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| Cubanos atuando na Venezuela |
Por quase duas décadas, eles foram a estrutura invisível do Estado socialista da Venezuela: oficiais da inteligência cubana infiltrados em bases militares, assessores de segurança acompanhando generais e equipes técnicas monitorando discretamente as comunicações de toda a nação. Agora, com a ordem política da Venezuela em convulsão após a captura do ditador Nicolás Maduro e Washington intensificando a pressão sobre Havana, essa estrutura começa a ruir sob a pressão. Centenas de membros da segurança cubana — soldados, agentes de inteligência e guarda-costas — começaram a deixar Caracas nas últimas semanas, segundo múltiplas fontes de inteligência e diplomatas, sinalizando uma ruptura potencialmente histórica em uma das alianças políticas mais importantes da América Latina. O êxodo pode enfraquecer o aparato de vigilância e contraespionagem que ajudou a sustentar o sistema autoritário da Venezuela por anos, mesmo com analistas alertando que remanescentes da rede permanecem profundamente infiltrados e capazes de operar nas sombras.
“Isso essencialmente remove uma camada de pressão das forças armadas”, disse José Antonio Colina, ex-oficial militar venezuelano que há muito tempo acompanha a influência cubana. “Aqueles olhos vigilantes constantes que estiveram presentes durante todos esses anos de revolução não estão mais sobre eles.” Uma aliança de segurança. Estimativas dos EUA sugerem que até 25.000 pessoas de origem cubana — incluindo soldados, agentes de inteligência e conselheiros de segurança — circularam pela Venezuela nas últimas duas décadas sob um pacto de segurança amplamente não divulgado que remonta ao falecido líder Hugo Chávez. Em troca de remessas de petróleo subsidiadas que mantiveram a economia cubana em dificuldades à tona, Havana forneceu a experiência e a mão de obra para ajudar Caracas a manter o controle interno durante períodos de agitação política, de acordo com autoridades atuais e antigas. Milhares de médicos, enfermeiros e preparadores físicos cubanos também trabalharam em toda a Venezuela como parte do acordo de cooperação mais amplo, confundindo a linha entre ajuda civil e influência estatal. O acordo tornou-se um dos pilares da aliança regional de esquerda que definiu a política latino-americana por uma geração. Mas por trás das missões médicas e da cooperação esportiva, havia uma parceria muito mais consequente: o discreto emprego do aparato de inteligência e controle social altamente treinado de Havana.
A relação teve um custo elevado para Caracas, equivalente a bilhões de dólares por ano em remessas de petróleo para Cuba, mas provou ser vital para a sobrevivência do governo socialista da Venezuela durante anos de agitação interna, crescente pressão internacional e o risco persistente de um golpe militar. Tudo isso mudou, no entanto, após a captura de Maduro por tropas americanas em uma operação secreta noturna, em 3 de janeiro. Trinta e dois membros das forças de segurança cubanas foram mortos durante a operação, disseram autoridades, ressaltando o quão profundamente as forças de Havana estavam enraizadas na proteção da liderança venezuelana. A presidente interina Delcy Rodríguez — ex-vice-presidente de Maduro — agora depende principalmente de guarda-costas venezuelanos, de acordo com pessoas familiarizadas com os esquemas de segurança. E os agentes cubanos começaram a deixar os quartéis, dizem as fontes — embora não na velocidade que muitos na Venezuela gostariam. Ainda não está claro se os agentes cubanos saíram por ordem de Rodríguez, foram chamados de volta por Havana ou partiram por conta própria em meio à crescente incerteza. Mas parte da razão parece ser financeira — com Washington agora controlando efetivamente os carregamentos de petróleo venezuelano e bloqueando o petróleo bruto que antes fluía para Cuba, Caracas não pode mais pagar pelos serviços de Havana, disseram fontes. “Após a operação de 3 de janeiro, todos os pagamentos a Cuba cessaram”, disse uma das fontes. Unidade 105 No centro da presença da inteligência cubana na Venezuela estava uma operação pouco conhecida chamada Unidade 105, descrita em um memorando escrito por oficiais de inteligência venezuelanos para o governo dos EUA e compartilhado com o Miami Herald como o “cérebro tecnológico” do estado de vigilância do país. A unidade combinava inteligência de sinais e inteligência humana para monitorar comunicações, rastrear indivíduos e detectar sinais de dissidência, de acordo com o documento datado de 17 de fevereiro e marcado como “verificado — alta prioridade”. Operando a partir do extenso complexo militar de Fuerte Tiuna em Caracas, a Unidade 105 interceptava ligações telefônicas e monitorava comunicações digitais — incluindo plataformas de mensagens criptografadas — enquanto mantinha vigilância sobre a própria liderança militar da Venezuela. “O objetivo era a sobrevivência do sistema”, afirma o memorando, descrevendo uma estrutura concebida para detectar conspirações internas e manter o controle sobre as forças armadas. A estrutura de comando operava sob dupla autoridade: oficiais da inteligência cubana forneciam a expertise técnica e a direção analítica, enquanto agências venezuelanas realizavam prisões e interrogatórios com base nas informações coletadas.
“A palavra deles era a autoridade final quanto à credibilidade de uma ameaça”, diz o memorando sobre os comandantes técnicos cubanos. A localização dentro de Fuerte Tiuna — a base militar mais importante da Venezuela — era estratégica, permitindo que os operadores monitorassem generais e mantivessem acesso direto a nós de telecomunicações essenciais que conectavam o palácio presidencial a instalações militares em todo o país. Um sistema debilitado, mas não destruído. A operação de 3 de janeiro que levou à captura de Maduro também representou um golpe devastador para a Unidade 105. De acordo com o memorando de inteligência, o quartel-general central em Fuerte Tiuna foi destruído por bombardeios de precisão, incinerando equipamentos e matando dezenas de técnicos cubanos. Antenas repetidoras em toda a região de Caracas também foram neutralizadas, fazendo com que o sistema perdesse sua capacidade de monitoramento em nível nacional. Mas a rede não desapareceu. O memorando alerta que os operadores sobreviventes realocaram servidores espelho e dados sensíveis para infraestrutura civil, incluindo porões no centro de Caracas e os cofres fortemente fortificados do Banco Central da Venezuela.
“O que resta é uma guerrilha da informação”, conclui o relatório, alertando que quem controla os servidores remanescentes pode possuir o registro de inteligência do último quarto de século. Analistas afirmam que os bancos de dados residuais ainda podem ser usados para chantagem ou pressão política, particularmente durante um período de transição frágil. Suporte econômico — e influência. A relação de segurança entre Havana e Caracas foi sustentada por subsídios econômicos maciços. Fontes de inteligência afirmam que o apoio petrolífero que Cuba recebeu da Venezuela por mais de duas décadas excedeu a assistência que a ilha outrora obteve da União Soviética — um suporte que ajudou a sustentar a economia cubana após a Guerra Fria. Em troca, Havana garantiu a sobrevivência do sistema venezuelano que fornecia esses recursos, incluindo a manutenção de uma supervisão rigorosa das estruturas militares, de acordo com pessoas familiarizadas com o acordo. O governo Trump tornou o desmantelamento desse vínculo econômico um objetivo central desde a prisão de Maduro, bloqueando os carregamentos de petróleo venezuelano para Cuba desde dezembro e ameaçando impor tarifas aos países que fornecem combustível para a ilha. “É uma nação falida, e eles não estão recebendo dinheiro da Venezuela, nem de ninguém”, disse o presidente Donald Trump a repórteres sobre Cuba no início deste mês. Rodríguez caminha na corda bamba. Para a líder interina da Venezuela, a questão cubana é repleta de riscos políticos. Rodríguez precisa equilibrar a pressão de Washington para distanciar Caracas de Havana com a realidade de que assessores cubanos estão há muito tempo inseridos nas instituições de segurança da Venezuela. “Ela quer manter os cubanos à distância até que a situação se acalme, até que seu controle do poder esteja claro, mas também não quer abandoná-los completamente”, disse Frank Mora, que atuou como embaixador dos EUA na Organização dos Estados Americanos durante o governo Biden, em entrevista à agência de notícias Reuters. Observadores dizem que a saída gradual de militares cubanos pode refletir esse delicado equilíbrio. Havana reconheceu a presença de “combatentes cubanos” na Venezuela apenas recentemente, após anos de negações oficiais, ao mesmo tempo em que condenou as sanções americanas e prometeu resistir ao que chama de intervenção.
Células adormecidas
Mesmo com a saída de centenas — possivelmente milhares — de agentes cubanos, fontes de inteligência alertam que é improvável que a rede desapareça completamente. Alguns assessores permanecem infiltrados em unidades militares e de inteligência, e espera-se que agentes infiltrados permaneçam para monitorar o cenário político em constante evolução. Fontes familiarizadas com a situação afirmam que os agentes cubanos operam há muito tempo por meio de um sistema híbrido, com militares baseados em Fuerte Tiuna e outros se revezando em hotéis no centro de Caracas, enquanto apoiam operações de inteligência civil. A rede também se estendia a setores administrativos, como cartórios, onde funcionários compilavam perfis detalhados de cidadãos — um método de coleta de informações lento, porém eficaz. “Existem células adormecidas”, disse uma fonte familiarizada com os relatórios de inteligência, observando que agentes mais jovens permanecem posicionados em bairros e instituições. Retiradas, deserções e tensões internas Um ex-oficial militar venezuelano exilado, em contato com militares da ativa dentro do país, disse que a retirada de pessoal cubano tem sido mais ampla e sistemática do que o reconhecido publicamente, ocorrendo em fases desde janeiro.
“Eles vêm saindo progressivamente desde janeiro, inicialmente os ‘médicos, professores e instrutores’ dos estados periféricos em direção ao centro”, disse o oficial, descrevendo o que chamou de uma redução organizada da presença cubana na Venezuela. Segundo o oficial, os últimos grupos que devem permanecer são aqueles integrados aos serviços de inteligência e ministérios-chave, embora ele tenha afirmado que algumas unidades sensíveis foram retiradas anteriormente por ordem da liderança venezuelana. Ele disse que o pessoal cubano designado para a guarda presidencial, conhecida como Casa Militar, bem como os agentes que trabalham com a Direção-Geral de Contrainteligência Militar (DGCIM) e o Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (SEBIN), foram retirados de postos regionais antes de 1º de fevereiro. O Ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, também aproveitou o momento para remover assessores cubanos designados para o Ministério da Defesa, incluindo instrutores em academias militares e pessoal médico que trabalha em hospitais militares, disse o oficial. As retiradas, no entanto, estão criando complicações inesperadas. O oficial afirmou que houve um número indeterminado de deserções entre os militares cubanos, com alguns optando por permanecer na Venezuela em vez de retornar à ilha. Alguns alegaram ter constituído família no país, incluindo casamentos com parceiros venezuelanos e filhos nascidos localmente.
O grupo inclui pessoal de inteligência que construiu laços pessoais durante suas missões, disse ele, acrescentando que alguns mantêm relacionamentos na Venezuela, ao mesmo tempo que têm parceiros ou familiares em Cuba. Analistas afirmam que tais casos podem complicar os esforços de ambos os governos para desmantelar completamente a rede de segurança de décadas, potencialmente deixando para trás indivíduos com profundo conhecimento de operações sensíveis e instituições locais. Possível ponto de virada Para muitos analistas, a retirada cubana representa um momento decisivo na história moderna da Venezuela — um momento que pode remodelar o equilíbrio de poder dentro das forças armadas e do sistema político em geral. Durante anos, a presença de assessores cubanos dentro dos comandos militares serviu como um poderoso fator de dissuasão contra a dissidência interna, dizem os críticos, garantindo a lealdade por meio da vigilância e da supervisão ideológica. Se essa camada de supervisão enfraquecer, os oficiais podem se sentir menos constrangidos, potencialmente abrindo espaço para novas dinâmicas políticas. Mas o resultado permanece incerto. A sobrevivência de bancos de dados de inteligência, a presença de agentes remanescentes e a fragilidade da transição venezuelana significam que o legado da aliança provavelmente persistirá muito depois da partida dos últimos assessores.
“Isso não significa o fim da influência cubana”, alertou uma fonte da inteligência. “Trata-se de uma transformação.”








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