A aliança insurgente FLA-JNIM, no Mali, conseguirá sobreviver às suas divisões internas?

 Os dois grupos armados estão atualmente unidos na oposição ao governo, mas diferenças fundamentais podem romper os laços entre eles.


A coalizão entre a Frente de Libertação de Azawad (FLA) — afiliada à Al-Qaeda — e o Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM) foi confirmada em 25 de abril por meio de ataques coordenados a seis cidades malianas. O ministro da Defesa, general Sadio Camara, morreu no ataque, que resultou na tomada da cidade de Kidal pelos insurgentes.

Em 4 de julho, os dois grupos lançaram outra série de ataques, visando principalmente a conquista da cidade estratégica de Anéfis, situada a cerca de 100 km de Kidal. A tentativa fracassou, e atualmente eles ocupam uma área relativamente pequena na região de Kidal, abrangendo as cidades de Kidal, Tessalit e Tinzaouatène, onde mantêm suas bases.

A coalizão FLA-JNIM contra o governo do Mali e seus aliados do "Africa Corps" russo parece ter redefinido o conflito no norte do país.


Alguns analistas acreditam que essa colaboração tática está ligada a uma diretriz de 2013 de Ayman al-Zawahiri, então líder supremo da Al-Qaeda. Ele defendia a cooperação com grupos rebeldes para derrubar governos locais e substituí-los por emirados, como parte do processo de restauração do califado. Outras fontes informaram ao ISS Today que a parceria foi puramente oportunista, visando forçar o regime a negociar sobre as reivindicações dos grupos ou a derrubá-lo.

Apesar de algumas vitórias militares, a coalizão permanece frágil devido a diferenças ideológicas e objetivos divergentes entre seus integrantes.

A FLA busca um Estado laico independente em Azawad — a vasta região desértica do norte do Mali reivindicada como território por grupos separatistas armados —, enquanto o JNIM luta para estabelecer uma ordem islâmica. Embora ambos se oponham ao governo central do país, persistem suas rivalidades históricas e visões distintas para as comunidades sob seu controle.

A FLA está militarmente enfraquecida desde que se retirou de Kidal, em novembro de 2023. Isso a forçou a aliar-se aos terroristas do JNIM — mais bem armados e experientes — para retomar o controle de Kidal e recuperar o território de Azawad. As motivações do JNIM estão mais ligadas a dinâmicas de poder pessoal e local do que a qualquer vantagem militar que a FLA pudesse oferecer.


Fontes familiarizadas com a dinâmica política e de segurança do norte do Mali informaram ao ISS Today que a coalizão interessava ao líder do JNIM, Iyad ag Ghali, que se considera o líder natural dos tuaregues na região de Kidal. Suspeita-se que Ag Ghali e seu primo Alghabass ag Intalla — um líder da FLA — queiram enfraquecer a FLA e incorporá-la gradualmente ao JNIM. Isso fortaleceria a autoridade de sua tribo, os Ifoghas, no norte do Mali.

As fontes, que pediram anonimato, afirmam que isso contraria as posições de vários líderes da FLA e de outros grupos tuaregues que, há muito, se opõem às manobras de poder da tribo Ifoghas e resistem à ideologia extremista da Al-Qaeda.

A FLA parece dividida quanto aos rumos que sua coalizão com o JNIM deve tomar. O líder da FLA, Ag Intalla, defende a fusão com o JNIM — uma medida que contaria com o apoio de alguns ex-chefes do tráfico que tiram proveito da insegurança, assumindo o papel de "líderes rebeldes" para mascarar suas atividades ilícitas.

Em contrapartida, o líder da FLA, Bilal ag Acherif, e seu círculo próximo limitam seus vínculos com o JNIM a uma coordenação militar tática, preservando sua identidade como um movimento político-militar que luta pelos direitos da comunidade. Eles temem que uma aliança com um grupo terrorista possa manchar sua causa política.

Essas divergências fundamentais tornam a aliança incerta. Alguns líderes da FLA acreditavam que poderiam utilizar o JNIM e depois se distanciar do grupo assim que Azawad fosse conquistado. No entanto, é pouco provável que o JNIM permita que isso aconteça. O grupo provavelmente aproveitaria os conflitos resultantes para expulsar a FLA, tal como ocorreu em 2012, quando jihadistas se voltaram contra os separatistas tuaregues e os forçaram a deixar o território.

Caso as Forças Armadas do Mali e seus aliados consigam estabilizar a situação e retomar o controle das cidades perdidas — particularmente Kidal —, a aliança militar entre a FLA e o JNIM poderá estagnar. A coexistência dos dois grupos armados na área restrita ao redor de Kidal poderia reacender antagonismos pessoais ou tribais e a disputa pelo controle de rotas de tráfico, levando potencialmente a uma ruptura.

Outro fator que questiona a solidez da aliança é a posição dos combatentes fulanis da Katiba Macina, o grupo islamista mais ativo dentro da JNIM. Esses combatentes possuem suas próprias aspirações políticas, baseadas no império teocrático fulani de Macina — criado em 1818 no centro do Mali —, as quais diferem dos objetivos de independência de Azawad defendidos pela FLA.

O vínculo entre os combatentes fulanis e tuaregues da JNIM depende inteiramente da relação pessoal entre o líder jihadista fulani Hamadoun Kouffa e Ag Ghali, da JNIM; no entanto, as agendas de cada grupo são distintas, afirmou uma liderança tuaregue ao ISS Today.

A "jihad" dos fulanis visa defender seus interesses territoriais e políticos nas regiões central e sul do Mali. Eles não parecem dispostos a lutar pela causa separatista dos tuaregues e árabes de Azawad, diz ele. Caso os laços entre os combatentes tuaregues da JNIM e a FLA se fortaleçam, os fulanis da Katiba Macina poderão se desvincular da JNIM para concentrar-se em sua própria luta.

A fragilidade da aliança entre a FLA e a JNIM, contudo, não diminui a gravidade da ameaça que ela representa para a segurança do Mali. Os dois grupos continuarão sua batalha contra as Forças Armadas do Mali nas áreas desérticas do norte, cientes de que têm mais a ganhar com a colaboração do que com a competição.

No entanto, as divergências de ideologia e objetivos podem limitar a sustentabilidade e as chances de sucesso da coalizão.


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