a rua Tenente Possolo, local utilizado pelo pessoal da Seção de Operações para encontros ocasionais com pessoas do sexo feminino. Tal apartamento é de propriedade de um amigo do capitão Malhães que lhe cedeu particularmente”. O endereço completo do apartamento para os encontros com amantes não foi informado no documento.
Nas palavras do sargento, do “ponto de vista humano”, ele “chocou-se com a violência sexual sobre a sra Marilene” que alugava quartos para integrantes da Ação Libertadora Nacional e sequer era integrante do grupo. Além de estuprá-la, segundo Sturne, os agentes que atuaram na ação roubaram até um brinquedo de seu filho. “Que dona Marilene pediu-lhe para reaver um objeto (um carrinho de corda) que comprara para dar a seu filho no Natal e que deixara no quarto de Aton. Que informou na S-104 mas tal objeto não reapareceu”, contou.
Quem também lembra do episódio é Augusto dos Santos Mello, filho de Marilene. Ele tinha seis anos, na época, e o dia marcou sua memória para sempre: “Quando eles invadiram minha casa, eles rasgaram o colchão, brinquedo de palha, meu cavalinho todo, os brinquedos. Tudo foi destruído procurando dinheiro. Não ficou nada”.
No depoimento ao CIE, Sturne relatou ainda que, em outra ação, um móvel foi levado para o CIE. “O apartamento era muito bem montado e foi completamente desmontado; sabe que o móvel da sala (tipo estante) foi levado para o escritório do CIE na Avenida Presidente Vargas”, disse. Outro destino dos bens relatados pelo denunciante foi a garagem de um imóvel ocupado por uma mulher e duas crianças ligadas ao ao “tenente-coronel Caldeira” na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá.
Na denúncia, o sargento identificou que esse comportamento não era só dos subordinados, mas também dos oficiais superiores, seus chefes de operações, e citou o caso do então Major Rubens Paim Sampaio. “Quanto ao Major Sampaio (Paraquedista), que soube apenas de uma troca de móveis, isto é, que o referido oficial ao saber que umas poltronas haviam sido enviadas a Jacarepaguá, foi buscá-las e as trocou por outras existentes em sua residência. Nessa ocasião, foi utilizado o caminhão do gabinete para a mudança”, revelou. Sampaio, já morto, também foi denunciado como um dos torturadores de Inês Etienne Romeu, na “Casa da Morte”, de Petrópolis, e é um dos acusados pelo assassinato do deputado federal cassado Rubens Paiva.
Além de Sampaio, algumas das ações que terminaram com assaltos tinham o comando do tenente-coronel Paulo Malhães, morto em 2014.  “Quanto ao capitão Malhães, que sabe ser da teoria de que todas as coisas retiradas devem vir para o CIE, ou para o escritório do Presidente Vargas, ou, finalmente, para a Ten Possolo; que as coisas retiradas devem ser de utilização coletiva pelo pessoal da seção de operações”. Segundo Sturne, para Malhães, o ato de levar objetos das casas não seria ilegal na lei deles. Malhães “considera roubo retirar coisas para uso pessoal”.
“Louco com prazeres sádicos”
Sturne foi mais duro com alguns. “Quanto ao sgt Canaã que lhe parece um louco cheio de prazeres sádicos; que é um irresponsável e que leva tudo o que pode para sua casa”
O sargento Iracy, apontado por Sturne como o estuprador de Marilene, admitiu a retirada de itens, mas negou a violência sexual. “Que apanhou para si alguns lápis, 3 canetas esferográficas, 1 par de sapatos usados, 1 grill”, afirmou. Ele disse ainda que “um monte de dinheiro apreendido pelo cap Mauricio da Operação Bandeirante na Ten Villas Villas Boas; não sabe a quantia nem destino”. O capitão Maurício Lima foi apontado pela ex-presidente Dilma Rousseff como um dos agentes que a torturou na Operação Bandeirante em São Paulo.
Após a denúncia de Sturne, um soldado identificado como “Gordo” prestou depoimento em 16 de fevereiro de 1970 e confirmou os assaltos. “Ouvido pelo chefe da Seção de Contra-Informações, o referido soldado confirmou que fez várias mudanças para o pessoal da Seção de Operações do CIE”, disse.
Sturne já morreu, mas o comerciante Reinaldo Sturne, um de seus filhos, recorda bem de um período em que ele e a família passaram a ser perseguidos pelos colegas do pai. “Lembro dele ter dito que foi fazer uma inspeção nesse chamado aparelho que diziam na época e que lá era divididos em paredes falsas e que provavelmente um militar que estava lá na operação haveria dormido com a senhora do apartamento”, conta.
Na memória do comerciante, há uma infância sob tensão e na qual o convívio com o pai era pequeno por um longo período. “Aí ele fez essas denúncias. Depois disso que começou o vai e vem, que até então a nossa vida era tranquila. Depois disso, começou a perseguição em cima dele”, recorda. “Nós tivemos que sair dessa casa e ir para outra, aí novamente não dava dois ou três meses, tinha que mudar dessa casa  ai para outra. Então, morei em laria, Ramos e depois fui parar na Ilha do Governador”, completa.
Dois meses depois do depoimento para Etchegoyen, Sturne foi dispensado da função de auxiliar no gabinete do ministro do Exército — enquadramento funcional dado aos agentes do CIE. O ato administrativo indica que ele deixou de integrar a equipe do órgão de repressão.
Por conta desse afastamento, o sargento também deixou de receber uma gratificação paga aos agentes do CIE, valor que se somava ao soldo dos militares que eram designados para o órgão. A movimentação foi confirmada pela reportagem com base em uma publicação no Diário Oficial da União em 16 de abril de 1970.
(...continua,,,em breve)