
Raymond “RC” Horsch
Uma investigação de grande escala está em andamento na Filadélfia, após a polícia descobrir mais de um milhão de arquivos digitais de conteúdo explícito, equipamentos químicos e armas dentro de uma casa no bairro de Olney, que pertencia ao falecido produtor de pornografia Raymond “RC” Horsch, morto no ano passado, aos 83 anos.
A ampla investigação, conduzida por autoridades federais e locais, concentra-se em pelo menos sete mulheres ligadas à residência que desapareceram a partir de 2012. No local, as autoridades encontraram gravações perturbadoras que documentam abusos, asfixia e supostos estrangulamentos de mulheres, além de urnas contendo cinzas e recipientes com uma substância oleosa desconhecida.
Audrey Hollander, criadora de conteúdo erótico, trabalhou como modelo para Horsch no início dos anos 2000 e relatou sua experiência a Chadwick Moore, do jornal *The Post*:
“Eu estava começando minha carreira como atriz de filmes adultos em 2004, quando meu agente conseguiu para mim uma série de trabalhos no Nordeste. Eu estava empolgada por ingressar na indústria. Fiz as malas e saí de Kentucky rumo ao meu primeiro compromisso na Filadélfia, onde me disseram que um artista local estava selecionando mulheres para participar de um videoclipe.
Mas, no momento em que entrei na hoje infame ‘casa dos horrores’, na Chew Avenue, percebi que algo estava errado. Parecia o esconderijo de um acumulador — havia tralha empilhada por toda parte. Mas o que mais me marcou foi o cheiro — algo que me persegue até hoje, mais de 20 anos depois. Era um odor estranho, de algo podre, como se houvesse algo estragado ali.
Tive um pressentimento ruim. Queria sair correndo pela porta e nunca mais olhar para trás. A casa tinha uma energia sombria e fiquei profundamente aterrorizada. Naquele momento, senti como se ele estivesse me avaliando, talvez para extrair partes do meu corpo ou para me usar em um *snuff film* [filme que registra um assassinato real]. Tive a sensação de que ele estava me sondando, testando até onde poderia ir comigo.
Depois de décadas na indústria, aprendi a confiar nos meus instintos nessas situações, mas, na época, eu era inexperiente. Fiquei preocupada: se recusasse aquele trabalho, meu agente poderia romper comigo.”
Eu estava sozinha na casa com RC Horsch e pedi para usar o banheiro. Ele me levou a um porão úmido e escuro. Ao lado do vaso sanitário, havia um exemplar da revista AVN, a principal publicação da indústria pornô. Como eu era novata no ramo, é claro que dei uma folheada. Foi quando um saquinho contendo um pó marrom caiu de entre as páginas. Nunca usei drogas, mas sei identificar heroína quando a vejo.
Tudo fez sentido quando voltei a encontrar Horsch e ele me contou que algumas das modelos com quem trabalhava tinham sérios problemas com drogas, e que ele queria documentar a vida delas. Percebi que ele tinha deixado a revista ali, junto com as drogas, para que eu encontrasse — na esperança de que eu as consumisse.
Consegui o trabalho. Um mês depois, estávamos na Califórnia, filmando no renomado estúdio de fetiche de um fotógrafo da Playboy que havia trabalhado com Ansel Adams. A música para a qual estávamos gravando o vídeo chamava-se “Bad, Bad Boy”. Horsch disse que tinha obtido os direitos da canção junto à Madonna — uma mentira óbvia, imagino que com o intuito de me impressionar.
Era uma música bem idiota, mas eu não queria ficar com fama de metida ou difícil. Além disso, a proposta parecia bem simples: eu deveria dublar a letra enquanto estivesse curvada sobre uma mesa de madeira, com ele simulando sexo comigo por trás.
Gravamos durante dois dias; ele apareceu usando uma cartola e uma camiseta com a frase “Garotas mortas não podem dizer não!”, a qual ele vestia enquanto fingia me estrangular.
Uma versão mais explícita também foi lançada, e notei que, na imagem promocional, Horsch aparecia atrás de mim segurando uma foice. Até hoje, não sei bem o que aquilo significava. É tudo tão mórbido.
Ao final das filmagens, meus dedos estavam sangrando e eu apresentava hematomas graves nos ossos do quadril. Ele batia e dava tapas com violência no meu bumbum, empurrando-me contra a mesa e exigindo que eu cravasse as unhas na madeira com cada vez mais força.
Ele só ficou satisfeito quando eu deixei marcas profundas de arranhões, manchadas com rastros do meu próprio sangue. Minhas unhas estavam lascadas e meus dedos sangravam quando tudo terminou. Isso não era uma simulação, pensei.
— Mostre as marcas de garras! — disparou ele para o cinegrafista.
Eu tinha 23 anos e, ainda hoje, aos 47, mantenho uma bela cabeleira ruiva e volumosa; mas ele me obrigou a usar uma peruca grotesca para escondê-la. Achei estranho que ele tentasse me deixar o mais feia possível. Normalmente, vendemos fantasia nesta indústria, mas ficou claro que não era isso que Horsch buscava: ele queria que eu parecesse uma palhaça, humilhada e degradada.
Machucada e sangrando, fui embora, jurando nunca mais trabalhar com aquele sujeito desprezível. Ainda assim, ele continuou atrás de mim. Meu agente contou que Horsch ligava sem parar, pedindo que eu voltasse para a Filadélfia.
Eu sabia que aquele homem era um sujeito perturbado e não me importava se nunca mais voltasse a trabalhar — eu não ia voltar de jeito nenhum.
Olhando para trás, entendo por que ele gostava de mim. Eu era muito magra, com uma aparência frágil e um rosto jovial. Eu tinha aquele visual vulnerável, estilo "heroin chic", e Horsch — como sabemos hoje — tinha como alvo mulheres dependentes químicas.
Deixei essa experiência guardada no fundo da minha mente e segui em frente, construindo uma carreira de sucesso na indústria adulta. Fui eleita "Artista do Ano" pela AVN em 2024 e cheguei a ser incluída no Hall da Fama da organização.
Então, algumas semanas atrás, um fã que se lembrava dos meus primeiros trabalhos comentou em uma postagem nas redes sociais, perguntando o que eu sabia sobre RC Horsch. Aquele sujeito nojento da Filadélfia, dono daquela casa que fedia? Por que ele estaria perguntando isso?, pensei.
Quando lidei com Horsch, senti, lá no fundo, que ele era um homem perverso. Sei que ele certamente tinha planos para mim, e ainda estou processando tudo isso psicologicamente.
Inclusive, estou fazendo terapia por causa disso. Penso naquelas mulheres pobres que desapareceram e em como eu poderia ter sido uma delas.
Sou muito grata por nunca ter voltado àquela casa sinistra na Chew Avenue.
Felizmente, as coisas melhoraram para mim. Hoje, tenho muito mais controle sobre o meu conteúdo. Cheguei a criar um serviço de passeios com cães, e estou planejando lançar uma empresa de café com uma pegada sensual.
Se a minha experiência puder ajudar, ainda que minimamente, a avançar com a investigação, então acredito que vale a pena compartilhá-la. E espero, de alguma forma, poder dar voz às mulheres desaparecidas que nunca tiveram a chance de falar.



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