A pirataria era desenfreada na costa da Somália na década de 2000, atingindo o pico em 2011 com centenas de ataques, mas foi significativamente reduzida por implantações navais internacionais e novas táticas da navegação comercial.
No entanto, na última semana, o petroleiro HONOUR 25 e o navio cimenteiro SWARD foram sequestrados nos primeiros grandes incidentes em meses.
O sequestro do SWARD foi obra de um grupo que opera a partir da cidade portuária de Garacad, no estado de Puntland, no nordeste da Somália, disse à AFP um oficial de segurança de Puntland. Essa região fica mais ao sul do que o habitual foco de pirataria, concentrado em um conjunto de três cidades costeiras — Hafun, Bander Beyla e Eyl —, de onde o petroleiro HONOUR 25 foi sequestrado. O novo grupo é formado principalmente por "jovens rurais" de uma área "inundada de armas", motivados pela pobreza e pela raiva em relação à pesca ilegal por navios da China, Iêmen, Irã e outros países. "Quase todos nesta região são pobres e quase todos estão armados. A pesca ilegal, especialmente a dos arrastões, está piorando a situação", disse o oficial à AFP. "Se não forem combatidos, eles se transformarão em entidades como aquelas que estão em guerra com o governo", disse ele, referindo-se a grupos islamistas como o Al-Shabaab e o Estado Islâmico, que lutam contra o governo federal da Somália há anos.
Dinâmica de clãs
Como sempre na Somália, a situação é complicada pela dinâmica de clãs, que é fundamental para a política e a sociedade do país. Um segundo oficial de segurança de Puntland disse à AFP que o grupo que apreendeu o SWARD era composto inteiramente por membros do mesmo clã e subclã. Isso complica as contramedidas do Estado, que poderiam ser vistas como um ataque ao clã como um todo. "Esses homens no navio pertencem a subclãs específicos, que diferem do subclã do presidente (de Puntlândia). "Portanto, se atacarmos e alguns deles forem feridos, isso poderá levar a assassinatos por vingança entre os moradores locais", disse o oficial. "É por isso que as negociações são a melhor maneira de apaziguar esse tipo de situação, mas isso também beneficia os piratas", acrescentou. O governo de Puntlândia ainda não divulgou um comunicado sobre os sequestros.
Para os moradores locais, a retomada da pirataria pode causar problemas a longo prazo, disse o analista Jethro Norman, do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais. "Algumas famílias podem ter dificuldades financeiras a curto prazo. "Mas o efeito mais amplo é o aumento dos preços dos alimentos importados e, principalmente, do combustível, a repressão da pesca legal e o possível aumento das patrulhas navais externas, o que complica a vida marítima normal", disse ele à AFP. Ele afirmou que a comunidade internacional precisa fazer mais para impedir que arrastões estrangeiros operem ilegalmente na região, agravando a situação dos moradores locais. "Puntland vem alertando sobre a pesca estrangeira ilegal há anos", disse ele. "A menos que a comunidade internacional forneça recursos diretamente às instituições de Puntland que fiscalizam essa costa, nem a ameaça imediata nem a conjuntura político-econômica que a sustenta serão resolvidas."



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