Taiwan está fabricando drones para repelir uma eventual invasão chinesa

 Para repelir qualquer futura invasão chinesa, Taiwan está construindo frotas de drones aéreos e barcos de ataque não tripulados.


O objetivo é utilizá-los para ajudar a localizar e atacar forças chinesas que se aproximem da ilha, contando com soldados taiwaneses treinados para se deslocar rapidamente antes que a China possa atingi-los.

Comandantes dos EUA que desenvolveram essa estratégia a chamam de "paisagem infernal" (*hellscape*): sobrecarregar uma força invasora com ondas de drones, mísseis e artilharia, tornando um ataque anfíbio tão arriscado que os líderes chineses desistam de tentar.

Inspirado por lições da Ucrânia e de outras zonas de conflito recentes, Taiwan está agora acelerando os esforços para colocar essa estratégia em prática.

"Nossos esforços com drones e sistemas antidrones começaram relativamente tarde e, inicialmente, fomos testando abordagens à medida que avançávamos", disse na quarta-feira o Tenente-General Huang Wen-chi, diretor-geral de planejamento estratégico do Ministério da Defesa de Taiwan, a uma comissão de legisladores. Isso começou a mudar nos últimos dois anos, acrescentou ele.

Na quinta-feira, as forças armadas de Taiwan permitiram que repórteres observassem tropas no centro da ilha treinando o uso de drones para reconhecimento, como parte dos exercícios militares anuais Han Kuang, que começaram na quarta-feira e durarão 10 dias.

O Major-General Lu Wen-yuan, que ajudou a planejar os exercícios, disse anteriormente que as tropas também seriam treinadas para neutralizar drones inimigos.

Muitas forças armadas ao redor do mundo estão adotando a revolução dos drones, mas Taiwan enfrenta uma ameaça particularmente urgente: a China, situada a cerca de 177 quilômetros (110 milhas) de distância, reivindica a ilha autogovernada como seu território.

Os líderes chineses afirmam querer incorporar Taiwan pacificamente, mas não descartam o uso da força. Eles sustentam essa ameaça com frotas crescentes de navios de guerra, aviões, mísseis e drones, além de patrulhas mais frequentes da guarda costeira e exercícios de desembarque.


Autoridades taiwanesas observaram os avanços obtidos pela Ucrânia no campo de batalha graças aos drones e tentam emular a abordagem ucraniana de "Davi contra Golias": usar drones relativamente baratos e ágeis para equilibrar as condições de disputa contra um adversário muito maior.

"Os drones estão entrando em um novo capítulo", disse Max Lo, presidente da Associação Nacional da Indústria de Drones de Taiwan. “Taiwan, para sua própria sobrevivência e defesa nacional, precisa urgentemente desses drones. Mas a situação é a mesma em todo o mundo agora — e isso representa uma oportunidade para Taiwan.”

Com o objetivo de transformar a ilha em uma superpotência da indústria de drones, o governo afirma querer que Taiwan produza 100.000 drones por mês até 2030, com cerca de metade destinada à exportação. Também pretende que as forças armadas adquiram mais de 210.000 drones aéreos e marítimos.

Taiwan “percebeu que os drones serão importantes em todos os domínios e em todas as fases” de um possível conflito com a China, afirmou Mick Ryan, major-general australiano da reserva que estudou os casos da Ucrânia e de Taiwan.

O sucesso recente da Ucrânia em ataques com drones de longo alcance sugere que Taiwan também poderia atacar navios que deixam portos chineses caso Pequim lançasse um ataque anfíbio, disse Ryan, atualmente pesquisador sênior do Lowy Institute, em Sydney.

Muitos especialistas acreditam que o exército chinês ainda não tem força suficiente para invadir Taiwan com facilidade, e expurgos recentes no alto comando do Exército de Libertação Popular comprometeram sua prontidão.


No entanto, assim como as forças armadas de Taiwan, a China vem construindo frotas de aeronaves e embarcações não tripuladas e investindo pesadamente em tecnologia para detectar e interferir nos sinais de drones.

“Lembre-se de que os chineses também estão observando tudo o que os ucranianos fazem”, acrescentou Ryan.

Um longo caminho para dominar a tecnologia de drones

Para Taiwan, adquirir os drones pode ser a parte mais simples. Para dominar a guerra com drones, o país também precisa reformular sua organização militar, treinamento e doutrina.

Segundo especialistas, é necessário aprender a operar enxames de drones, avaliar e compartilhar rapidamente as informações de inteligência que eles fornecem e impedir que o inimigo os neutralize. Isso exigirá que as tropas sejam mais móveis e autossuficientes.

“As operações militares de linha de frente do exército precisam passar por uma mudança radical em relação ao passado”, afirmou Shu Hsiao-Huang, pesquisador associado do Instituto de Pesquisa de Defesa e Segurança Nacional em Taipé, órgão apoiado pelo Ministério da Defesa de Taiwan.

“Na guerra entre Rússia e Ucrânia, se você disparar um tiro, não terá chance de disparar um segundo caso permaneça parado na mesma posição sem se deslocar”, disse ele. Ao contrário da Ucrânia, no entanto, Taiwan não enfrenta a pressão de uma invasão real para mobilizar recursos e forçar mudanças. "É muito difícil, porque eles não vivenciaram a prova de fogo da guerra", disse Shu.


Mas unidades militares têm trabalhado para aprender táticas com drones, que são um dos focos dos exercícios contínuos Han Kuang.

O exército taiwanês também divulgou imagens de um exercício realizado no mês passado, no qual uma unidade foi mobilizada às pressas para defender ilhas na costa leste de Taiwan, utilizando drones para localizar forças inimigas.

No sábado, o presidente de Taiwan, Lai Ching-te, acompanhou um exercício no sul da ilha, onde tropas testaram dois tipos de protótipos de drones projetado para atacar forças invasoras.

Taiwan também criou recentemente um Comando de Combate Litoral, integrando drones, mísseis móveis e artilharia em um escudo costeiro contra uma possível invasão chinesa.

Ainda assim, Taiwan está longe de atender às demandas complexas da guerra do século XXI, segundo muitos especialistas.

O país corre o risco de ficar "focado mais na tecnologia do que nas mudanças organizacionais e doutrinárias — igualmente essenciais — necessárias para implementar um conceito de 'cenário infernal' [de combate]", disse Stacie Pettyjohn, pesquisadora sênior do Center for a New American Security e autora de um estudo recente sobre a estratégia de guerra com drones de Taiwan.

Construindo uma Indústria de Drones Indispensável

Em caso de invasão, é provável que a China tente isolar Taiwan de apoio externo. Para sobreviver a um bloqueio, Taiwan precisa formar estoques e expandir a produção nacional de drones, especialmente "drones de ataque unidirecional mais baratos e de curto alcance", afirmou Pettyjohn.

Ambos os lados do cenário político polarizado de Taiwan concordam com a produção de mais drones, mesmo que divirjam quanto aos detalhes.

O governo de Taiwan propôs gastar US$ 6,5 bilhões ao longo de cinco anos na compra de drones. No entanto, dois partidos de oposição que detêm a maioria no Legislativo rejeitaram o plano, argumentando que ele poderia atrair corrupção e gerar desperdício. O principal partido de oposição, o Partido Nacionalista, propôs um gasto de US$ 7,4 bilhões em seis anos, com exigências de níveis crescentes de produção nacional.

Enquanto os legisladores debatem os gastos, fabricantes de drones de Taiwan e dos EUA disputam possíveis encomendas.

A Thunder Tiger, fabricante taiwanesa, e a Shield AI, empresa americana de tecnologia de defesa, realizaram no mês passado testes com dois modelos de drones marítimos capazes de localizar embarcações inimigas e destruí-las. Contudo, Chen Kwan-ju, presidente da Thunder Tiger, afirmou que a empresa busca maior segurança política antes de expandir parcerias de produção.

Paralelamente, Taiwan está aumentando rapidamente suas exportações de drones, buscando se tornar um fornecedor indispensável de componentes para outras nações democráticas que desejam reduzir a dependência de peças chinesas — as quais levantam preocupações sobre interrupções no fornecimento ou espionagem.

Nos primeiros três meses de 2026, Taiwan exportou drones no valor de US$ 115 milhões, superando o total de exportações do setor em todo o ano de 2025, segundo o Ministério de Assuntos Econômicos da ilha. A República Tcheca é o principal destino, embora muitos dos drones acabem chegando à vizinha Ucrânia, segundo apontam pesquisas.

As exportações de componentes de drones por parte de Taiwan são, provavelmente, ainda maiores. A demanda por essas peças — como motores e equipamentos ópticos — tende a crescer, segundo representantes de empresas americanas do setor de drones.

"Taiwan está no centro de uma das mais importantes disputas industriais e estratégicas do nosso tempo", escreveu Michael Robbins, presidente da Association for Uncrewed Vehicle Systems International, em um e-mail. "É um dos poucos lugares em condições de produzir componentes de drones confiáveis ​​em larga escala."

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