A Ucrânia prometeu combater a Rússia onde quer que seja possível, inclusive nas "areias escaldantes" do deserto do Sahel, à medida que crescem as evidências de que Kiev apoia separatistas tuaregues que lutam contra o exército do Mali e seus aliados russos.
Mali, Níger e Burkina Faso — todos governados por juntas militares que viraram as costas para a França, antiga potência colonial, e se aproximaram da Rússia — reagiram rompendo relações diplomáticas com Kiev.
Eles acusam a Ucrânia de fornecer armas à Frente de Libertação de Azawad (FLA) — um grupo separatista armado predominantemente tuaregue, vagamente aliado ao braço da Al-Qaeda no Sahel, o Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM).
"Na África e no Sahel, a (Ucrânia) está oferecendo apoio claro e aberto a grupos terroristas e outras organizações de estilo mafioso para minar a integridade territorial do nosso país", alegou o ministro das Relações Exteriores do Mali, Abdoulaye Diop, nas Nações Unidas, em setembro.
O primeiro-ministro do Níger, Ali Mahamane Lamine Zeine, apontou especificamente a França e a Ucrânia, alegando que elas estariam direcionando "representantes" (ou forças por procuração) ao longo das fronteiras nordeste de seu país para atacar posições militares e instalações petrolíferas.
Oficialmente, Kiev nega qualquer envolvimento na região. "Trata-se de uma campanha de desinformação russa contra a Ucrânia", disse à AFP o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Georgiy Tykhy.
As acusações surgiram após postagens na rede social X feitas por Kyrylo Budanov — ex-chefe de inteligência da Ucrânia que assumiu o cargo de chefe de gabinete do presidente Volodymyr Zelensky em janeiro —, nas quais ele sugeriu a presença de agentes ucranianos na região africana do Sahel.
"Da Rússia à África... a Direção Principal de Inteligência protege os interesses ucranianos em todo o mundo por todos os meios... nas areias escaldantes dos desertos e nas neves congelantes da Antártida", escreveu Budanov em 7 de setembro.
A postagem vinha acompanhada de uma foto mostrando quatro homens brancos, com os rostos desfocados, ao lado de homens armados e de turbante em caminhonetes, em um cenário desértico.
Cinco dias depois, uma reportagem da CNN informou que oficiais da inteligência militar ucraniana haviam confirmado que operadores de drones no Sahel forneceram treinamento e apoio à FLA. Grupos armados estão utilizando cada vez mais tecnologias de baixo custo e pilotadas remotamente para reconhecimento e ataques — táticas possivelmente inspiradas na guerra na Ucrânia. Os detalhes sobre as ações dos ucranianos na África Subsaariana são objeto de controvérsia.
Uma fonte ligada à FLA disse à AFP que os separatistas malianos "mantêm contato com os ucranianos". No entanto, a fonte ressaltou: "Todos os combates dos últimos meses foram realizados pela FLA e pelo JNIM".
Ela negou que Kiev tenha fornecido apoio logístico, material ou de inteligência e classificou as fotos divulgadas por Budanov como "apenas propaganda ucraniana". Kiev, contudo, forneceu certo nível de instrução, afirmou a fonte.
Em 2023, "três ou quatro ucranianos" viajaram para o norte do Mali para treinar alguns combatentes da FLA, e vários combatentes passaram por "um curso intensivo de 30 dias na Ucrânia sobre o uso de drones FPV (visão em primeira pessoa)", disse ela. O treinamento no norte do Mali "ocorreu perto da fronteira com a Mauritânia", afirmou uma segunda fonte da FLA, acrescentando que as fotos publicadas por Budanov eram "daquela época ou haviam sido tiradas na Síria". Um diplomata baseado na região, que falou sob condição de anonimato, disse que os ucranianos tinham "uma presença definida no norte do Mali, onde se deslocam e colaboram com rebeldes tuaregues".




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