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| Chiquito Malo |
O caso de ‘Chiquito Malo’, líder do Clã do Golfo e considerado um “alvo de alto valor” pelo governo dos Estados Unidos, colocou as negociações em uma situação crítica. Otty Patiño o incluiu na lista de pessoas que seriam transferidas para as áreas designadas, uma decisão que o presidente anulou. Há alguma saída à vista?
Já se passaram alguns meses desde que o presidente Gustavo Petro se sentou no Salão Oval da Casa Branca e se comprometeu com seu anfitrião, Donald Trump, a caçar três narcotraficantes considerados pelo governo dos EUA como “alvos de alto valor”: ‘Chiquito Malo’, do Clã do Golfo; ‘Iván Mordisco’, dissidente das FARC; e ‘Pablito’, do ELN. Desde aquela reunião, realizada em 3 de fevereiro, os resultados não foram os esperados. Os três continuam foragidos e, além disso, intensificaram suas atividades criminosas. Somou-se à frustração natural pela falta de resultados positivos a perplexidade das últimas horas, expressa em uma mensagem publicada na conta do Twitter da Embaixada dos EUA em Bogotá, apresentando silhuetas de várias figuras sombrias e a palavra "Designados" em letras vermelhas, juntamente com os nomes de grupos que os EUA consideram organizações terroristas, incluindo o Clã do Golfo. O lembrete foi publicado horas depois do anúncio da suspensão dos mandados de prisão e extradição contra "Chiquito Malo" e outros 28 membros desse grupo, que se alimenta do narcotráfico e, para se dar uma aparência política, mudou seu nome para Autodefesas Gaitanistas da Colômbia (AGC). As primeiras reações a essa decisão do Escritório do Alto Comissariado para a Paz, chefiado por Otty Patiño, vieram de muitos dos candidatos à presidência, que reiteraram sua promessa de que, se eleitos para a Casa de Nariño (o palácio presidencial), poriam fim ao que consideram leniência excessiva em relação a grupos armados ilegais que — segundo eles — saíram do controle no âmbito do Acordo de Paz Total. Essas foram demandas veementes que passaram quase despercebidas em meio à campanha eleitoral, na qual ataques verbais contra o governo tendem a ter impacto limitado, já que o presidente responde rapidamente com argumentos que, por mais controversos que sejam, encontram eco em seus apoiadores, que se unem para defendê-lo.
A Perspectiva de Washington
O fator diferenciador neste caso é que Washington também faz parte da equação. E não apenas pela pressão que pode exercer sobre a Casa de Nariño, mas porque os Estados Unidos estão diretamente envolvidos nessa estratégia que busca neutralizar um homem que experimentou um crescimento exponencial no mundo do crime. Durante a visita de Petro a Trump, isso ficou evidente em declarações como a do Ministro da Defesa, Pedro Sánchez, que afirmou que agora contam com o apoio dos Estados Unidos para localizar “Chiquito Malo” e que ações conjuntas permitiriam “interagir com maiores recursos de inteligência”. Diante dessa situação, o presidente Petro tentou se retratar e afirmou que jamais autorizou a inclusão de indivíduos com pedidos de extradição na lista de membros do Clan del Golfo que seriam transferidos para centros de detenção temporária como parte do processo de negociação com o governo. A resolução apresentada pelo gabinete de Patiño solicitava a suspensão dos mandados de prisão e extradição contra esse grupo de membros do Clan del Golfo, incluindo 13 indivíduos procurados pelos Estados Unidos. Jobanis de Jesús Ávila, vulgo Chiquito Malo, estava na lista. Contudo, a situação, longe de melhorar, pode piorar. Por quê? Porque, em negociações com grupos armados acostumados a operar à margem da lei, o fator mais decisivo para o progresso é a confiança que depositam no Estado e em sua capacidade de cumprir a palavra.
A Hora do Caos
Esta situação revela uma profunda falta de coordenação entre as diversas instituições governamentais diretamente envolvidas na política de Paz Total. O Alto Comissário toma uma decisão no âmbito de uma mesa de negociações que tem progredido sistematicamente; então, a Procuradoria-Geral da República entra em cena e reverte ou se recusa a implementar essa decisão. Até este ponto, pareceria um desastre entre diferentes entidades estatais. Mas quando o próprio presidente expressa publicamente sua insatisfação e afirma que não foi informado dessas decisões, o problema assume outra dimensão. "Isso acaba afetando diretamente o processo, pois certamente amplifica qualquer percepção ou sentimento de incerteza jurídica, já que não há clareza sobre se o governo apoiará as decisões que toma no âmbito das negociações. Isso mina a seriedade da possibilidade de continuidade e enfraquece a palavra do Estado diante dos acordos que consigo firmar com esse grupo armado”, afirma o professor e especialista em conflitos Luis Trejos. Este é, sem dúvida, o maior obstáculo às negociações que começaram formalmente em setembro de 2025 em Doha, com o Catar, a Espanha, a Noruega e a Suíça atuando como mediadores. As declarações conjuntas foram assinadas na capital catariana por Álvaro Jiménez, representando o governo, e por Luis Armando Pérez, como representante do Clã do Golfo. Mas, é claro, é natural que nada se faça nesse grupo ilegal sem a aprovação do “Chiquito Malo” (Pequeno Mau). O processo tem sido alvo de muitas críticas em um país onde o narcotráfico está enraizado no imaginário coletivo como a expressão mais degradante da criminalidade. Para mitigar esse impacto, foi denominado Espaço de Diálogo Sociojurídico (ECSJ), uma estrutura diferente das mesas de diálogo político utilizadas com o ELN ou os dissidentes das FARC, já que o governo não reconhece o status político do grupo. Jiménez foi enfático ao afirmar que o objetivo do processo é a completa desmobilização da organização e, diferentemente de outros acordos de paz, como o firmado com as FARC, haverá penas de prisão para os principais líderes. “Um aspecto que discutimos com muita precisão é que haverá prisão.” Ele também esclareceu que o debate se concentra exclusivamente nas condições e locais de confinamento. O problema reside na situação atual. O cronograma estabelece que a transferência dos combatentes para as zonas de realocação temporária começará em 25 de junho, ou seja, após o segundo turno das eleições presidenciais, o que significa que o novo governo herdará um grande problema.
Caso Iván Cepeda vença as eleições, é razoável supor que o processo continuará, pois o candidato do Pacto Histórico não só foi um dos arquitetos do Acordo de Paz Total, como também teria a tarefa de dar continuidade a diversas iniciativas promovidas por Petro. O problema surgiria se Paloma Valencia ou Abelardo de la Espriella vencessem, pois já avisaram que, a partir de 7 de agosto, encerrariam todas as negociações. Esta não é uma questão menor. Há três Zonas de Localização Temporária (ZLTs), todas localizadas no noroeste do país. Inicialmente, elas vigorarão até 31 de dezembro; estarão localizadas em áreas rurais dos municípios de Belén de Bajirá e Unguía, em Chocó, e Tierralta, em Córdoba, embora sua influência se estenda a outros departamentos. Belén de Bajirá, por exemplo, é um corredor estratégico para o narcotráfico, localizado na fronteira entre Chocó e Antioquia, enquanto Unguía é um município que faz fronteira com o Panamá. A ideia era que, dentro dessas zonas, a execução de mandados de prisão, inclusive para fins de extradição, fosse suspensa, mas apenas para os indivíduos incluídos nas listas aceitas pelo Gabinete do Comissário da Paz. A Missão da OEA para o Apoio ao Processo de Paz (MAPP-OEA) ficará encarregada do mecanismo de monitoramento e verificação, em coordenação com o Gabinete do Comissário para a Paz e o Ministério da Defesa.
O chefe de todos os chefes
“Chiquito Malo”, por quem o governo oferece uma recompensa de 5 bilhões de pesos, lidera esta organização com mão de ferro, especialmente após a morte de José Gonzalo Sánchez, vulgo Gonzalito, segundo em comando, que faleceu em 31 de janeiro em um acidente fluvial em Tierralta. Naquela época, a liderança se reorganizou: vulgo Richard (Wilmar Mejía Úsuga) e vulgo Flaco Monseñor (José Alberto Vega Albarán) ingressaram no Estado-Maior Conjunto. “Richard” agora é o quarto em comando e lidera o Bloco Central de Urabá, com mais de 1.000 homens sob seu controle.





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