O Reino de Fano: Por dentro da insurreição no norte da Etiópia

 


Um olhar sobre os bastidores da rebelião liderada por nacionalistas amharas — integrantes do segundo maior grupo étnico da Etiópia — que tomaram vastas áreas da região norte que leva o nome de seu povo.

As terras altas do noroeste da Etiópia estão sendo devastadas por uma das guerras mais invisíveis do mundo. Desde 2023, uma insurgência liderada por nacionalistas amharas — do segundo maior grupo étnico do país — tomou grandes extensões da região que leva o nome de seu povo.

Conhecidas coletivamente como Fano, essas milícias armadas locais afirmam estar defendendo sua comunidade contra a violência perpetrada pelo governo federal e por grupos étnicos vizinhos.

A região de Amhara é uma fortaleza natural, com picos que ultrapassam 4.000 metros de altitude. É também o berço histórico dos primeiros reinos da Etiópia. Por muito tempo o centro político e religioso do país, a região permitiu aos amharas ocupar uma posição central na vida nacional até o final do século XX.


Anos de reformas políticas empurraram gradualmente a comunidade para as margens. Em seguida, o colapso da segurança e o aumento da violência interétnica agravaram as tensões, dando origem a milícias locais como a Fano.

Quando a guerra eclodiu em Tigray, em 2020, o grupo Fano lutou ao lado do governo federal. Para eles, era uma forma de restaurar a influência amhara na política nacional e tomar territórios de Tigray que eram objeto de disputas de longa data. Parte da região foi devastada, e a população amhara ficou exausta.

No entanto, o acordo de paz de Pretória, de 2022 — que encerrou o conflito mortal no qual se estima que cerca de 600 mil pessoas tenham morrido —, deixou-os de fora. Um profundo sentimento de traição se espalhou, alimentado pela retórica dos nacionalistas amharas.

Um evento incendiou a região: a tentativa do governo, em 2023, de desmantelar as forças especiais regionais, o braço local do exército. Em Amhara, essas forças eram vistas como a última linha de defesa da comunidade diante de massacres interétnicos.

O próprio grupo Fano foi acusado de limpeza étnica em Tigray. Em pouco tempo, milhares de combatentes amharas das forças especiais passaram à clandestinidade e se juntaram ao Fano. A revolta se espalhou pela região. Ataques tiveram como alvo várias cidades, incluindo Gondar — a antiga capital imperial — e Lalibela.

Para sufocar a insurgência e minar o apoio popular a ela, forças federais enviadas por Adis Abeba intensificaram os bombardeios contra civis amharas, bem como as prisões arbitrárias e a violência sexual.

Tais abusos estão levando uma geração de jovens — sem perspectivas em uma região economicamente devastada — a aderir ao Fano. O resultado é uma insurgência que continua a se expandir.


A situação em Amhara é caótica. Cerca de 2,3 milhões de pessoas necessitam de ajuda humanitária imediata. O Fano passou a controlar vastas áreas rurais, isoladas do mundo por um governo que está constantemente envolvido nos combates, ao mesmo tempo em que barra jornalistas e obstrui a chegada de ajuda humanitária.

Desde 2023, o Fano tem atacado forças federais em quase toda a região de Amhara, por meio de confrontos esporádicos e ofensivas coordenadas. Paralelamente, o movimento de guerrilha busca se organizar.

Em janeiro, foi formada a Força Nacional Fano de Amhara, com o objetivo de unir as diversas facções e criar uma frente comum contra um governo que tenta dividi-las.

Os combates ocorrem diariamente ao longo de linhas de frente instáveis, marcados por emboscadas e incursões em centros urbanos.

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