Palestina : Postos avançados, violência, impunidade: a anatomia da apropriação de terras por colonos israelenses

A época da colheita de azeitonas é, tradicionalmente, um período em que famílias palestinas se reúnem em seus pomares, colhem azeitonas e cozinham ao ar livre, sobre fogueiras.


Mas, quando Musa Bani Shamsa e seu filho de 17 anos — que pediu para não ter o nome revelado — chegaram às suas terras em Beita, a sudeste de Nablus, os pomares estavam vazios. Na manhã de 14 de outubro, logo após a chegada deles, um grupo de homens israelenses mascarados os cercou. Eles portavam pistolas, facas, canos, pedaços de pau e um martelo, relatou Shamsa à Al Jazeera. Apenas os olhos deles estavam visíveis. “Em certos momentos, eu apanhava no lugar do meu filho; em outros, ele apanhava no meu lugar”, contou. “Eu temia que o matassem — que o matassem de vez —, porque isso tem acontecido com frequência.” Ele levantou a camisa para mostrar hematomas e ferimentos de faca que ainda estavam em processo de cicatrização. A agressão durou pelo menos 20 minutos, até que ele e o filho fossem deixados caídos no chão. Shamsa estava sangrando e perdeu a consciência. “Acharam que estivéssemos mortos, por isso nos deixaram lá”, disse. Shamsa afirmou que os agressores vieram de um posto avançado israelense situado na colina vizinha. Três dias após o ataque, seu filho ainda não conseguia falar, em estado de choque. A violência praticada por colonos na Cisjordânia ocupada tem crescido drasticamente. Desde 1º de setembro, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários registrou mais de 200 ataques contra agricultores palestinos — um número superior ao total de agressões semelhantes ocorridas durante toda a temporada do ano passado. Com o aumento das surras, incêndios criminosos e roubos de gado, “as pessoas estão com medo”, disse Shamsa, “em todos os sentidos da palavra”. Ele compartilha desse medo, mas se recusa a abandonar suas terras.

Os agricultores adaptaram suas rotinas. A colheita começa mais cedo, às 5 da manhã. As pessoas bloqueiam estradas com pedras para retardar a aproximação dos colonos e revezam-se entre a colheita das azeitonas e a vigilância, feita a partir dos telhados com o auxílio de binóculos. Quando os colonos se aproximam, as famílias fogem. Algumas retornam à noite para realizar a colheita usando a luz de celulares. Contudo, essas precauções oferecem pouca proteção. Em vilarejos próximos, conta Shamsa, os colonos esperam até que os agricultores terminem a colheita para, então, roubar a safra e os equipamentos.


“Eles chegam, levam as azeitonas, agridem os agricultores e também levam as esteiras que eles estendem sob as oliveiras”, disse ele. “Cada vez que cedemos um pouco, eles tomam um pouco mais. Eles não querem nos garantir segurança.”

No centro da expansão dos assentamentos israelenses estão os chamados "postos avançados" (*outposts*), que, muitas vezes, começam com pouco mais do que uma bandeira, uma tenda ou um curral para o gado em terras palestinas. Estabelecidos perto de vilarejos palestinos, eles podem se expandir a ponto de controlar os campos e as áreas de pastagem ao redor.

De sua varanda, Khalil Tafakji, cartógrafo e especialista em fronteiras e assentamentos, apontou para uma colina onde bandeiras israelenses tremulavam sobre casas palestinas. Ele descreveu esses postos avançados como "os descendentes dos assentamentos-mãe". Posicionados entre assentamentos israelenses já existentes, eles ajudam a conectá-los e a estender o controle israelense "sobre a maior área de terra possível com o menor número de residentes", explicou Tafakji à Al Jazeera. Segundo o direito internacional, todos os assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada são ilegais. Os postos avançados também são ilegais sob a legislação israelense até que sejam aprovados pelo governo; contudo, muitos recebem apoio estatal mesmo antes de um reconhecimento formal. "O Estado está por trás dos colonos, apoiando-os financeira, moral, política e militarmente, em cada detalhe", afirmou Tafakji. Em 2024, os colonos estabeleceram 62 novos postos avançados, contando com 75 milhões de shekels (20 milhões de dólares) em financiamento governamental. No total, o governo destinou pelo menos 100 milhões de shekels (30 milhões de dólares) a postos avançados e fazendas para equipamentos de segurança e infraestrutura — incluindo estradas, veículos, drones, câmeras e portões elétricos —, segundo a Peace Now, uma ONG israelense. O governo também legaliza postos avançados de forma retroativa. Em março, o gabinete de segurança de Israel aprovou 34 novos assentamentos, incluindo 10 postos avançados já existentes. A imprensa israelense noticiou que a decisão prevê a instalação de infraestrutura de água e eletricidade antes mesmo da aprovação final do planejamento.


Em Beita, um padrão semelhante está se desenrolando. Em 2024, Israel autorizou que o posto avançado de Evyatar — estabelecido originalmente em 2013 — passasse a ser um assentamento. Desde então, segundo moradores, três postos avançados menores surgiram ao seu redor.

Rabee al-Sharafa, um morador de Beita que vive nos arredores do vilarejo, relatou que, inicialmente, os colonos obtêm energia elétrica a partir de linhas próximas à localidade, antes mesmo que a infraestrutura seja formalmente estendida até eles. “Se houver uma rede elétrica perto do vilarejo, eles simplesmente se conectam a ela — não veem problema nenhum nisso”, disse ele. “E, se a conexão for cortada, eles também não se preocupam: a companhia de eletricidade vem e estende a rede até eles.” À medida que o número de postos avançados aumenta, crescem também as ameaças de violência e o uso da força para expulsar famílias palestinas de suas terras. “A estratégia que eles adotam é a de uma rendição gradual”, afirmou al-Sharafa, referindo-se aos colonos. Ele contou que, em março, dez homens mascarados, armados com porretes, facões e machados, atacaram uma família e ameaçaram matar seus integrantes caso não partissem. A família acabou fugindo. Em junho, outra residência foi esvaziada e, desde o início de outubro, os colonos passaram a visar uma terceira casa, cortando o fornecimento de eletricidade e água. “É como um rosário que vai se desfazendo, conta por conta”, comparou al-Sharafa.

Os palestinos afirmam que não têm a quem recorrer.

O exército israelense protege os colonos, e os palestinos raramente conseguem obter amparo por meio do sistema jurídico. Quando os moradores tentam defender suas casas, os colonos “imediatamente trazem o exército contra você”, disse al-Sharafa. “Às vezes, o exército sabe que um ataque está ocorrendo, mas não quer intervir até que ele termine.” A Al Jazeera entrou em contato com as forças armadas israelenses para pedir um posicionamento, mas ainda não obteve resposta. A lei também é utilizada para a apropriação das próprias terras. Israel recorre a um conjunto heterogêneo de leis otomanas, britânicas e jordanianas, somadas às suas próprias ordens militares, para confiscar territórios palestinos. Com base em uma legislação da era otomana, terras que permanecem sem cultivo por vários anos podem ser reivindicadas pelo Estado. Israel utiliza esse dispositivo para classificar áreas como “terras estatais” — locais onde, segundo Tafakji, muitos assentamentos foram estabelecidos. Outras terras são tomadas por meio de ordens militares ou desapropriadas para “fins públicos”. “Eles estão confiscando nossas terras para estabelecer outro Estado e nos expulsar. É um processo de desenraizamento e substituição”, afirmou Tafakji. Palestinos que possuem títulos de propriedade formais chegaram, ocasionalmente, a obter vitórias nos tribunais israelenses. Contudo, mesmo nesses casos, “o governador militar aparece e transforma a área em uma zona militar”, explicou Tafakji. Em Beita, Shamsa teme que, caso a violência obrigue os agricultores a abandonar seus olivais, Israel possa, futuramente, reivindicá-los como propriedade do Estado. Ele manteve uma tenda em seu terreno por cerca de seis anos para passar tempo com amigos e familiares, mas os colonos a destruíram. “Se eu abandonar [a terra] por alguns anos, eles podem derrubar as árvores e usar isso como argumento para dizer que o terreno pertence ao Estado”, disse ele. Enquanto isso, as denúncias criminais raramente resultam em algo concreto. Das investigações policiais sobre a violência cometida por colonos — monitoradas pela organização israelense de direitos humanos Yesh Din entre 2005 e 2023 —, 94% foram encerradas sem o oferecimento de denúncia.


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