O Assassinato que levou 20 anos: Espiões, Oportunidades Perdidas e um Momento Final

 


Antes de Osama bin Laden se tornar o rosto global do terrorismo transnacional, havia outra figura – mais esquiva, menos teatral, mas indiscutivelmente mais influente na evolução da guerra de guerrilha moderna. Era Imad Mughniyeh.

Enquanto enviados americanos instam Israel e Líbano a abraçarem o que Washington chama de uma "oportunidade histórica" ​​para a paz, as sombras de uma era mais antiga e sangrenta pairam teimosamente sobre a mesa de negociações, pois, no início das conversas, o Hezbollah sinalizou sua discordância com novos ataques. O conflito agora se estende do sul do Líbano ao Estreito de Ormuz, onde um bloqueio naval dos EUA aumentou a pressão sobre o Irã.

A guerra é moldada não apenas por cálculos atuais, mas por homens que construíram a arquitetura da guerra assimétrica moderna décadas atrás.

Antes de Osama bin Laden se tornar o rosto global do terrorismo transnacional, havia outra figura – mais esquiva, menos teatral, mas indiscutivelmente mais influente na evolução dos ataques de guerrilha ou terroristas modernos.

Seu nome era Imad Mughniyeh. De acordo com o Conselho de Relações Exteriores, antes do 11 de setembro, Mughniyeh era considerado responsável pela morte de mais americanos do que qualquer outra pessoa.

Por mais de duas décadas, ele foi o fantasma que assombrou as agências de inteligência de Washington a Tel Aviv. Seus assassinos precisariam de anos para encontrá-lo, paciência para rastreá-lo e contenção – rara naquele mundo – para matá-lo.

O Homem Que Nunca Esteve Lá


Para entender o assassinato de Mughniyeh em fevereiro de 2008, é preciso primeiro entender por que os EUA demoraram tanto para excluí-lo da lista.

Nascido no sul do Líbano em 1962, Mughniyeh cresceu em meio à guerra civil e à intervenção estrangeira. Em 1976, ele se juntou às forças leais a Yasser Arafat, trabalhando como atirador de elite nas fileiras palestinas. Mas sua trajetória logo divergiria. No início da década de 1980, enquanto Israel invadia o Líbano e o Irã buscava exportar seu modelo revolucionário, Mughniyeh emergiu como uma figura fundadora do que se tornaria o Hezbollah.

Os ataques atribuídos a ele na década de 1980 remodelaram a estratégia de grupos militantes em todo o mundo. Em abril de 1983, o atentado à bomba contra a embaixada dos EUA em Beirute matou 63 pessoas. Meses depois, ocorreram os devastadores atentados com caminhões-bomba que atingiram fuzileiros navais americanos e paraquedistas franceses, matando 241 militares americanos e 58 soldados franceses. O atentado suicida, então uma tática pouco compreendida, tornou-se repentinamente e horrivelmente eficaz em todo o mundo.

Um ex-chefe de estação do Mossad, Eliezer Tsafrir, recordaria mais tarde, em uma entrevista, observar as consequências de um telhado em Beirute — colunas de fumaça subindo, sirenes cortando o caos e a crescente percepção de que algo fundamental havia mudado na guerra urbana.

"Nos perguntamos: 'Como isso é possível?'", disse ele anos depois, em entrevista ao Jerusalem Post. "Estávamos errados" ao presumir que outros não seguiriam o exemplo.

Seguiram.

O método se espalharia do Líbano para a Palestina, depois para o mundo todo, culminando nos ataques de 11 de setembro de 2001.

O Sequestrador


Ao longo da década de 1980, Mughniyeh orquestrou uma campanha de sequestros que paralisou a presença ocidental no Líbano. Entre suas vítimas mais notórias estava William Buckley, chefe da estação da CIA em Beirute, que foi sequestrado e posteriormente assassinado. Jornalistas, diplomatas e trabalhadores humanitários foram capturados e mantidos em cativeiro por anos.

Para a inteligência americana, ele ficou conhecido simplesmente como o "mandatário".

Seu nome aparecia repetidamente em telegramas confidenciais, frequentemente acompanhado de frustração. Ele foi rastreado, identificado e até localizado, mas nunca capturado.

Paris, 1985: A Primeira Fuga

Em novembro de 1985, a inteligência ocidental acreditava tê-lo capturado.

Uma interceptação telefônica levou a um hotel de luxo na Champs-Élysées. Mughniyeh estava em Paris, viajando sob uma identidade falsa. A CIA forneceu às autoridades francesas os detalhes de seu passaporte. Um júri federal americano já havia emitido uma acusação sigilosa pelo sequestro do voo 847 da TWA, durante o qual um mergulhador da Marinha dos EUA, Robert Stethem, foi assassinado.

A oportunidade parecia clara.

Mas as autoridades francesas não o prenderam. Em vez disso, teriam se encontrado com ele diversas vezes ao longo de seis dias e o deixaram partir, aparentemente em troca da libertação de um refém francês.

Para Washington, foi uma lição sobre os compromissos da diplomacia. Para Mughniyeh, foi a confirmação de que ele podia superar até mesmo governos aliados.

A Miss Saudita

Uma década depois, surgiu outra oportunidade. Em 1995, informações de inteligência indicaram que Mughniyeh faria escala em Jeddah em um voo do Sudão para Teerã. Os EUA solicitaram que a Arábia Saudita o detivesse. Agentes do FBI estavam preparados para interceptá-lo.

Mas as autoridades sauditas negaram permissão de pouso à aeronave do FBI. Mais uma vez, Mughniyeh escapou.

No ano seguinte, informações de inteligência sugeriram que ele estava a bordo de um navio – o Ibn Tufail – no Golfo Pérsico. Navios da Marinha dos EUA o seguiam, e uma equipe de SEALs da Marinha se preparava para uma operação de abordagem perto do Catar. No último momento, a missão foi abortada. As informações de inteligência não eram confiáveis ​​o suficiente.

O Construtor de Redes

Como chefe de operações internacionais do Hezbollah, Mughniyeh expandiu seu alcance por todos os continentes. Em 1992, um atentado à bomba contra a embaixada israelense em Buenos Aires matou 29 pessoas. Dois anos depois, o centro comunitário judaico AMIA foi destruído, matando 85. Investigadores argentinos alegariam posteriormente que os ataques estavam ligados a diretrizes da liderança iraniana, incluindo o aiatolá Ali Khamenei.

No Sudeste Asiático, sua rede mapeou sinagogas, rotas marítimas e ativos ocidentais. Células operavam na Tailândia, nas Filipinas e em Singapura.

No Iraque, após a invasão americana de 2003, agentes do Hezbollah — treinados com a assistência da Força Quds do Irã — foram acusados ​​de auxiliar ataques contra as forças da coalizão. Figuras como Ali Musa Daqduq tornaram-se a ligação entre militantes libaneses e insurgentes iraquianos.

Mughniyeh era, na prática, o tecido conjuntivo de um ecossistema militante transnacional.

No início da década de 1990, autoridades iranianas faziam parte dos órgãos diretivos do Hezbollah. A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) desempenhava um papel direto no treinamento, na inteligência e nas operações. Acredita-se que o próprio Mughniyeh detinha uma patente formal dentro da IRGC.

Ele consultava regularmente a inteligência iraniana e coordenava ataques tendo em mente os objetivos de Teerã.

O Santuário de Damasco

Na década de 2000, Mughniyeh havia se tornado um dos homens mais procurados do mundo.

Ele vivia em profundo anonimato, supostamente submetendo-se a cirurgias plásticas e raramente aparecendo em público. A Síria, sob o comando de Bashar al-Assad, ofereceu-lhe refúgio, uma decisão que acarretaria riscos significativos.

Israel já havia demonstrado sua disposição de operar em território sírio. Em 2003, atacou um campo de treinamento militante perto de Damasco. Em 2007, destruiu uma suposta instalação nuclear.

Mesmo assim, Mughniyeh permaneceu lá.

O Dia em que o Fantasma Morreu

A operação que finalmente o matou foi, segundo todos os relatos, planejada há anos. A CIA o rastreava em Damasco. Equipes de vigilância observavam seus movimentos, padrões e contatos. A oportunidade, porém, precisava ser perfeita.

Mas danos colaterais eram inaceitáveis. As consequências políticas seriam muito severas.

Em uma ocasião, Mughniyeh foi visto caminhando ao lado de Qassem Soleimani, o poderoso comandante da Força Quds do Irã. A tentação de eliminar os dois foi resistida. O risco foi considerado muito grande.

Os dias se passaram. Então chegou o momento.

Um dispositivo explosivo controlado remotamente, escondido em um veículo, detonou quando Mughniyeh se aproximava de seu Mitsubishi Pajero no bairro de Kafr Sousa, em Damasco. O dispositivo, supostamente projetado com assistência americana e acionado por agentes israelenses, o matou instantaneamente.

Não houve vítimas civis.

Na linguagem dos serviços de inteligência, foi uma operação "limpa".

As Consequências

Em Washington, Buenos Aires e Tel Aviv, sua morte foi recebida com discrição.

O Hezbollah sofreu um golpe devastador. Mughniyeh era seu principal estrategista, sua ligação com Teerã, seu cérebro operacional.

Para a Síria, foi uma vergonha, uma demonstração de que, mesmo no coração de sua capital, não conseguia proteger seus aliados mais valiosos.

Oficialmente, Israel negou envolvimento. Durante anos, a operação permaneceu nas sombras. Foi somente em 2024 que o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Olmert reconheceu publicamente o papel de Israel.

A essa altura, o cenário já havia mudado.

Seu filho, Jihad Mughniyeh, seria morto posteriormente em um ataque israelense na região das Colinas de Golã, na Síria.

O Hezbollah se adaptou, descentralizou, evoluiu.

As táticas que ele pioneirou — atentados suicidas, tomada de reféns, redes globais — tornaram-se ferramentas padrão para organizações militantes em todo o mundo.


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