Anatomia da Presença de 20 Grupos Terroristas no Afeganistão


Em qualquer análise séria de segurança da geografia do Afeganistão, a identificação de grupos terroristas exige a distinção entre organizações globais, regionais e locais. Com base em avaliações de analistas, relatórios da equipe de monitoramento de sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas e avaliações de inteligência regional em 2025 e início de 2026, estima-se que entre 20 e 23 grupos terroristas armados mantenham uma presença física ativa em território afegão.


1. Grupos Terroristas com Agendas Globais

Essas organizações perseguem objetivos além das fronteiras do Afeganistão e são consideradas ameaças diretas à segurança internacional:

1.1. ISIS-Khorasan (ISIS-K): Ativo no Afeganistão desde 2014, as operações do ISIS-Khorasan indicam que atualmente é o rival operacional e ideológico mais sério do Talibã. Há especulações de que alguns atores regionais possam estar usando o grupo como uma força desestabilizadora para moldar o equilíbrio de poder. O ISIS-K não se limitou a ataques domésticos; também usou o território afegão para planejar operações no exterior.

1.2. Al-Qaeda: Apesar da liderança enfraquecida, o núcleo da Al-Qaeda e seu ramo no subcontinente indiano, que mantém laços fundamentais com a organização central, mas opera com sua própria estrutura, são considerados entidades terroristas distintas. O grupo mantém laços familiares com certas facções e autoridades do Talibã, o que facilitou um ambiente mais permissivo para sua presença no Afeganistão. O assassinato do ex-líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, no centro de Cabul, não apenas confirmou a presença ativa do grupo no país, mas também ressaltou os desafios aos compromissos de Doha e simbolizou uma ruptura estratégica. Mesmo assim, a Al-Qaeda está atualmente reconstruindo sua estrutura organizacional no Afeganistão.


2. Grupos Terroristas Regionais

Esses grupos, que somam mais de uma dúzia, são compostos em grande parte por combatentes estrangeiros e visam desestabilizar e derrubar os sistemas políticos em países vizinhos. Entre os mais proeminentes, incluem-se o Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP), o Lashkar-e-Taiba, o Jaish-e-Mohammed, o Al-Badr Mujahideen, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, o Movimento Islâmico do Uzbequistão, o Jamaat Ansarullah e o Jundallah, entre outros. Todos mantêm atualmente presença no Afeganistão.

2.1. Grupos militantes paquistaneses: Os principais são o TTP, o Exército de Libertação do Baluchistão, o Lashkar-e-Taiba, o Al-Badr Mujahideen e o Jaish-e-Mohammed. Esses grupos operam em território afegão, concentrando-se principalmente no Paquistão e na Índia. O maior deles, o TTP, opõe-se ao Estado paquistanês e tornou-se o ponto central de tensão entre Cabul e Islamabad.

2.2. Grupos tajiques: Estes incluem o Jamaat Ansarullah e o Jundallah. Este último não deve ser confundido com o antigo grupo Jundallah, que outrora teve uma presença limitada ao longo da fronteira Afeganistão-Irã-Paquistão; 2.3. Movimento Islâmico do Turquestão Oriental (ETIM): Composto por combatentes uigures, o objetivo do grupo é a China, especificamente a região de Xinjiang. Sua presença e atividade no Afeganistão foram confirmadas.

2.4. Movimento Islâmico do Uzbequistão (IMU): Formado por combatentes uzbeques, o grupo busca minar a segurança no Uzbequistão. Uma facção mantém laços com o ISIS-K, enquanto outra está alinhada com a Al-Qaeda. A organização está atualmente ativa no Afeganistão.


Por que grupos terroristas estão presentes e ativos no Afeganistão?

Do ponto de vista dos estudos de segurança, a presença desses grupos decorre de diversos fatores estruturais:

1. Coexistência ideológica: Devido às raízes jihadistas compartilhadas e aos laços de parentesco com certas organizações militantes, o Talibã afegão pode considerar a supressão completa de grupos como a Al-Qaeda ou o TTP como contrária aos seus valores morais e ideológicos, e potencialmente desestabilizadora para a coesão interna.

2. Uso como moeda de troca: O Talibã pode considerar a presença desses grupos como uma moeda de troca em negociações com estados vizinhos e grandes potências, por exemplo, trocando garantias de segurança por reconhecimento político.

3. Controle territorial frágil: As regiões montanhosas e de difícil acesso do Afeganistão limitam a capacidade de qualquer governo de exercer uma supervisão abrangente. Esses “espaços sem governo” proporcionam condições ideais para a sobrevivência de organizações terroristas menores.

Surge, então, uma questão adicional: o que sustenta e reproduz esses grupos? Essas organizações continuam a desempenhar funções para seus membros de uma forma e para os estados e serviços de inteligência de outra. Compreender sua persistência, portanto, exige examinar a lógica funcional do terrorismo. Para além da sua natureza destrutiva, esses grupos operam como instrumentos de baixo custo em rivalidades geopolíticas, como ferramentas de pressão na diplomacia informal e como atores ativos na economia paralela da região. Enquanto o terrorismo é definido como um “ativo funcional” tanto para atores internos quanto externos, sua reprodução na geografia do Afeganistão permanecerá inevitável.

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