O relógio biológico da natureza está desregulado, e os canários-da-terra do Parque do Flamengo são o mais recente sinal de alerta. Quem costuma frequentar as alamedas projetadas por Burle Marx na Zona Sul do Rio de Janeiro já se acostumou a ver, religiosamente no mês de setembro, grandes bandos — alguns com mais de 50 indivíduos — em plena atividade reprodutiva. Em 2026, contudo, o cenário mudou de dados: os pássaros só foram vistos coletando graves, fibras e folhas para fazer seus ninhos a partir da segunda quinzena de outubro.
Este atraso de quase um mês na nidificação não é mera coincidência ornitológica. Os especialistas apontam que as previsões meteorológicas globais e regionais estão alterando profundamente os ciclos de vida da fauna urbana.
O Alarme Climático no Aterro
Tradicionalmente, os canários-da-terra (Sicalis flaveola) iniciam sua temporada de reprodução com a chegada da primavera. O gatilho biológico para que comecem a cantar forte, disputar territórios e construir ninhos é o aumento do fotoperíodo (dias mais longos) somado à regularidade das primeiras chuvas, que estimula a oferta de sementes de gramíneas e pequenos insetos ricos em proteínas.
Porém, os extremos climáticos recentes que vêm assolando o Sudeste do Brasil bagunçaram essa engrenagem perfeita. A combinação de fatores explica esse comportamento atípico:
• Efeitos do El Niño e Mudanças Globais: Mudanças nos padrões de vento e pressão alteram a distribuição de umidade. Frentes frias tardias ou estiagens prolongadas na transição do inverno para a primavera retardam o crescimento da vegetação rasteira no Parque do Flamengo.
• Insegurança Alimentar Temporária: Sem chuva na época certa, não há sementes frescas nem lagartas ou cupins em abundância. Inteligentes, as aves adiam a postura para garantir que os filhotes não nasçam em um período de escassez.
• Ilhas de Calor Urbanas: O asfalto e o concreto do entorno do Aterro potencializam anomalias térmicas. Dias calmos, secos e abafados, intercalados por quedas bruscas de temperatura provocadas por frentes frias oceânicas tardias, deixam os hormônios das aves em compasso de espera.
O que diz a Ciência?
Biólogos e observadores de aves que monitoram a região explicam que o canário-da-terra tem uma capacidade plástica de adaptação, estendendo seu período reprodutivo até fevereiro se for necessário. No entanto, o início tardio encurta a janela ideal para que as fêmeas realizem de duas a três ninhadas por temporada, o que pode, a longo prazo, reduzir a taxa de natalidade da espécie no ecossistema local.
O atraso observado na segunda quinzena de outubro é um forte indicador de que a primavera fluminense perdeu sua previsibilidade histórica.
Como Ajudar a Preservar
Para quem caminha pelo Parque do Flamengo, o momento exige respeito ao ritmo atual da natureza. Uma recomendação dos ambientalistas é evitar aproximações excessivas dos bandos que estão coletando materiais no solo, manter cães na guia e preservar os arbustos e gramados altos. Os canários-da-terra estão correndo contra o tempo para recuperar o mês perdido; Cabe aos frequentadores garantir o sossego do que precisa para que o Aterro continue a ser o berçário dessa população urbana colorida.

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