Na década de 1930, a Avenida Beira-Mar viveu uma profunda transição urbana e cultural, consolidando-se como o corredor da modernidade verticalizada do Rio de Janeiro. Inaugurada originalmente em 1906 pelo prefeito Pereira Passos como um sofisticado bulevar horizontal inspirado em Paris — feito a partir do entulho do desmonte parcial do Morro do Castelo —, a via passou por uma verdadeira revolução nos anos seguintes. Ela deixou de ser apenas um passeio bucólico de palacetes ecletistas para se tornar a grande vitrine do Art Déco e do Modernismo na então capital federal.
Essa transformação ficou visível logo na linha do horizonte. A partir do final dos anos 1920 e ao longo de toda a década de 1930, os casarões e palacetes de dois ou três andares começaram a dar lugar a edifícios residenciais altos de gabarito imponente. Foi exatamente nessa época que surgiram prédios icônicos como o Edifício São Miguel — que abrigou moradores ilustres como o pintor Candido Portinari e o poeta Manuel Bandeira — e seus vizinhos de quarteirão. Essas novas construções trouxeram linhas geométricas, o uso do concreto armado, pilotis e fachadas monumentais que mudaram para sempre o visual da orla carioca.
Ao mesmo tempo em que a arquitetura subia, a relação dos moradores com o espaço público se transformava profundamente através da redescoberta do mar. Se no início do século o oceano era visto com distanciamento ou apenas por recomendação médica, na década de 1930 a Avenida Beira-Mar consolidou-se como o grande palco dos novos hábitos higienistas e esportivos da cidade. O calçadão e os canteiros centrais arborizados passaram a ser intensamente ocupados por pessoas caminhando, andando de bicicleta e praticando atividades físicas ao ar livre. A proximidade com o Clube de Regatas do Flamengo e as vibrantes competições de remo na Baía de Guanabara atraíam multidões elegantes aos finais de semana.
Essa efervescência também se justificava pelo papel da região como o centro político e cultural do país. Como o Rio de Janeiro era a capital da República, morar na Avenida Beira-Mar, bem na fronteira entre o Centro e o bairro do Flamengo, significava estar a poucos minutos de caminhada do Palácio do Catete, sede da Presidência, e da Cinelândia, o fervilhante polo cultural repleto de cinemas, teatros e cafés. O próprio desenho urbano favorecia esse fluxo, transformando a avenida em um verdadeiro hub intelectual. Os artistas e pensadores que ocupavam os novos e modernos apartamentos podiam transitar facilmente a pé ou de bonde entre seus lares, as redações dos principais jornais e os pontos de encontro centrais.
Toda essa engrenagem social foi acompanhada por reformas viárias estruturais que vinham sendo desenhadas desde os anos anteriores. Em 1922, a avenida ganhou uma nova e importante conexão entre os trechos de Botafogo e do Flamengo com a abertura da Avenida Rui Barbosa, já que até então a interligação era feita exclusivamente pela Rua Oswaldo Cruz. Pouco depois, durante a gestão do prefeito Prado Júnior, entre 1926 e 1930, a via sofreu modificações definitivas na altura da Glória com a inauguração da monumental Praça Paris. Projetada pelo urbanista francês Alfredo Agache, a praça acabou executada de forma bem mais modesta do que o plano original, mas a construção de seus jardins franceses, de um imenso chafariz e de mais uma pista para os automóveis exigiu um aterro de cerca de 200 metros sobre as águas.
Apesar desse primeiro avanço de engenharia, na década de 1930 a avenida ainda fazia jus ao seu nome e permanecia literalmente colada à Baía de Guanabara. Esse cenário idílico e marítimo que Portinari e Bandeira contemplavam diariamente de suas janelas só mudaria de forma drástica décadas mais tarde, quando os massivos aterros dos anos 1950 e 1960 empurraram o mar de vez para dar origem ao atual Parque do Flamengo.


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