O Al-Shabaab não realiza um grande ataque em Mogadíscio desde meados de dezembro de 2025 — uma rara trégua na violência perpetrada na capital da Somália pelo grupo afiliado à Al-Qaeda na região. No entanto, essa calmaria não chegou à esfera política. O mandato do presidente expirou em 15 de maio e, desde então, ele governa sob uma prorrogação de um ano que a oposição não reconhece. Menos de três semanas após o fim do mandato, nos dias 3 e 4 de junho, forças governamentais e aliadas à oposição entraram em confronto nas ruas da capital.
Paralelamente, a Missão de Apoio e Estabilização da União Africana na Somália (AUSSOM) enfrenta uma situação de risco sem precedentes. Em uma nota diplomática de 1º de julho, os Estados Unidos notificaram a União Africana de que bloqueariam a renovação do Escritório de Apoio das Nações Unidas na Somália, órgão que fornece suporte logístico e operacional fundamental para a AUSSOM. A nota dos EUA citou a incapacidade da Somália de manter os avanços na segurança, bem como as "rivalidades internas e disputas políticas" que continuam a minar o combate ao Al-Shabaab. Essa medida ocorre após os Estados Unidos terem bloqueado, no final do ano passado, uma resolução da ONU para financiar a AUSSOM por meio de contribuições da organização. Contudo, a posição de Washington também é contraditória: ao mesmo tempo que compromete a AUSSOM, o país conduz a campanha aérea mais intensa da história da Somália, atacando o Al-Shabaab em um ritmo capaz de superar o recorde do ano anterior.
Em uma viagem recente a Mogadíscio, ouvi duas versões muito distintas sobre a situação local, à medida que se aproxima a retirada da AUSSOM. Uma delas é narrada com confiança por pessoas que acreditam estar vencendo — de forma decisiva e definitiva. A outra vem de pessoas convencidas de que tal confiança é prematura ou, pior, perigosa. Ambas as versões baseiam-se em observações reais, mas os dois lados interpretam esses mesmos fatos como indícios de tendências muito diferentes. Nos próximos meses, à medida que a estrutura de sustentação que manteve o Estado somali de pé por duas décadas for removida, ficará claro qual dessas versões retrata com precisão a realidade.
A Primeira Mogadíscio
O primeiro relato vem de autoridades do governo somali, especialmente da área de segurança. É a história de uma capital que deu a volta por cima. As ruas estão mais seguras do que em uma geração, as pessoas desfrutam de uma vida social vibrante, novas torres estão sendo erguidas no centro e a insurgência — expulsa da capital — aproxima-se de uma derrota definitiva.
Eles descrevem, com evidente orgulho, um aparato de segurança criado especificamente para frustrar a arma preferida do al-Shabaab: veículos-bomba acompanhados por atiradores armados. Câmeras agora cobrem grande parte da cidade, especialmente vias e estabelecimentos comerciais. Nos postos de controle, agentes verificam os veículos cruzando dados com um sistema eletrônico. Os veículos devem estar registrados em nome de um titular de documento de identidade nacional; o desaparecimento de um veículo precisa ser comunicado em até 48 horas, caso contrário, presume-se que o proprietário seja cúmplice de qualquer incidente subsequente. Veículos considerados suspeitos são incluídos em uma lista negra que obriga os agentes dos postos de controle a realizar revistas. Se não o fizerem, a omissão é detectada e eles são interrogados, o que dificulta a capacidade do al-Shabaab de cooptar agentes nesses postos. Fora da cidade, os postos de controle recorrem cada vez mais a cães farejadores de explosivos. Autoridades relatam outros aprimoramentos já em andamento, partindo do princípio de que o al-Shabaab se adaptará e o sistema precisará se adaptar ainda mais rapidamente.
Afirmam também que as redes de "cobrança de impostos" do al-Shabaab dentro da cidade — uma fonte crucial de financiamento para o grupo — foram desmanteladas, e que os ataques aéreos dos EUA ajudam a manter o grupo acuado e incapaz de planejar ações.
Argumentam que o clima em Mogadíscio mudou para melhor. Apontam para as obras na cidade — especialmente edifícios residenciais —, investimentos que, segundo eles, não ocorreriam se não houvesse confiança na manutenção da segurança e que, futuramente, deverão ajudar a reduzir os aluguéis proibitivamente caros da capital. Destacam também uma vida social visivelmente mais livre: cafés mais movimentados, praias mais cheias e jovens somalis que compartilham seus passeios no TikTok sem receio — um pequeno sinal de como o medo deixou de ser um fator constante no cotidiano dos moradores. As autoridades demonstram a mesma confiança em relação ao cenário externo. Algumas — talvez a maioria — acreditam que as forças somalis estão prontas para operar sem a AUSSOM, especialmente devido ao apoio contínuo da Turquia. Tudo isso deu novo ânimo ao presidente. O presidente Hassan Sheikh Mohamud anunciou uma “ofensiva final” contra o al-Shabaab para os próximos meses. Essa mesma postura se reflete na política: nada de concessões, seja o adversário um grupo insurgente ou um rival político. Seu plano de “um cidadão, um voto” — peça central de seus esforços para afastar a Somália das eleições indiretas baseadas em clãs, nas quais os anciãos dos clãs escolhem os representantes — permanece inalterado e em andamento, segundo essa perspectiva. A prorrogação de seu mandato é, na prática, uma questão definida. Nessa visão, qualquer tentativa de perturbar a ascensão de Mogadíscio por meio da violência — seja provocada pelo al-Shabaab ou pela oposição — sairia pela culatra, pois os moradores comuns da cidade estão desfrutando demais da tranquilidade para tolerar que ela seja colocada em risco.
A Segunda Mogadíscio
A segunda perspectiva vem de autoridades alinhadas à oposição, figuras da sociedade civil, analistas e parte da comunidade internacional. Ela não contesta tanto os avanços na segurança em Mogadíscio, mas sim o significado deles.
Os defensores dessa visão reconhecem que as medidas do governo trouxeram progressos reais a Mogadíscio e forçaram o al-Shabaab a mudar suas táticas. No entanto, insistem que o grupo está simplesmente jogando um jogo de longo prazo e com mais paciência, como já fez anteriormente. Em vez de interpretar a redução no ritmo dos ataques como sinal de um grupo à beira da derrota, essa perspectiva a vê como uma demonstração de disciplina. O al-Shabaab absorve as perdas causadas pelos ataques aéreos dos EUA porque sabe que não há nada de concreto para dar continuidade aos ganhos obtidos com essas ações. Um número menor de ataques de grande porte e alto impacto contra alvos governamentais — como ocorreu em 2025 — também atende melhor aos seus objetivos atuais do que a violência indiscriminada contra civis na capital, que afastou a população no passado. Paralelamente, o grupo continua a cobrar discretamente alguns impostos em Mogadíscio e a monitorar quem deixa de pagar, visando um acerto de contas futuro. Eles criticam a proibição governamental de divulgar notícias sobre questões que possam representar ameaça à segurança; tal medida resultou em uma restrição na cobertura sobre o al-Shabaab que, de outra forma, permitiria ao público manter-se informado. No âmbito militar, essa perspectiva mostra-se muito mais cética em relação à "ofensiva final" de Hassan Sheikh para estender a segurança para além de Mogadíscio. Autoridades desse grupo afirmam que não há um plano operacional real por trás do anúncio e, certamente, nenhuma estratégia para o que ocorrerá após a retomada do território — a mesma lacuna que comprometeu ofensivas anteriores contra o grupo.
Essa visão também se dispõe a examinar quem está pagando o preço pela transformação de Mogadíscio. As demolições realizadas pelo governo para abrir espaço a novas construções desalojaram moradores mais pobres, que jamais terão condições de pagar pelos novos apartamentos em construção e que perderam o pouco que possuíam. A revolta com as demolições é real e — segundo essa narrativa — crescente; trata-se de uma evidência de que a nova Mogadíscio é, cada vez mais, uma cidade de abismos sociais, próspera para as elites enquanto a situação piora para os pobres. Politicamente, essa perspectiva não poupa críticas. Essa perspectiva descreve a iniciativa de adotar o princípio de "uma pessoa, um voto" não como um avanço democrático, mas como uma tentativa inviável de concentração de poder por parte de um presidente que se tornou cada vez mais autoritário — havendo quem chegue a compará-lo a Siad Barre. Barre governou a Somália como ditador militar de 1969 até sua deposição em 1991, evento que desencadeou o colapso do Estado e mergulhou o país em uma guerra civil. Ao contrário de seu primeiro mandato, quando mantinha amplas consultas com a sociedade civil, líderes de clãs e até mesmo a oposição, ele agora é descrito como alguém que governa cercado por um círculo restrito de assessores e de difícil acesso. Segundo essa análise, sua posição é sustentada por uma série de acordos opacos com a Turquia, cujos custos finais e benefícios reais para a Somália permanecem incertos. Por fim, essa narrativa ressalta que Mogadíscio não representa toda a Somália. Fora da capital, o país caminha para a fragmentação em vez da consolidação. Os estados federados de Puntland e Jubaland efetivamente se afastaram do governo federal e agora operam de forma independente. O Estado do Sudoeste tentou fazer o mesmo em março, desencadeando meses de confrontos entre forças apoiadas pelo governo federal e leais ao presidente deposto, culminando em uma posse contestada em julho. A Somalilândia obteve reconhecimento de Israel, o primeiro país a legitimar sua independência. O Al-Shabaab ainda controla vastas áreas rurais. E a força da União Africana — cuja necessidade o governo nega — continua, segundo essa análise, desempenhando um papel indispensável; isso vale especialmente para as tropas de Uganda, cujas operações contra o Al-Shabaab e cuja atuação na segurança do aeroporto de Mogadíscio não serão facilmente substituídas pelas forças somalis.
Por que essa divergência importa agora
Nenhuma dessas duas versões de Mogadíscio é inventada. A narrativa do governo não é mera propaganda. É verdade que os postos de controle funcionam com mais eficácia, as obras são visíveis e o ritmo dos ataques do al-Shabaab na capital diminuiu. A versão da oposição também não é apenas fruto de ressentimento. As demolições ocorreram, as tensões entre o centro e a periferia estão gerando violência, e a tendência autoritária é sentida por pessoas que lidaram com um Hassan Sheikh mais aberto ao diálogo em seu primeiro mandato. O que divide essas duas visões de Mogadíscio é a forma como cada lado interpreta o mesmo conjunto de fatos: um grupo os vê como sinal de uma reviravolta duradoura na cidade, enquanto o outro enxerga um barril de pólvora temporário e voltado para as elites, que poderia ser detonado por diversas faíscas. Essa divergência de interpretação não é necessariamente nova, mas está prestes a ganhar uma importância inédita, pois o apoio externo que permitiu à Somália seguir em frente, ainda que com dificuldades, está sendo retirado justamente agora. A decisão de Washington de bloquear a renovação do apoio logístico da ONU à AUSSOM retira a base financeira das forças da União Africana em um momento em que a missão, como um todo, carece de recursos. Esse cenário é agravado por uma comunidade internacional que já não consegue atuar como mediadora, destacando-se a ausência de liderança dos EUA. Os Estados Unidos não têm embaixador em Mogadíscio, e o cargo de representante especial da ONU — anteriormente ocupado por um embaixador americano — permanece vago.
A forma como a Somália reagirá a essa mudança determinará se os acontecimentos recentes representam o início de avanços significativos na segurança ou algo que apenas aparenta ser assim para quem está dentro do cinturão de postos de controle que cerca Mogadíscio.
O verdadeiro teste da Somália
O al-Shabaab sobreviveu a todas as campanhas contra si não por ser invencível, mas porque jamais teve de enfrentar um oponente unido ao longo do tempo. Houve momentos de unidade e foco, mas eles não perduraram, permitindo que o grupo se recuperasse repetidamente de reveses. Sempre que as disputas políticas internas da Somália absorveram a atenção e os recursos do governo — seja em questões de mandatos presidenciais, relações entre estados-membros da federação ou representação de clãs —, o al-Shabaab encontrou espaço para se reorganizar.
Esse padrão não mudou. Ele foi simplesmente ofuscado por uma narrativa que, com demasiada frequência, trata a insurgência primordialmente — se não exclusivamente — como um problema de segurança. A comunidade internacional reforçou essa perspectiva. A postura de Washington, na verdade, reproduz esse padrão: mantém simultaneamente vago o cargo de embaixador enquanto intensifica sua campanha aérea unilateral a níveis recordes, apostando todas as fichas em uma tática de segurança e negligenciando uma estratégia política. Postos de controle, câmeras, ataques aéreos e o financiamento da AUSSOM são investimentos no setor de segurança que, por vezes, geraram ganhos mensuráveis. No entanto, tais medidas nunca foram suficientes por si sós — e não o serão agora —, pois o que sustenta o al-Shabaab não é, primordialmente, uma lacuna na segurança, mas sim uma disfunção política. Anos de apoio externo tornaram partes do setor de segurança da Somália mais capazes, sem, contudo, conferir maior estabilidade ao arranjo político do país; é justamente nessa lacuna que o al-Shabaab encontra espaço para atuar.
O desafio que se avizinha neste outono e inverno vai além do que as tendências no país indicam. O verdadeiro teste também não é saber se o governo consegue vencer uma hipotética "ofensiva final". Trata-se de saber se os rivais políticos de Mogadíscio e os estados-membros da federação conseguem encontrar um caminho para a reconciliação política, a fim de negar ao al-Shabaab o espaço que as disputas internas lhes proporcionaram. Desta vez, eles também terão de fazê-lo com muito menos envolvimento e apoio internacional.
Tricia Bacon is a professor at American University’s School of Public Affairs and School of International Service, and is also a nonresident senior associate with the Transnational Threats Project at the Center for Strategic and International Studies. She was formerly a foreign affairs officer at the U.S. State Department. She is the co-author of “Terror in Transition: Leadership and Succession Terrorist Organizations” (Columbia University Press, 2022) and author of “The Counterinsurgency Dilemma: Foreign Fighter Influence on Insurgencies in Afghanistan and Somalia” (Stanford University Press, 2026).



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