Grupos armados na Colômbia estão ensinando crianças recrutadas a pilotar drones carregados de explosivos

 


Grupos armados na Colômbia estão ensinando crianças recrutadas a pilotar drones carregados de explosivos e descrevendo essa tarefa letal como uma brincadeira, afirmou a Human Rights Watch (HRW) em um relatório divulgado em 24 de agosto, após verificar vídeos e entrevistar ex-recrutas.

O relatório de 102 páginas documenta como facções dissidentes de guerrilha e organizações criminosas incorporaram crianças às suas operações com drones, à medida que essas armas se proliferam pelas zonas de conflito do país. Especialistas em proteção infantil relataram à HRW que crianças libertadas, que haviam operado os drones, disseram que os comandantes apresentavam a atividade como uma brincadeira, e não como combate.


Em um vídeo analisado pela HRW — que ganhou repercussão nacional após ser publicado por um veículo de imprensa em maio —, uma pessoa que aparenta ser uma criança prepara um drone e acopla nele o que parece ser um artefato explosivo improvisado.

Essa abordagem lúdica reduz a resistência da criança a uma tarefa que acarreta as mesmas consequências em campo de batalha que qualquer outro ataque. Drones equipados com granadas ou cargas explosivas caseiras tornaram-se uma arma característica de grupos que disputam territórios rurais, rotas do tráfico de drogas e áreas de mineração ilegal. Os dispositivos são baratos, vendidos livremente na internet e modificados para transportar cargas de estilhaços compostas por pregos e fragmentos de metal.

O Gabinete do Defensor do Povo da Colômbia registrou 121 ataques com drones nos primeiros cinco meses de 2026, resultando em 21 mortes e 145 feridos. O número indica um aumento acentuado. O Ministério da Defesa havia registrado 119 ataques envolvendo drones durante todo o ano de 2024, e cerca de 180 haviam sido documentados até agosto de 2025.


Pelo menos 1.500 crianças foram recrutadas desde 2021, sendo 625 casos apenas em 2024, segundo dados do Gabinete do Defensor do Povo analisados ​​pela HRW. Mais de 30% das crianças tinham entre 10 e 14 anos — uma faixa etária cujo recrutamento pode constituir crime de guerra segundo o direito internacional. Comunidades indígenas representaram quase metade dos casos relatados, embora correspondam a cerca de 4% da população.

Facções dissidentes que se separaram das desmobilizadas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) são responsáveis ​​pela maioria dos casos, afirmou a HRW. Um grupo remanescente, liderado por um comandante conhecido como Iván Mordisco, está recrutando intensamente em Cauca, um departamento no sudoeste do país onde se concentra mais da metade dos casos. Recrutadores recebem até US$ 1.000 por criança, e grupos armados encontram alvos cada vez mais nas redes sociais, utilizando postagens no Facebook e no TikTok que glorificam a vida no grupo e encaminhando ofertas de trabalho por meio de mensagens privadas.


A HRW afirmou que, em alguns casos, os algoritmos das plataformas pareciam promover o conteúdo de recrutamento. A Meta e a ByteDance (proprietária do TikTok) informaram à HRW que suas políticas proíbem material de apoio a organizações violentas e declararam ter removido as contas apontadas pela organização.

Essas constatações surgem em um momento em que a resposta do sistema de justiça da Colômbia está à beira do colapso. A HRW apurou que apenas cerca de 1% das denúncias criminais sobre o recrutamento de crianças na última década resultaram em investigação, e apenas 0,2% levaram a uma condenação.

A situação também representa um desafio para o novo governo. O presidente Abelardo de la Espriella, empossado em 7 de agosto com a promessa de enfrentar grupos armados com maior firmeza, herda uma crise de recrutamento que a estratégia de paz negociada de seu antecessor não conseguiu conter.

A HRW instou o governo a fortalecer os órgãos de proteção à criança em nível municipal e a colaborar com organizações indígenas que têm atuado para proteger crianças em áreas onde o Estado não chega.

"Acabar com o recrutamento de crianças exigirá muito mais do que apenas soldados em campo", disse Goebertus. "Crianças em risco de recrutamento precisam urgentemente de oportunidades para estudar e garantir seu sustento."

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