Capital do Haiti assolada por gangues é 'sistematicamente' aterrorizada por violência sexual


A violência sexual e de gênero aumentou drasticamente no Haiti nos últimos anos, com mulheres e meninas sendo alvo de práticas cada vez mais brutais, alertou nesta quinta-feira a organização Médicos Sem Fronteiras. O Haiti é o país mais pobre do hemisfério ocidental, com vastas áreas sob o controle de gangues armadas rivais que cometem assassinatos, estupros e sequestros.


"A violência sexual e de gênero aumentou drasticamente na capital do Haiti desde 2021 e está sendo usada sistematicamente para aterrorizar a população", alertou a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), ao publicar um novo relatório baseado em 10 anos de dados e depoimentos de sua clínica em Porto Príncipe. A MSF afirmou que sua clínica Pran Men'm "testemunhou o impacto da crescente violência no Haiti e do colapso de seus mecanismos de saúde, segurança e judiciário sobre os corpos de mulheres e meninas". A clínica tratou, na última década, quase 17.000 sobreviventes de violência sexual – 98% das quais eram mulheres e meninas – incluindo 2.300 apenas nos primeiros nove meses de 2025. 
Quase um quinto das sobreviventes tratadas na clínica sofreram múltiplos casos de violência sexual. "O número de sobreviventes de violência sexual e de gênero que recebem atendimento na clínica quase triplicou, passando de uma média de 95 internações por mês em 2021 para mais de 250 em 2025", destacou Diana Manilla Arroyo, chefe da missão da MSF no Haiti, em um comunicado. Cinquenta e sete por cento das sobreviventes que receberam atendimento na Pran Men'm desde 2022 relataram ter sido agredidas por membros de grupos armados, frequentemente por múltiplos agressores, segundo o comunicado. A MSF afirmou que mais de 100 pacientes relataram ter sido agredidas por 10 ou mais agressores simultaneamente.

"Eles me bateram e quebraram meus dentes", disse uma sobrevivente de 53 anos, citada no relatório.

"Três jovens que poderiam ser meus filhos... Depois de me estuprarem, estupraram minha filha... e bateram no meu marido."


O relatório alertou para as persistentes deficiências no acesso das sobreviventes aos serviços, em meio à falta de financiamento para serviços de proteção. Outras barreiras, incluindo dificuldades financeiras e insegurança, também impedem que as sobreviventes acessem o atendimento rapidamente, afirmou a organização. Isso pode ter consequências médicas graves, alertou, salientando que apenas um terço das sobreviventes tratadas em sua clínica desde 2022 chegaram lá dentro de três dias após a agressão, período após o qual não é mais possível prevenir a transmissão do HIV. A MSF pediu mais financiamento e o "reconhecimento inequívoco da natureza generalizada da violência sexual e de seu uso deliberado por grupos armados como ferramenta para controlar e subjugar mulheres e meninas".

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