Os mais antigos moradores do Castelo não pagam condomínio, não constam nas atas das assembleias, mas são os legítimos donos das coberturas mais cobiçadas da Avenida Beira Mar. Há décadas, muito antes de muitos dos atuais inquilinos humanos nascerem, uma dinastia silenciosa de urubus já elegia as marquises cinzentas como lar. Dali, do alto de seus ninhos históricos que desafiam o azul da Baía de Guanabara, eles testemunham as transformações da cidade, enquanto flertam com o abismo, pousados mansamente no peitoril das janelas como velhos conhecidos da casa.
Para o morador recém-chegado, a visão de uma silhueta escura na janela pode causar um sobressalto, um eco de mitos antigos alimentados pela superstição. Pura incompreensão com quem tem tempo de casa. O urubu carrega uma dignidade que a pressa urbana costuma cegar. Dizem-no sujo, quando na verdade é um esteta da própria higiene. Passa horas em banhos de sol meticulosos nas cornijas dos prédios, esticando as asas para o astro-rei, usando o calor dos trópicos para purificar cada pena. Seu corpo é um prodígio de resistência e limpeza; ele atua como o faxineiro mais antigo e eficiente do ecossistema local, garantindo a saúde do ambiente em que todos dividem o ar.
Há uma doçura pacífica e quase tímida no convívio com esses veteranos alados. No peitoril do décimo quinto andar, onde o vento do mar bate com força, o urubu não faz barulho, não agride e não invade. Apenas pousa, com a autoridade de quem pertence àquela paisagem. Olha para dentro dos apartamentos com olhos antigos e curiosos. Quem repara bem, sem o filtro do preconceito, consegue notar a ternura profunda com que essas aves cuidam de suas linhagens nos ninhos de pedra, um contraste tocante entre a rigidez do concreto e o zelo de uma vida que se renova no mesmo endereço há gerações.
Quem limpa a alma dos estigmas herdados descobre, no topo do Castelo, uma poesia urbana permanente. Ver um desses antigos moradores abrir suas asas imensas e saltar para o vazio não é sinal de mau agouro, mas uma lição de leveza. Eles dominam as correntes térmicas do Rio de Janeiro como ninguém; planam sem esforço, desenhando silhuetas imponentes contra o crepúsculo carioca.
A rotina nos andares mais altos ganha um sentido de permanência. Entre um relatório de trabalho e um café, o humano esbarra no olhar desse vizinho de longa data. E, nesse encontro silencioso na janela, compreende que o urubu não está de passagem e nem pede licença: ele é parte da própria alma arquitetônica e natural do Castelo, convidando-nos a enxergar a beleza e o respeito onde muitos só aprenderam a ver o medo.
Segadas Vianna - jornalista



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