Ouro, álcool, drogas, e organizações criminosas se misturam em uma mistura mortal na Amazônia


 Ela caminhava com a família perto de uma mina de ouro conhecida localmente como “Seis”, próxima a Cururu, Serra da Borda, uma das aldeias do território que abriga mais de 200 indígenas do subgrupo Katitaurlu do povo Nambikwara. Quando viu o garimpeiro pela primeira vez, ele já a apontava à distância, “com uma luz vermelha, como uma mira a laser”, conta K.

Ao perceber que ele estava armado, a jovem se escondeu em um buraco. Vários homens a perseguiram, mas ela e sua família conseguiram escapar e voltar para a aldeia. “Queriam matá-la, a chamaram de criminosa. Mas ela não estava roubando nada, estava apenas caminhando, dando um passeio. Não temos para onde ir. Os verdadeiros criminosos são eles, os que invadem a terra do nosso povo”, diz K.

“Eles usam máscaras. Carregam espingardas calibre 12, rifles, armas pesadas. Eu os vi várias vezes”, diz K., 24, moradora do Território Indígena Sararé, no Mato Grosso, sudoeste do Brasil, perto da fronteira com a Bolívia. Certa tarde de março, deitada em uma rede enquanto esquentava o almoço em uma fogueira, ela olhou para o alto da serra, na direção da floresta onde fica a mina Cururu. O Comando Vermelho, um dos grupos criminosos organizados mais poderosos do Rio de Janeiro, controla a área. “Alguns são traficantes, outros são membros do Comando Vermelho. Às vezes a gente se depara com eles. Eu os vi este ano. Às vezes eles vêm e perguntam por alguém. Eles sempre vão armados até a aldeia do meu pai, viajando pela estrada à noite, puxando escavadeiras hidráulicas”, acrescenta. K., que pediu para não ser identificado por medo de represálias, afirma que o ataque à jovem ocorreu em 2024, em uma área particularmente densa da floresta do Sararé, que registrou mais desmatamento naquele ano do que qualquer outro território indígena no Brasil. O garimpeiro, um soldado do Comando Vermelho, apontou seu fuzil para sua ex-cunhada, uma jovem indígena.


A região rica em ouro começou a ser explorada pelos portugueses já no século XVIII. Posteriormente, foi seguida por madeireiros em busca de mogno e garimpeiros com motores, jatos d'água de alta pressão e escavadeiras hidráulicas, que devastam grandes extensões da floresta tropical em poucas horas.

Segundo o ex-chefe de proteção ambiental e atual presidente interino do Ibama, Jair Schmitt, a corrida do ouro na região ganhou impulso a partir de 2023, quando o governo Lula realizou operações de despejo visando garimpos em outros territórios indígenas do país, como os Yanomami em Roraima e os Kayapó no Pará. “As autoridades estão reprimindo as operações de mineração, interrompemos as operações de mineração nos territórios Kayapó e Yanomami, então mais grupos do crime organizado estão tentando se estabelecer em outros lugares”, diz ele. Como em Sararé.

O comissário Éder Rocha, chefe da delegacia da Polícia Federal em Cáceres – cuja jurisdição abrange a área de mineração de ouro, mas que está localizada a 300 quilômetros do local – compartilha da mesma opinião. A delegacia é responsável por investigar crimes cometidos em Sararé. “Em resposta à intensificação da fiscalização no norte, particularmente no Território Yanomami, os garimpeiros começaram a se deslocar para o sul e descobriram ouro aqui”, afirma. “Nos últimos três anos, o negócio decolou. Se você comparar imagens de satélite de três anos atrás com as de hoje, fica claro. Antes, era possível ver a floresta tropical; agora, só se vê terra e lama. É um cenário de destruição. Uma enorme quantidade de ouro está sendo extraída de lá.”

O uso de máquinas pesadas para escavar rios e florestas em busca de ouro tem causado impactos ambientais devastadores.

Dos 67.000 hectares do Território Indígena Sararé, 4.200 foram afetados pela mineração ilegal até o momento, segundo o governo brasileiro.

Como observou o Comissário Rocha, a dimensão dos danos pode ser vista em imagens de satélite e sobrevoos, como o realizado pela InfoAmazonia em 2024.

Vastas extensões de densas florestas tropicais foram transformadas em enormes crateras cheias de lama.

Um vereador do município de Conquista D’Oeste, Sergio Beck, trabalha como professor e missionário religioso no território Sararé desde 1998. Ele observou a chegada em massa de garimpeiros à região durante operações de fiscalização nos territórios Kayapó e Yanomami. “As máquinas invadiram a área”, diz ele. Garimpeiros também apareceram em massa. “Eram verdadeiras ondas. Um grupo chegava, outro vinha logo em seguida, e as máquinas não paravam de chegar.” Beck afirma ter visto escavadeiras hidráulicas operando nas áreas vizinhas desde pelo menos o início do governo Bolsonaro. Eleito em 2018, o ex-presidente Jair Bolsonaro – cujo pai, Percy Bolsonaro, explorou ouro em Serra Pelada, um importante polo de mineração no Pará na década de 1980 – defendeu a mineração em terras indígenas.


Na mina Cururu – um reduto do Comando Vermelho, segundo as autoridades – o impacto também é sentido no subsolo. Os garimpeiros cavam túneis de até 150 metros de profundidade nas terras altas. Uma vez lá dentro, os garimpeiros usam dinamite e explosivos em gel para explodir a montanha e extrair ouro da rocha triturada.

Diversas empresas estão buscando autorização para explorar e minerar no Território Indígena Sararé, incluindo a MT Borges Terraplanagem, que solicitou à Agência Nacional de Mineração (ANM) permissão para operar na área. A empresa está registrada em nome de Wanderlan Borges Godoy, conhecido como Mutum. Em setembro de 2022, ele foi acusado de matar a tiros José Reginaldo Azevedo, conhecido como Zezinho, depois que os dois beberam juntos na mina Cururu, nas primeiras horas da manhã.

Em 2024, já estava claro que a destruição causada pelos garimpeiros ilegais estava se espalhando por grandes extensões do território indígena. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil registrou 2.865 hectares de desmatamento dentro do território demarcado naquele ano – um número 260% maior do que os 11 hectares registrados quatro anos antes, em 2020.

Nos últimos seis anos, entre 2020 e 2025, um total de 4.932 hectares de floresta foram desmatados no Território Indígena Sararé.

À medida que surgiam relatos de que o Comando Vermelho e outros grupos criminosos – incluindo uma gangue formada por policiais militares – estavam intensificando seus esforços para extrair ouro, a destruição ambiental também aumentou.

Os municípios de Pontes e Lacerda, Vila Bela da Santíssima Trindade, Nova Lacerda e Conquista D’Oeste – todos próximos ao Território Indígena Sararé – estão entre os 662 na Amazônia (67% do total analisado) afetados pela presença de facções criminosas e grupos armados, segundo o mapeamento do submundo amazônico, atualizado com dados de seis países amazônicos até 2025.


Ricos em ouro, esses municípios estão hoje cobertos por pastagens para gado e vastas plantações de soja. Grandes proprietários de terras do agronegócio, incluindo as famílias Maggi e Sanches Tripolini, possuem fazendas ao longo de estradas secundárias que levam aos depósitos de ouro. A expansão da mineração de ouro, presente na área desde os tempos coloniais, é visível na proliferação de lojas de equipamentos e comércios de compra de ouro, bem como lavanderias que atendem garimpeiros nas cidades, que geralmente exibem a insígnia do grupo armado que controla a região: CV. Investigações recentes da Polícia Federal em Cáceres revelaram, por exemplo, que um capitão da Polícia Militar do Pará administrava uma mina de ouro dentro do território indígena. Policiais militares do Mato Grosso também estão envolvidos na extração ilegal de ouro. “O Comando Vermelho chegou e rapidamente afastou os indígenas, mas quando tentaram tomar as minas dos policiais, houve mais resistência. Foi aí que a violência aumentou”, afirma o Comissário Rocha. “Eles lutaram para confrontar os policiais que eram donos das minas.”

Ele afirma que muitas pessoas morrem nas minas da Reserva Indígena Sararé. “A situação lá é muito violenta. Ouvi dizer que existe um cemitério perto da mina. Pessoas são mortas lá”, diz o comissário. De tempos em tempos, corpos são jogados na beira da estrada para que os policiais não precisem entrar na mina para recolhê-los. Alguns dos garimpos ficam próximos a grandes propriedades rurais utilizadas para o cultivo de soja, o que às vezes dificulta o acesso da polícia.

Em Sararé, outros grupos de garimpeiros ilegais também atuam, incluindo o “Boi na Brasa”, um grupo familiar de Itaituba, no Pará. O grupo atuava anteriormente no ramo de restaurantes antes de se dedicar à mineração ilegal de ouro, que os fiscais do Ibama consideram a operação de mineração mais sofisticada da Amazônia. Espalhados pela Amazônia brasileira, no Pará e no Mato Grosso, os garimpeiros desse grupo são mais eficientes do que qualquer outra facção, capazes de extrair mais ouro em menos tempo, segundo um funcionário do Ibama.

Fontes da polícia e da inteligência brasileiras disseram que há investigações em andamento para determinar o destino do ouro extraído de Sararé, com indícios de que ele está sendo enviado para a Bolívia e a Venezuela, onde é lavado.

Nos altos escalões do Ibama, a expansão para a Amazônia de facções originárias do sudeste do Brasil, como o CV, é vista como uma prática consolidada. “Na Amazônia, os grupos do crime organizado têm uma presença crescente em áreas de mineração artesanal”, afirma Jair Schmitt. Os fiscais do Ibama percebem isso quando abordam suspeitos de garimpo ilegal cujas mãos não apresentam calos, às vezes com vestígios de óleo sob as unhas. Essas são frequentemente as mãos de seguranças que trabalham para o Comando Vermelho, com os dedos pegajosos devido ao lubrificante que escorre de seus fuzis.

Policiais e autoridades entrevistadas para esta reportagem concordam que o Comando Vermelho gradualmente estabeleceu uma base nas minas de Sararé, primeiro vendendo drogas e depois fornecendo segurança a garimpeiros ilegais que buscavam defender suas áreas de outros garimpeiros, invasores e, às vezes, até mesmo da polícia. Hoje, a facção controla seus próprios "cavas de mineração", como diz o Cacique Z, ou líder comunitário indígena. "Há cerca de quatro anos, houve um aumento no armamento pesado", diz ele. "Você andava pela mata e ouvia motores funcionando, via garimpeiros carregando armas. Eles nem são garimpeiros, são membros do Comando Vermelho, que tomou conta do território."


Os dois maiores grupos criminosos do Brasil, o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC, originário de São Paulo), estão sendo monitorados de perto pelas autoridades americanas. Em 28 de maio, o governo Trump anunciou sua decisão de designá-los como organizações terroristas, uma medida rejeitada pelo governo Lula, que pediu respeito à soberania do Brasil.

Em Sararé, o Cacique Z. diz que também viu membros da facção. “Você vê uns trinta ou quarenta soldados. Eles os chamam de ‘soldados’, né? Dá para ouvir tiros”, diz ele. “O Comando viu aquele ouro e montou um ponto só para eles.” Agora, ele conta, é comum caminhar por trilhas na mata e encontrar as iniciais da facção carioca entalhadas nas árvores: CV.

Os caminhos levam a um número crescente de garimpos: Cururu, Grota da Taca, Fofoquinha. Esses três são redutos do Comando Vermelho. Depois há o Dez. Oito. Doze. Quatorze. Seis. Quatro. Três. O garimpo do Cururu é o que se expande mais rapidamente. No interior da Serra da Borda, fugitivos da polícia se abrigam ao lado de garimpeiros tradicionais, segundo fontes indígenas. Há também uma pequena plantação de maconha por lá.

“Eu vi gente encapuzada lá em cima, às vezes usando proteção, coletes à prova de balas”, diz G., um líder indígena que pediu para não ser identificado e que já recebeu ameaças de morte de garimpeiros ilegais em mais de uma ocasião. “Eles se moviam pela mata com facões procurando lugares para garimpar ouro. A gente não podia fazer nada. Se alguém tentasse segui-los, eles atiravam nas árvores só para assustar.” G. diz que viu garimpeiros encapuzados várias vezes no garimpo da Catorce. “Dá medo, né?”, diz ele.

O medo também deriva de uma história marcada por ameaças. Na década de 1990, houve conflitos entre o povo Nambikwara e madeireiros. O patriarca dos Katitaurlu, Américo Katitaurlu, que já faleceu, passou grande parte da sua vida mancando depois que madeireiros torturaram membros da sua comunidade, espancando-os, chamando-os de “porcos” e amarrando-os a árvores por dias a fio, conta o conselheiro Sergio Beck. Mais tarde vieram as ameaças de garimpeiros ilegais que buscavam explorar as riquezas da floresta.

Na delegacia da Polícia Federal em Cáceres, investigadores analisaram uma vez uma ligação telefônica grampeada na qual um garimpeiro ilegal afirmava que uma escavadeira hidráulica poderia produzir 150 mil reais em ouro por dia (cerca de 30 mil dólares), deixando um lucro líquido de 80 mil reais (cerca de 16 mil dólares) no final do dia, diz o comissário. “Ele agora possui três pás carregadeiras, cada uma avaliada em um milhão de reais (cerca de US$ 200.000). As máquinas operam 24 horas por dia”, diz Rocha. Nem todos os garimpeiros ilegais, no entanto, têm acesso a esses recursos, e alguns acabam trabalhando para outros.

Em março, Orlean Maranhão, de 39 anos, passou 28 dias na mina Fofoquinha trabalhando para um homem que havia contratado outros três trabalhadores. Ele teve que sair às pressas devido a uma grande operação federal de despejo, liderada pelo governo brasileiro, órgão vinculado à Casa Civil da Presidência da República, que estava em andamento enquanto conversávamos.

Sentado no terminal rodoviário de Pontes e Lacerda, ele conta: “De cada 20 gramas que extraíamos, eu ficava com um grama e meio. O resto ia para o chefe e o resto da equipe”. Ele gastava um grama em cerca de 40 minutos com uma das garotas de programa da mina e pagava o equivalente a 50 reais (US$ 10) por cada garrafa de cerveja. Muitas pessoas, acrescenta, se esconderam ao redor da mina. Comida era enterrada ali, uma prática comum entre os garimpeiros durante operações de fiscalização, usada para ocultar suprimentos e evitar que fossem destruídos pela polícia.

Na primeira semana de maio, o governo federal anunciou a descoberta de 23 acampamentos de mineração ilegal após um mês de batidas diárias no Território Indígena Sararé. A operação resultou na apreensão de 90 mil litros de óleo diesel, além de 190 geradores, 441 motores de mineração e 971 quilos de explosivos.

Após a operação, muitos garimpeiros ilegais deixaram as minas de Sararé. A Força Nacional de Segurança Pública do Brasil instalou postos de controle ao redor do território indígena. Às 6h da manhã, Antonio Jorge, de 53 anos, que tem dois dentes de ouro, explicou a um policial que seu irmão ainda estava na mina. "Vim buscá-lo", disse ele. Perto dali, um motorista da Urbano Norte, um aplicativo de transporte por aplicativo que opera na região, diz que cobra 250 reais (US$ 50) por uma viagem até a cidade. Quatro passageiros cabem no carro, elevando a tarifa para 1.000 reais por viagem. Ele conta que, no dia anterior, havia dado carona a quatro garimpeiros. Segundo estimativas de líderes indígenas da Associação Katitaurlu, cerca de 5.000 garimpeiros ilegais viviam recentemente nas minas dentro de seu território. Em 27 de março, entre 7h e 19h, a polícia em um dos postos de controle parou 183 carros, 22 motocicletas, 14 caminhões e 784 pessoas.

Nilton Peres de Assis, 43, conhecido como “Charada”, também conseguiu chegar ao terminal rodoviário de Pontes e Lacerda com os dois pés feridos enquanto fugia da polícia. Filho de um garimpeiro, ele passou 19 dias na mina Cururu. Deixou seu ouro – 27 gramas, segundo seu relato – enterrado perto de uma árvore na mina. Ele perdeu parte de uma orelha, resultado de um golpe de um guarda prisional com a coronha de uma arma enquanto cumpria pena por um triplo homicídio. “Matei, infelizmente. Três pessoas. Com uma pistola calibre .40. Eles me ameaçaram em Vilhena”, conta. Em Cururu, Charada esperava trabalhar por conta própria, mas diz que a facção criminosa o ameaçou. “O Comando Vermelho está lá”, afirma. “Esses caras são problemáticos – dificultam a nossa vida. Já estão exigindo extorsão. Agora, estão levando 8%. Mas esses pestes continuam aumentando, logo chegará a 20%. Não se tem paz. Estão sempre fazendo perguntas, sempre de olho em você. Quando não é a polícia, é o Comando Vermelho.”

Tiros na noite

Em outubro do ano passado, a unidade da Amazônia da Polícia Federal (Damaz) interceptou uma mensagem de WhatsApp enviada pelo Comando Vermelho do Mato Grosso para garimpeiros na região de Alta Floresta, no norte do estado. A mensagem exigia pagamentos em ouro e obrigava os garimpeiros a se registrarem na facção criminosa.

“O Comando Vermelho monopolizou o crime no estado, eles dizem que tudo o que é ilegal pertence a eles”, disse um agente da Damaz que falou sob condição de anonimato. O Comando Vermelho está presente em 139 dos 141 municípios investigados pela Amazon Underworld no estado do Mato Grosso em 2025.

O modus operandi do grupo instaurou o medo em todo o território Sararé. “A mina Cururu começou a operar em 2019”, disse a professora Y., que pediu para não ter seu nome verdadeiro divulgado por motivos de segurança. Ela mora e leciona em uma das aldeias próximas à mina.

Apontando para uma trilha rochosa na encosta, ela explicou que essa é a rota usada pelos garimpeiros ilegais que chegam de Cururu em seus quadriciclos. De tempos em tempos, os moradores indígenas bloqueiam o caminho com galhos e troncos para impedir a entrada dos invasores, disse ela.

Em 2019, ela lembra, os moradores começaram a ouvir música alta, explosões de dinamite, motores e tiros vindos da nova mina. Sete anos depois, o barulho não diminuiu. “Ouvimos muitos tiros”, disse S., sentada em uma cadeira velha cercada por mulheres indígenas, enquanto filhotes de macaco-aranha descansavam ao lado de cães sonolentos no chão de terra batida sob um abrigo feito de palha de açaí. “Ouvimos tiros o tempo todo. Muitos deles. Ouvimos o tempo todo.” O povo indígena Katitaurlu às vezes brinca de identificar armas pelo som dos tiros. “Revólver. Espingarda. Rifle”, relatou a professora.

“2024 foi terrível. Eles chegaram muito perto”, disse ela. Então, em novembro de 2025, enquanto trabalhavam em um milharal no Território Sararé, as mulheres da aldeia ouviram tiros novamente. “Muito perto de nós. As araras começaram a gritar.” “Não dá mais para se movimentar livremente, é preciso ter cuidado, sempre de olho nos garimpeiros. As mulheres se escondem, têm seus próprios jeitos de se locomover sem fazer barulho. Sempre que saem, precisam ter muito cuidado.” S. fez uma pausa. “Aliás, ontem à noite mesmo ouvi tiros”, disse ela.

Desta vez, porém, os tiros podem ter vindo de helicópteros com agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) que participavam de uma grande operação, atirando nas árvores para expulsar as pessoas das minas.

Com o apoio do Exército, a grande operação prendeu 81 garimpeiros até 30 de março. A maioria foi liberada durante audiências de custódia ou pagou fiança, segundo a Polícia Federal em Pontes e Lacerda. Dias antes de ser iniciada, a operação de despejo foi anunciada nas redes sociais. No TikTok, multiplicaram-se vídeos mostrando barracas do exército no local. “Eles ficam sabendo pelo rádio quando a inspeção vai chegar”, disse um defensor público brasileiro, que falou sob condição de anonimato.

A força-tarefa central para a expulsão dos invasores, liderada pelo chefe do governo brasileiro, Nilton Tubino, foi instalada na mineradora São Francisco, localizada ao lado das minas dentro do Território Indígena Sararé. A empresa, que atua na mineração de ouro, pertence à família Torres, cujo patriarca, Wanderly Facheti Torres, é sócio do governador do Mato Grosso, Mauro Mendes, do partido União Brasil, de oposição ao governo Lula.

Mendes, por sua vez, é sócio da Maney Participações com Valdinei Mauro de Souza, conhecido como Nei Garimpeiro, um dos financiadores das campanhas eleitorais de Jair Bolsonaro. Bilionário e proprietário de aeroporto, de Sousa foi investigado por supostamente comprar mais de 300 quilos de mercúrio de contrabandistas. O caso permanece sem solução. A Maney Participações é uma joint venture entre Wanderley Torres e Valdinei de Souza na empresa Mineração Tirirical, registrada às margens da rodovia Transgarimpeira, em Itaituba.

Mauro Mendes deixou recentemente o governo estadual para concorrer a uma vaga no Senado nas eleições de outubro. No Congresso, diversos projetos de lei estão em discussão para regulamentar a mineração em terras indígenas. Em abril de 2025, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, criou um grupo de trabalho para estudar o assunto. No Supremo Tribunal Federal, o ministro Flávio Dino estabeleceu um prazo de dois anos para que o Congresso regulamente a exploração e extração mineral nesses territórios.

Em uma tarde de março, enquanto patrulhava uma estrada secundária ao lado de agentes da Força Nacional de Segurança Pública do Brasil, o coordenador da operação em larga escala, Nilton Tubino, contou ao Amazon Underworld que quatro helicópteros sobrevoavam a reserva indígena diariamente naquela semana.

“Esses helicópteros passam o tempo todo, mal conseguíamos dar aulas por causa deles. Eles voam muito baixo e as crianças ficam muito nervosas”, diz a professora S. No entanto, o incômodo causado pelos helicópteros não se compara à perturbação que a mineração trouxe nos últimos anos.

S. conta que as aulas ao ar livre com as crianças — coleta de frutas e aprendizado sobre a floresta — tiveram que ser suspensas. A caça, a pesca e a outrora abundante coleta de mel e materiais para artesanato não existem mais. A água do rio Sararé e seus afluentes, antes cristalina e azul, agora está turva e barrenta. Os juncos usados ​​para fazer arcos e flechas desapareceram. As mulheres Katitaurlu não conseguem mais encontrar fibra de babaçu para tecer as cestas usadas para transportar a mandioca na época da colheita. “Saíamos para caçar e encontrávamos garimpeiros armados com rifles”, diz o cacique G. Os casamentos nas aldeias têm se desfeito porque pessoas de fora trouxeram mulheres de outros lugares, interrompendo os relacionamentos, diz o estudante K.

O fornecimento de drogas e álcool aos jovens indígenas tornou-se um problema sério. “Agora, o professor está lá sem um único aluno do ensino médio”, diz o professor S. na aldeia. “Alguns vão embora, outros vão para as minas, bebem cachaça. Alguns dias eles vêm, outros não.” Em agosto de 2024, um estudante indígena sofreu uma overdose e morreu na aldeia Serra da Borda. Em outra ocasião, a enfermeira da aldeia fez lavagem estomacal em duas meninas e conseguiu evitar que elas morressem da mesma forma. “Às vezes eles colocam veneno na bebida. Eles vendem drogas”, diz K.

Entre 2019 e 2023, foram registrados 105 homicídios em Pontes e Lacerda, o maior município próximo ao território Sararé. Setenta e quatro delas (70% do total) envolviam armas de fogo.

Devido à violência, alguns jovens adolescentes da comunidade Nambikwara começaram a pintar seus corpos inteiros de preto, da cabeça aos pés, com genipap — o fruto da árvore jenipapo — e a se aventurar nas minas de ouro. “Eles vão usando apenas roupa íntima, pintados por todo o corpo, com apenas os olhos e a boca à mostra”, diz um líder que pediu para não ser identificado.

Em outubro do ano passado, quando um tiroteio entre oficiais do Ibama e garimpeiros eclodiu na mina de Cururu, os adolescentes observaram de perto. Tendo passado tanto tempo observando as minas, eles sabiam exatamente em quais cabanas as armas estavam escondidas. Quando os garimpeiros fugiram, deixaram para trás rifles e espingardas. Os jovens pegaram as armas e as esconderam na floresta. “O que um indígena pensa? Vou pegar essas armas. Se eles entrarem em nossa terra, nós os atacaremos também”, diz o cacique Z., a quem a Funai pediu ajuda para localizar as armas. “Agora a polícia está constantemente patrulhando aqui por causa dessas armas. Não sei se pertencem ao Comando Vermelho ou aos garimpeiros.”

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