A repressão implacável do regime iraniano levou muitos jovens iranianos, particularmente aqueles sem vínculos com grupos de oposição, a abandonar as esperanças de uma mudança pacífica e, em vez disso, pegar em armas.
Grupos clandestinos de oposição no Irã, que inicialmente usavam coquetéis Molotov contra instalações de segurança, afirmam que recentemente começaram a usar fuzis de assalto e granadas para alvejar membros da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e da milícia Basij.
Entrevistas realizadas pela MBN com seis ativistas sugerem que pequenos grupos armados podem estar intensificando suas atividades em diversas partes do Irã, incluindo grandes cidades como Teerã, Isfahan e Mashhad. De acordo com seus relatos, os ataques não são dirigidos por um único movimento unificado, mas sim realizados por grupos distintos com diferentes histórias, estruturas organizacionais e objetivos.
Três dos ativistas pertencem a grupos juvenis independentes recém-formados, enquanto dois são afiliados aos braços armados de partidos de oposição curdos. O sexto é membro do braço armado de um partido político ahwazi.
A MBN conversou com os ativistas por meio de intermediários locais após repetidas tentativas de contato. Não foi possível verificar de forma independente todos os relatos ou a dimensão das operações que seus grupos alegavam realizar.
De Coquetéis Molotov a Armas de Fogo
Os ativistas independentes disseram que recorreram à resistência armada em resposta ao que descreveram como assassinatos, prisões e torturas cometidos por membros da Basij e da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) contra manifestantes antigoverno.
De acordo com seus relatos, a campanha começou com ataques com coquetéis Molotov contra bases da Basij, delegacias de polícia, postos de controle e patrulhas em grandes cidades como Teerã, Mashhad e Isfahan.
A escalada se tornou mais acentuada no final de maio, segundo os ativistas, quando alguns grupos passaram de atacar instalações para alvejar indivíduos acusados de envolvimento na prisão, tortura ou assassinato de manifestantes.
A atividade armada não é novidade nas regiões curdas, ahwazi e balúchis do Irã, onde organizações de oposição atuam há décadas em áreas próximas à fronteira e às montanhas. Se confirmado, o surgimento de pequenos grupos armados operando em grandes cidades marcaria um afastamento do padrão tradicional de violência insurgente no Irã, que tem se concentrado principalmente em regiões periféricas.
Não há evidências de uma insurgência coordenada
Amjad Hossein Panahi, um alto funcionário do partido de oposição curdo Komala, disse que a repressão contínua do governo iraniano contra os manifestantes levou alguns iranianos, particularmente os jovens, a abandonar as esperanças de uma mudança política pacífica.
Ele afirmou que as condições na região curda do Irã diferem daquelas nas grandes cidades porque as operações armadas lá são realizadas por organizações políticas de longa data que operam sob suas próprias estruturas de comando e estratégias.
Panahi descreveu os ataques recentes como o início de uma "revolta armada" contra o governo.
Essa caracterização reflete a posição de um partido de oposição que mantém uma organização armada dentro do Irã. No entanto, não há evidências independentes de que os ataques isolados tenham evoluído para uma insurgência coordenada ou em larga escala. Em 28 de junho, a Agência de Notícias Tasnim, afiliada à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), informou que dois guardas foram mortos na cidade de Paveh, na província de Kermanshah, depois que homens armados abriram fogo e fugiram do local.
Um alto funcionário militar de um partido de oposição curdo disse que, devido às restrições de segurança e à dificuldade de manter as comunicações, organizações internas e braços militares às vezes decidem realizar ataques sem consultar líderes superiores baseados fora do Irã.
Ele acrescentou que várias operações em áreas curdas nos últimos dois meses foram lançadas em resposta a ataques de mísseis iranianos contra os quartéis-generais e posições de partidos de oposição curdos.
Os ativistas curdos e ahwazi entrevistados pela MBN disseram que suas operações são realizadas sob planos supervisionados por estruturas internas do partido.
Eles também disseram que seus ataques levaram alguns membros da IRGC a reduzir seus deslocamentos, enquanto outros abandonaram seus postos.
Táticas diferentes em cada região
A análise da MBN sobre ataques relatados pela mídia iraniana ou reivindicados por grupos de oposição indica que as táticas variam de acordo com a região. Nas áreas urbanas, as operações têm se concentrado em postos de controle, patrulhas e instalações de segurança menores ou isoladas, antes que os atacantes se retirem para evitar a captura.
Nas regiões curdas, ahwazi e balúchis, algumas organizações têm usado projéteis de morteiro, dispositivos explosivos improvisados e drones comerciais modificados, além de emboscadas em terrenos desérticos e montanhosos.
Os grupos armados curdos operam principalmente em montanhas e florestas acidentadas que fornecem cobertura antes e depois dos ataques.
Em Ahwaz, no sudoeste do Irã, facções da oposição árabe permanecem ativas, enquanto organizações balúchis operam nas regiões desérticas e montanhosas do sudeste do país.
Grupos de jovens independentes, alguns dos quais se autodenominam "Unidades de Resistência", afirmam estar ativos em cidades como Teerã, Mashhad, Isfahan e Shiraz.
Hamid Motasher, líder do Partido Liberal Ahwazi, disse que a violência reflete uma revolta acumulada há muito tempo entre o que ele descreveu como os "povos não persas" do Irã — grupos que, segundo ele, enfrentam décadas de repressão e tentativas de apagamento de sua identidade.
Essa descrição reflete a posição política de alguns partidos de oposição de base étnica, frequentemente rotulados como grupos separatistas ou terroristas pelas autoridades iranianas.
Partidos curdos e ahwazis afirmam que mais de 40 membros do IRGC, da milícia Basij e dos serviços de inteligência do Irã foram mortos em ataques realizados desde maio, com dezenas de outros feridos.
A MBN não conseguiu verificar esses números de forma independente, e as autoridades iranianas não divulgam um balanço detalhado das baixas sofridas por suas forças de segurança em incidentes desse tipo.
A dimensão do fenômeno e a possibilidade de sua continuidade são questões difíceis de avaliar. Os grupos que falaram com a MBN afirmaram atuar de forma independente, e não há indícios claros de que compartilhem uma liderança comum ou uma estratégia unificada.
Ainda assim, a aparente expansão de atividades armadas para grandes centros urbanos — afastando-se das regiões de fronteira onde a violência insurgente no Irã historicamente se concentrava — pode representar um novo desafio de segurança para as autoridades iranianas.



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