Nigéria: A utilização de 'mulheres-bomba' permite que grupos terroristas explorem normas sociais e evitem a detecção


 A primeira mulher-bomba do Boko Haram matou a si mesma e a um soldado nigeriano em 2014, em um quartel no estado de Gombe. Desde então, o Boko Haram utilizou mais mulheres-bomba do que qualquer outro grupo terrorista na história, conduzindo uma forma de guerra assimétrica que, segundo analistas, causa um profundo impacto psicológico nas comunidades.

Os ataques mataram milhares de civis na Nigéria, bem como centenas das mulheres que os perpetraram.

"Vale ressaltar que muitos desses ataques envolvem coerção, com mulheres e meninas sequestradas sendo forçadas a realizar missões suicidas, muitas vezes sem plena consciência do que estava acontecendo", escreveu o analista Usman Anwar na publicação *The Diplomatic Insight*. "Isso representa uma mudança significativa em relação a casos anteriores, nos quais o compromisso ideológico ou a motivação pessoal desempenhavam um papel central."

O Boko Haram não é o único grupo a utilizar mulheres-bomba. Sua dissidência, o Estado Islâmico na África Ocidental (ISWAP), começou a empregar mulheres-bomba em 2015. Em 2019, o grupo somali al-Shabaab recrutou uma funcionária municipal para matar o prefeito de Mogadíscio em um atentado suicida. Em 2025, uma mulher ligada ao Estado Islâmico na África Central tentou realizar um atentado enquanto viajava em um mototáxi nos arredores de Kampala, em Uganda.


"Ao transformar mulheres e meninas — tradicionalmente vistas como não combatentes — em armas, o Boko Haram rompe com expectativas culturais de maneiras que repercutem nas comunidades afetadas", escreveu Victoria Maldonado para a *Security Studies Review*, da Universidade de Georgetown. "Essa tática mina a percepção de segurança em espaços tradicionalmente femininos, como lares, escolas e mercados, transformando locais de refúgio em cenários de possível violência."

Historicamente, os homens dominaram o planejamento e a execução de ataques terroristas. Ao utilizar mulheres-bomba, grupos terroristas exploram normas sociais que levam as forças de segurança a ver as mulheres com menos suspeita. Esses grupos aproveitam a situação orientando as mulheres a esconder explosivos sob suas vestes ou hijabs.

"Essa tendência não apenas desafia as estruturas de segurança, mas também levanta profundos dilemas éticos sobre agência e coerção no extremismo violento", escreveu Maldonado. "A incorporação de mulheres em atividades terroristas complica a narrativa que distingue vítima e perpetrador."


Embora algumas mulheres cometam atentados suicidas voluntariamente, muitas são forçadas a fazê-lo contra a própria vontade, acrescentou ela. Abusos sexuais e psicológicos são frequentemente utilizados para desestruturar psicologicamente as mulheres e destruir sua reputação social, fazendo com que o suicídio surja como uma forma de escapar da vergonha.

Analistas divergem sobre o significado do recente aumento no número de mulheres que atuam como homens-bomba. Alguns veem isso como um último recurso de grupos terroristas que buscam o "choque" diante de perdas significativas no campo de batalha. Outros interpretam os atentados suicidas como um sinal de força do grupo — como exemplifica a presença crescente do ISWAP na Bacia do Lago Chade.

A ameaça representada por mulheres-bomba coloca as forças de segurança em uma situação insustentável: se permitirem que a mulher passe despercebida, pessoas morrem; se matarem uma suspeita, geram um episódio de propaganda para o grupo que a enviou, segundo analistas.

Mulheres-bomba também podem ser usadas para constranger homens relutantes em realizar tais ações, afirma Anwar.

"Isso se alinha ao conceito de 'propaganda pelo ato', no qual o impacto simbólico de um ataque é tão importante quanto suas consequências físicas", escreveu Anwar.

Especialistas em segurança podem utilizar avanços em vigilância e inteligência artificial para detectar mulheres-bomba precocemente, reduzindo riscos para civis e evitando a vitória de propaganda buscada pelos terroristas, acrescentou Anwar.

"É provável que grupos militantes se adaptem explorando novas vulnerabilidades, especialmente aquelas enraizadas em normas sociais e culturais", escreveu ele. "A evolução contínua desse fenômeno ressalta a natureza adaptativa de atores não estatais em conflitos assimétricos."

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