Um relatório vazado da ONU revela que o comandante do leste, Haftar, está contrabandeando petróleo e armas na Líbia.


 Um relatório vazado de um painel de especialistas da ONU, obtido pelo Middle East Eye, revelou detalhes das ligações da família Haftar com redes de contrabando de petróleo, combustível e armas no leste da Líbia. O relatório de 288 páginas, com lançamento previsto para 9 de abril, vincula o comandante do leste, Khalifa Haftar, e as Forças Armadas Árabes Líbias (LAAF) de seu filho Saddam ao contrabando ilícito de petróleo, fuga de capitais, gestão de redes financeiras e criminosas e fornecimento de armas às Forças de Apoio Rápido (RSF) do Sudão.


Como relatado anteriormente pelo Middle East Eye e observado no relatório da ONU, o Subul al-Salam, uma milícia líbia afiliada às forças de Haftar, facilitou o fornecimento de armas e outros bens às RSF, a força paramilitar apoiada pelos Emirados Árabes Unidos e amplamente acusada de genocídio em Darfur.

O relatório também revelou uma expansão das operações de contrabando de combustível ilícito do porto de Benghazi para outros portos no leste da Líbia, juntamente com o desenvolvimento de infraestrutura para contrabando tanto no porto de Benghazi quanto no porto de Ras Lanuf. Revela ainda uma série de atividades e empreendimentos conjuntos no setor petrolífero entre a administração do leste da Líbia, liderada pelos Haftar, e seu rival, o Governo de Unidade Nacional (GUN), reconhecido internacionalmente e sediado em Trípoli. As investigações do painel da ONU constataram que grupos armados ligados a Ibrahim Dbeibah e Saddam Haftar “desenvolveram e aprimoraram sua capacidade de exercer controle sobre a Corporação Nacional de Petróleo (NOC) em todos os níveis do processo decisório”. Dbeibah é conselheiro de segurança nacional de seu tio, o primeiro-ministro líbio Abdul Hamid Dbeibah. A Líbia é altamente dependente do petróleo, com os hidrocarbonetos representando mais de 90% da receita do Estado. Em 2025, segundo o painel, a receita petrolífera que entrou na Líbia atingiu US$ 18,78 bilhões, quase US$ 10 bilhões a menos do que o esperado, com base nas receitas previstas. O orçamento da NOC foi usado, de acordo com o relatório, como fachada para canalizar fundos para redes ligadas a grupos armados, minando a independência da empresa. O relatório da ONU concluiu que a primeira empresa petrolífera privada da Líbia, a Arkenu, é “controlada indiretamente” por Saddam Haftar “através de seus representantes, em particular Rafat al-Abbar”, ex-vice-ministro do petróleo no governo líbio reconhecido internacionalmente. De acordo com o relatório, de outubro de 2024 a fevereiro de 2026, a Arkenu desviou ativamente mais de US$ 3 bilhões em receitas petrolíferas para contas bancárias fora da Líbia. Entre maio e dezembro de 2024, a Arkenu, criada no ano anterior, exportou aproximadamente 7,6 milhões de barris de petróleo, com um valor estimado em cerca de US$ 600 milhões, desviando parte da receita do Banco Central da LíbiaA relação contratual entre a Arkenu e a NOC da Líbia “não estava em conformidade com as leis líbias relevantes”, afirmou o painel. Os impostos devidos não foram pagos ao Estado líbio e os principais termos do contrato “não foram implementados pela Arkenu”. O relatório identifica Abbar e Belqacem Shengeer, ex-membro do conselho de administração da NOC, como figuras-chave para Saddam Haftar, o vice de 35 anos de seu pai.


Abbar é descrito como tendo desempenhado um “papel fundamental” na NOC, garantindo que, “em níveis-chave da instituição, a pressão fosse exercida para promover os interesses de Saddam Haftar e seus associados próximos”. O ex-vice-ministro do petróleo teria forjado uma “estrutura paralela de tomada de decisões” dentro da companhia petrolífera nacional da Líbia “aproveitando sua aliança com Saddam Haftar”. Por sua vez, o filho predileto de Khalifa “dependeu principalmente” de Abbar para “exercer sua influência e promover seus interesses no setor petrolífero”. Segundo o relatório, Shengeer “foi o arquiteto técnico por trás da criação da Arkenu”. Apesar de representar formalmente a NOC, sediada em Trípoli junto ao governo líbio reconhecido internacionalmente, ele reside em Benghazi, onde está sediado o governo de Haftar no leste do país. A Arkenu exportou grandes quantidades de petróleo bruto, de acordo com o relatório, utilizando subsidiárias de grandes e consolidadas empresas de comércio, como a BGN Energy, dos Emirados Árabes Unidos. O painel da ONU também relata exercícios de treinamento da Força Aérea Líbia (LAAF) na Bielorrússia, a apresentação dos sistemas de armas Eye a Khalifa e Saddam Haftar pelo chefe do Estado-Maior do Exército do Paquistão e a bem estabelecida ponte aérea entre os Emirados Árabes Unidos e áreas sob o controle dos Haftar. O relatório confirma que a LAAF “estava envolvida na coordenação de operações de contrabando de combustível por terra, que eram encaminhadas por meio de portos e logística de entrega sob seu controle”.


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